Prólogo
- Eles voltaram! -O grito do sentinela cortou a noite densa e monótona.
As figuras de 15 ratos surgiam no horizonte.
Os grupos de salvamento estavam de volta, enfim. O Comandante esperara muito tempo por esse dia. Aqueles ratos eram verdadeiramente heróis, pois haviam se infiltrado numa casa humana e salvo vários outros de um terrível destino. O vigia pensava nesses atos de heroísmo até que, num olhar mais atento, percebeu uma enorme forma atrás do grupo. Com um calafrio, identificou um gato. O que exatamente aquela criatura fazia ali?
Todos os amigos (e o gato, que descobriram ter sido domesticado pelo grupo) se acomodaram em volta da fogueira e contaram sua história. Os outros Cavaleiros ouviram tudo atentamente, assim como o Comandante Scoutt. Quando terminaram, o Comandante chamou a atenção de todos para si.
- Meus parabéns, caros pupilos. Você obtiveram êxito em sua missão. Salvaram um certo número de ratos. Resgataram aqueles que ficaram presos na casa. Eu estou... Estou orgulhoso de vocês, meus amigos. Meus caros Cavaleiros.
Os olhos dos Cavaleiros se iluminaram de orgulho. E então o Comandante encarou-os, correndo os olhos pelo gato que vinha atrás.
- Mas agora vamos ter uma conversa sobre... Este gato.
- O nome dele é CHARLIE.- Resmungou Leon, um pouco alto demais.
Invocando
Sirius acordou, suando e tremendo. "Acalme-se." Pensou ele. "Está tudo bem. É só mais um sonho." Para se acalmar, levantou-se e olhou pela janela. Ver os campos e o céu sempre o deixava mais calmo. Naquela manhã, os campos estavam vazios e estava chovendo. Grandes gotas caíam em sequência e o céu estava cinzento e nublado. Raios cortavam o horizonte. Com um suspiro, se lembrou de que hoje teriam um treinamento de invocação de objetos com o Comandante. Ele certamente não iria se importar com a chuva, então com certeza sairiam do campo encharcados. Olhando em seu relógio, que lhe fora dado pelo próprio Comandante há duas semanas, quando voltara de sua missão, percebeu que era muito cedo. Até para um Cavaleiro, que acordava de madrugada para treinar. Então seus pensamentos voltaram-se para o sonho e ele teve um calafrio.
- Sua hora está próxima- Dissera aquela terrível voz, fria e profunda- A profecia se realizará, e eu serei o dono dos Espíritos Indomáveis!
O jovem rato sabia que, quando a profecia se realizasse, ele poderia morrer. Mas sabia também que aquilo que conheciam não estava completo.
"Procure um sábio nas montanhas" Dissera a mãe de Leon. " O que vocês conhecem não está completo."
Sirius imaginou quem seria esse sábio. Talvez algum monge. Os Cavaleiros sabiam que havia um Templo nas montanhas. Certo dia um desses monges fora até a Academia. Ele tinha uma barba muito longa e a maioria dos seus pêlos eram brancos. Caminhava com dificuldade, com o auxílio de uma bengala de madeira, um pouco torta pelo passar do tempo. Havia algumas falhas em seu pêlo, especialmente na cabeça. Certamente parecia muito respeitável e antigo. Amanda lhe dissera que o rato tinha mais de 200 anos, e ele rira, na hora. Mas, pensando bem, quem sabe o monge tivesse mesmo essa idade? Pelo menos era o que parecia. O jovem riu baixinho, se lembrando de tudo, e anotou a pergunta mentalmente para quando encontrasse o tal monge novamente.
Com um bocejo, se lembrou de que estava com sono. Ao som dos roncos de Leon, se deitou e dormiu quase instantâneamente.
Enquanto isso, em outra cabana, Quiquicp e Twinsanity ressonavam, em suas camas. Um trovão acordou Quiquicp. Como Sirius, ele não gostava de trovões.
- Dio Mio. -Disse ele, abaixando as cortinas. - Cosí haverá um tufone. Questa pioggia non si ferma!
Com mais uma espiada pelas janelas, onde uma verdadeira tempestade se formava, fechou novamente as cortinas, trêmulo, e voltou para a cama. Mais um trovão cortou a noite até então calma, desta vez acordando Twin.
- Cruzes. -Disse ele.- Está acordado, Quiqui?
- Sì. -Respondeu o amigo, a voz levemente trêmula. - Questa chuva vai acabar com nosso treino.
- Acho que não. - Respondeu Twin, cansado.-O Comandante não é muito de se abalar com trovões. Falando nisso, já está quase na hora. Vamos logo, e não se esqueça do guarda-chuva.
O Comandante esperava-os no campo de treinamento de costume, quando chegaram. Sirius, Leon, Débora, Amanda e Cheeseblazed estavam lá também, e os dois ratos rapidamente foram para o lado deles. Como já era esperado, todos os ratos estavam ensopados. A chuva não cessava, caindo à volta deles.
- Estão atrasados. -Disse Scoutt, com voz fria.- Vão lavar pratos depois do almoço hoje. Meus parabéns.
- Eles só se atrasaram 7 minutos, véio! -Disse Débora, nervosa.
- Não importa. -Respondeu o Comandante.- Atrasos não são permitidos. E quem reclamar vai se juntar a eles na cozinha!- Tornou, ameaçador.
Os ratos se calaram de imediato. O mestre não estava de bom humor naquele dia.
- POIS BEM!- Gritou ele, para chamar a atenção de todos.- Vamos começar hoje com os conjuramentos de objetos! A começar por balões, que são os mais fáceis. Vou logo avisando que não é uma coisa simples. Vocês terão que se concentrar muito e botar esses seus cérebros diminutos para funcionar. Pensem no balão. Imaginem ele se formando à sua frente e canalizem sua energia para que ela o forme. Vamos! Comecem!
Sirius tentou fazer o que o comandante mandava. Imaginou um balão azul na sua frente. Se concentrou friamente naquilo, e uma dor leve tomou sua cabeça. Ele a ignorou. Sentiu de repente as patas dianteiras ficarem mais quentes e finalmente algo pareceu surgir.
Cheeseblazed, ao seu lado, olhou para o que tinha sido formado e riu. Um balão menor do que uma bolinha de gude havia se formado, e estava vazio. Aquilo caiu no chão e se dissipou em pequenas centelhas douradas. O jovem rato suspirou. De repente Scoutt estava na sua frente. Ele chamou a atenção de todos os outros para si e disse:
- Vejam como se faz.
O mestre fechou os olhos e pareceu estar muito concentrado. Com um rápido movimento de mãos, um balão amarelo apareceu em sua frente. Os outros ratos o observaram, admirados. Até mesmo Sirius, que já havia invocado um cannon em outras ocasiões (mas apenas quando estava com raiva extrema) ficou impressionado com o que vira. Parecia tão simples! Ele resolveu se dedicar mais.
Enquanto os amigos treinavam sob a chuva constante, alguém os observava.
Um par de olhos vermelhos apareceu e sumiu novamente, entre as árvores que cercavam o campo de treinamento.
A Lâmina de Deus
Sirius se concentrou firmemente no que estava fazendo, desta vez. Nada pareceu surgir. "Droga" pensou ele. Encarando os outros, percebeu que todos estavam tendo o mesmo sucesso. Amanda era a única que estava conseguindo alguma coisa. Centelhas douradas saíam de suas patas tomando a forma de um balão verde. Uma pequena corda desceu pelo balão.
Enfim ele voou, em direção ao céu.
O Comandante a observou, orgulhoso. Então lançou um olhar maligno aos outros ratos.
- Será MESMO que vocês são assim tão INÚTEIS? DÊEM O FORA DAQUI AGORA, ANTES QUE EU ACABE COM VOCÊS, SEUS PALERMAS! -E então o velho rato pareceu suspirar. Ele se acalmou um pouco e então tornou a encará-los.- ESPERO que NENHUM de vocês seja tão idiota A PONTO de chegar atrasado ao jantar hoje. Vamos ter um convidado ilustre lá, hoje. ENTÃO ESTEJAM LÁ! DISPENSADOS!!!
Os amigos foram para seus chalés antes de ir para o próximo treino. A chuva estava quase parando, agora, então aproveitaram para se secarem e se lavarem antes de saírem de novo. As palmas das mãos dos ratos doíam terrivelmente, por causa do esforço, e na aula que se seguiu a grande maioria estava com as patas enfaixadas ou cheias de curativos. Aquela era a aula de Batalha com Armas, administrada por Sorentytok, um dos Cavaleiros de Elite que havia ajudado os ratos em sua missão. Ele não era muito mais velho do que eles e costumava ser um ótimo professor, fazendo-os rir inúmeras vezes e exigindo o máximo que podiam dar. Naquele dia, todos receberam uma espada de madeira para aprenderem a lutar com esse tipo de armas. Soren queria que se dividissem em duplas, então naturalmente Leon e Sirius ficaram juntos, assim como Débora e Amanda. Quiqui ficou com Twin e Cheese ficou com Thefernand. O professor os mostrou um ataque simples, que consistia em uma finta, confundindo o adversário, e um golpe direto no peito, que poderia machucá-lo e até derrubá-lo, se feito corretamente. Então demonstrou os diversos tipos de fintas com sua espada. Após deixar os alunos babando com os incríveis movimentos, passou a demonstrar como se defenderiam, ignorando as fintas e desviando a estocada do adversário. Sirius percebeu que o professor não lutava com uma espada de madeira, mas sim com uma arma real, de bronze. Ele ficou impressionado. Prometeu a si mesmo que, um dia, lutaria com uma dessas.
- Comecem. -Disse o professor, dando início às batalhas.
Leon atacava primeiro. Sirius se concentrou na ponta de sua espada, lembrando-se de ignorar as fintas. Pacientemente, esperou o adversário investir com a arma em seu peito e então se defendeu com a parte interior da espada. Sem pensar, investiu contra o amigo com a própria arma de madeira e, quando recuperou os sentidos, tinha Leon encostado em uma árvore, com a ponta da espada falsa em seu pescoço. Assustado, se afastou do amigo, que fez um som rascante com a garganta, como se estivesse engasgado. Sirius percebeu então que o machucara na garganta. Aliviado, constatou que não era nada grave, apenas um pequeno corte.
O professor Soren o encarou longamente. Todos os presentes ratos o observavam com assombro. O jovem rato ficou muito nervoso, de repente.
- Venha comigo, filho. -Disse Soren, suavemente. -Os outros... Ahn... Continuem treinando! Eu já volto.
Sirius o seguiu. Os dois ratos adentraram na Academia e seguiram por um longo corredor. Viraram à direita na grande tapeçaria que representava a Batalha do Tio Tsuí- Chua -Teísé, no Japão, e foram em frente, subindo dois lances de escada até chegar em uma sala no Terceiro Andar. Sirius percebeu que Soren estava um pouco nervoso, mas senhor de si. Ele abriu a porta, após um segundo de hesitação.
Era uma sala muito interessante. Inúmeros ganchos e estantes a ocupavam completamente. Em cada par de ganchos, repousava uma espada. Elas variavam muito, indo das douradas às negras, das longas e finas às pequenas e largas e das curvas às retas. Abaixo de cada uma das espadas, estavam os seus nomes, gravados em placas de bronze. Sirius registrou inúmeros, de "Morte total" a "Korraskas". Todas pareciam muito poderosas e potentes, armas as quais apenas um Comandante ou superior poderia adquirir. No entanto, o olhar e a atenção de Sirius foram atraídos para uma espada que estava no centro da sala, numa redoma de vidro. Ela era um pouco curva e parecia imemorial, como se fosse a mais antiga arma daquela sala. Sua lâmina era muitíssimo afiada. O punho da espada era de um material dourado reluzente. Estavam gravadas algumas letras em latim, na lâmina. Aquela arma despertava medo em quem a observava. Parecia poder cortar apenas com um toque. Sirius encarou o professor, que a esta altura estava ao lado da tão temida lâmina.
- Esta -Disse ele, parecendo muito calmo e frio.- É Verutun Dei. A Lâmina de Deus.
A sala 666
Sirius o encarou, admirado. O nome fez seus pêlos se eriçarem. O professor o encarou e continuou falando.
- Veja, o que eu vou dizer agora é altamente confidencial. Você está oficialmente proibido de comentar o que direi a seguir com qualquer um, a menos que tenha a minha permissão. Está ouvindo?
- Sim, mestre. -Respondeu o rato, nervoso, mas absorto.
- Pois bem. Esta sala, Sirius, é uma das mais secretas da Academia. Seu nome é "Sala das espadas", a sala número 666. Gerações de ratos se perguntaram porque a sala 665 ia direto para a 667. Essa sala foi escondida por muitos séculos. Apenas nós, professores, Comandantes e Generais podem adentrá-la. E, dentre os professores, apenas os instrutores de armas, como eu, podem tocar nas armas que aqui se escondem. E aqueles que nós convidamos. Veja, Sirius. Cada arma daqui tem um poder especial, algo que a diferencie. Algumas foram utilizadas por grandes mestres; São peças históricas de grande poder. Outras foram encontradas em circunstâncias misteriosas e algumas mais têm suas lâminas repletas de magia. Veja! -Exclamou o jovem professor, apontando para uma lâmina prateada, com algumas penas entalhadas em seu metal, aparentemente muito leve- Aquela é Áv̱ra, uma espada aérea. Com ela, você poderia controlar os sete ventos, os mandando atacar quem você quisesse! Consegue imaginar? -Perguntou Soren, encarando-o. E então apontou para uma lâmina gigante, de quase três metros, e que parecia feita de algum material parecido com argila. - Essa é Zemli, uma espada terrena. Com ela, poderia criar montanhas apenas com pequenos movimentos. - O professor então apontou para uma espada que parecia ser feita de pedra negra.- Essa é Styx, feita de obsidiana. Dizem que pode invocar os mortos, e matar apenas com um toque. -Novamente apontou para uma espada, esta com um punho verde brilhante, como uma esmeralda, e uma lâmina dupla, com um desenho tribal na base. O mestre apontou para ela e a arma pegou fogo. Sirius o encarou e depois olhou de volta para a espada, admirado. -Essa é Flamer, a lâmina do fogo. Percebo que você não havia realmente acreditado em minhas palavras até este momento, não é mesmo, meu caro? -O professor riu. -Há inúmeras mais nesta sala. Mas nenhuma é tão poderosa, ou misteriosa, quanto esta aqui. -O professor apontou para a lâmina que repousava na redoma da vidro- Ela é uma lenda. Creio que você esteja se perguntando porque eu lhe mostrei isso, não é mesmo? -O professor disse, misterioso. Pois bem, a Verutun Dei pertenceu ao seu pai.
- Ao meu... pai? -Perguntou o jovem rato, admirado.
-Seu pai, meu caro, era um excelente espadachim. Sua espada era uma lenda, encontrada por ele mesmo sob circunstâncias misteriosas. Alguns dizem que ela era demoníaca, pois não podia ser tocada. Quem a tocava com as mãos nuas sofria um sofrimento terrível e, às vezes, até enlouquecia e perdia a razão. Alguns dizem que era um item vindo do Mundo Inferior, banhado no Tártaro. Mas apenas alguns sabem o verdadeiro segredo da Lâmina de Deus. Eu tenho a sorte de estar entre eles, e você também terá, meu caro amigo.
"Veja, a Extremam eius conspectu é de bronze celestial. Ela foi fabricada, aproximadamente, em 666 a.C. Ninguém sabe sua origem. O mais provável é que ela tenha nascido dos restos de pesadelos humanos e de ratos amaldiçoados e torturados no Mundo Inferior, que corriam nas águas negras do Rio Estige. Quando as três Fúrias encontraram aquela terrível lâmina, entenderam o que significava o VERDADEIRO MAL. E forjaram um punho para ela nas forjas dos Dêmonios do Mar (telquines). Então, Alectó (a terceira Fúria) a levou para ser amaldiçoada pelas Parcas. A maldição de Verutun Dei foi tão forte que dizem que, se um homem a tocar com as mãos nuas, poderá enlouquecer, imerso em seus próprios pesadelos. Deus viu tamanho poder maligno e confiscou a espada, levando-a consigo. Por muitos anos ela permaneceu desaparecida. Mas, um dia, Ele decidiu confiar a um ser a guarda da terrível arma. Deus a deu para os espíritos Indomáveis, sabendo que, quando encontrassem um corpo comum, ela retornaria às mãos de um rato na Terra, que a protegeria. Seu pai, Sirius. Kobe era seu nome. Esse rato se tornou um guerreiro lendário, assim como sua mãe. Mas a espada de sua mãe nunca foi encontrada e pouco se sabe sobre ela. Agora, esta lâmina tem muitas histórias girando em torno de si. A mais verídica, na qual eu, o Shaman da vila e o Comandante acreditamos, é que o poder Dele ainda está contido nela, assim como o poder demoníaco da lâmina. Sendo assim, ela é o centro do poder de ambos os lados na Terra, representando o equilíbrio entre o bem e o mal."
- Wow. - Disse Sirius, muito pensativo. -Por que me contou isso, mestre? Eu não sei nada sobre espadas e não sou nada parecido com o meu pai.
- Nada parecido? NADA PARECIDO?- Exclamou o professor- Você me faz rir, aluno. Você é igualzinho ao seu pai, mas tem os olhos de sua mãe. E o gênio também é dela. Eu o conheci, por pouco tempo, antes...
Sirius ficou muito quieto, mas o professor não insistiu no assunto.
- E como pode dizer que não é um bom espadachim? Não viu o que fez com Leon hoje, na primeira aula com espadas? -Perguntou Soren ao aluno.
- Leon! -Exclamou Sirius, nervoso. Como podia ter esquecido do amigo?- Ele está bem? Eu o machuquei?
- Seu amigo está ótimo. -Respondeu o jovem mestre.- Acredito que ele seja muito forte, pois aquele não foi um golpe fraco. Mas isso não importa. Eu o trouxe aqui e o mostrei tudo isso porque acredito que você tenha o mesmo talento do seu pai. E, sendo seu único descendente, é o único que pode tocar a Verutun Dei. Sirius, você tinha que saber mais sobre seu passado, pois a hora em que essa espada será importante na sua vida e na de todos nós não está longe. E, com isso, está dispensado.
O professor agitou a pata e a a sala se dissolveu. De repente, Sirius estava nos campos de treinamento. Leon, Twin e Quiquicp estavam ao seu lado. Pela posição do sol, o rato percebeu que a aula já havia acabado há algum tempo. Quanto tempo será que ele havia passado na sala 666?
- Sirius? -Perguntou Twin, alarmado. -Eu não te vi chegar, cara!
- É, eu também não. -Respondeu Sirius, um pouco tonto. - Novidades?
- É isso que eu pergunto -Disse Leon. -Onde você esteve?
- Depois eu te conto -Murmurou Sirius. Eu te machuquei com aquela espada idiota?
- Não, fique tranquilo- Respondeu Quiqui, antes que Leon falasse alguma coisa. -Egli só te chiamati de algumas palabras feias.
Leon enrubesceu. Twin lançou-lhe um olhar malicioso e sorriu.
- Mentira. -Disse Leon.
Então Twin viu algo que lhe chamou a atenção.
- Ei, galera, vejam aquela rata!
Uma linda rata acabara de chegar. Ela vinha acompanhada pelo Shaman da vila e pelo Comandante Scoutt. Era magra e esguia e usava uma bela flor nos cabelos, coloridos com mechas um pouco mais escuras. Andava com elegância. Leon não desgrudava os olhos dela.
De repente, Amanda e Débora chegaram, correndo, afobadas. Amanda foi a primeira a falar:
- Gente! Tem uma nova aluna na nossa turma. O nome dela é Fleur.
Débora a interrompeu.
- E ela é FILHA DO SHAMAN!
Os ratos a observaram, admirados. O Shaman da Vila os observou e de repente todos se sentiram muito tentados a ir direto para o refeitório almoçar.
A briga
O almoço foi silencioso. Cheese chegou atrasado, como de costume, pois estava ajudando o Comandante a transportar alguns equipamentos. Todos se acomodaram na mesa em que sempre se sentavam, próxima à janela, que hoje mostrava um céu nublado e cinzento. Deveria ser por volta da uma hora, então o almoço hoje estava atrasado. Espere, volte. O almoço NUNCA ficava atrasado. Todos os dias, ao meio dia, todos tinham que estar ali e a comida era servida pontualmente. Pontualidade era uma qualidade dos Cavaleiros do Queijo. Os ratos que chegavam atrasados ao almoço, jantar e aulas eram castigados, tendo que comer moluscos por algumas semanas. Por que hoje havia sido diferente?
Sirius refletia sobre isso, quando de repente um rato desconhecido apareceu na mesa dos amigos, cortando seus pensamentos e silenciando as conversas. Leon o encarou.
- Nedlemouse? -Perguntou ele. Se lembrava desse rato junto aos amigos na missão. Era o primeiro que correra quando ele aparecera com o gato. Com uma risadinha, Leon se lembrou de como esse pequeno rato parecera amedrontado na hora. Mas sabia que, na verdade, ele era realmente corajoso. Sirius havia contado com sua ajuda para colocar Charlie fora de combate, antes dele o encontrar.
- Sim. -Respondeu o rato.
Sirius se lembrou dele de repente. "Os melhores ouvidos do grupo, depois de Leon". A frase veio a sua mente, junto com a tenebrosa imagem da sala fria e escura. Ele estremeceu.
- O que você quer aqui, amigo? -Perguntou Sirius, estranhando. -Você costuma almoçar com o povo que fazia parte da Equipe Beta, não é mesmo?
- Sim. -Repetiu o rato.- Mas o Comandante quer que eu chame o Leon imediatamente para ver uma coisa.
- Ver o quê? -Perguntou Leon, curioso.
- É... É sobre o seu gato. -Respondeu Ned, nervoso.
O rosto de Leon assumiu uma expressão sombria.
- O que houve com o Charlie? -Rosnou ele.
Nedle enrubesceu.
-É melhor vocês virem comigo -Disse o rato, tenso.
Sirius, Leon e Quiquicp foram atrás de Nedle, que os levou para os estábulos atrás do refeitório, um pouco afastados. Sirius já fora ali, dar de comer a Charlie, com Leon. Era um lugar bonito, com árvores a toda a volta. Os Cavaleiros o usavam para guardar suprimentos e, de vez em quando, montarias simples como lagartixas e pequenas serpentes. Quiquicp adorava as serpentes. Uma vez o Comandante lhe ensinara a montar em uma. Mas o jovem não costumava ir ali, por causa das enormes aranhas que, conforme os Cavaleiros em treinamento, rondavam o local. Quiqui odiava aranhas. Ele sentiu um arrepio descer pela espinha ao pensar nelas.
E então eles chegaram ao pequeno celeiro onde ficava Charlie. A poucos metros da porta, ouviram um terrível ruído. Se parecia com um grito agudo, ou uma lira desafinada. Sirius não o reconheceu, mas Leon sim.
- Charlie.-murmurou ele, correndo para a porta. Sirius percebeu as orelhas abaixadas e a cauda reta do amigo. Ele estava MUITO bravo.
Sirius e Quiqui se entreolharam, apreensivos, e seguiram o amigo.
O barulho era mesmo de Charlie, que miava, desesperado, no centro do celeiro. Ele estava preso com cordas, amarradas em pequenos tocos. Um barbeador enorme estava no chão do local. Sirius não sabia se ria ou se ficava bravo com o que via.
Charlie estava inteiramente careca, exceto por alguns tufos de pêlo na cabeça, patas e rabo, o que o fazia ficar parecido com um pudlle muito, mas muito raivoso. O animal silvava, se debatendo para escapar das amarras. Leon fez um rápido movimento com as mãos e as cortou, todas de uma vez.
Charlie rolou para o lado, miando exausto. Embaixo dele, estava pichada uma mensagem em letras roxas-berrantes.
"ISSO FOI PELO MEU KIT DE MAQUIAGEM!"
Sirius rosnou. Por que alguém faria aquilo com Charlie, e mais, por um motivo tão idiota? Subitamente, uma risadinha torpe cortou seus pensamentos.
- Ha, ha, ha... -Disse alguém, na porta. -Bem feito para esse bicho inútil...
Charlie silvou, cansado. Uma rata alta, esguia e magra, com mechas escuras no cabelo, olhou para eles com malícia. O jovem rato reconheceu a filha do Shaman.
- Por que... POR QUE você fez isso? -Ele gritou, irritadíssimo.
- Porque eu quis, querido. -Respondeu a rata, com uma voz aguda e infantil. - O que você vai fazer, hein?
Sirius encarou-a, raivoso. E então olhou para Leon. O amigo estava parado ao seu lado, espumando de raiva.
Suas orelhas abaixadas e as sobrancelhas arqueadas lhe davam o rosto de um assassino. Pela primeira vez Sirius percebeu a sombra do rato de rua que ele fora, não muito tempo antes.
- Eu vou te matar, sua menina idiota e metida a besta, filha de uma rata. -Rosnou ele.
E avançou para a rata, que ria, insolentemente.
Sirius e Quiqui agiram rapidamente, se postando ao seu lado e segurando-o firmemente para que ele não fosse para cima da filha do Shaman. Por sorte eles haviam sido treinados para ter reflexos ofuscantes de tão rápidos.
- Dio mio, Leon! -Sussurrou Quiqui para o amigo. -Se você a machucar, eles te matarão!
- Ha, ha, ha... - A rata ria, irritando-os. Sirius se sentiu tentado a soltar o amigo e deixá-lo espancá-la. Leon se debatia, tentando ir atrás dela. De repente, ela apareceu diante deles. O rato estacou. Ela parecia ser tão rápida quanto... Quanto o próprio Comandante Scoutt! A delinquente o observou, risonha, e pôs a pata em seu focinho, e depois em seu queixo, levantando sua cabeça.
- Sabe que você até que é bonitinho, querido? Me liga, tá? Meu nome é Fleur. Fleur Maya.
Sirius rosnou, pensando em Débora. Ele se distraiu, por um momento...
E soltou Leon.
Quiquicp não foi forte o suficiente para segurar o rato enfurecido. Ele pulou em cima de Fleur e a encheu de socos. Os gritos da rata foram o suficiente para, de repente, uma verdadeira multidão estar ali dentro, no celeiro. O Shaman e o Comandante Scoutt estavam entre eles.
- MINHA FILHA! -Gritou o Shaman, raivoso. Com um minúsculo movimento das patas e um estalo de dedos, jogou Leon no outro lado do celeiro. O rato estremeceu e depois desmaiou, com o impacto.
- Meu senhor! -Disse o Comandante. Sirius nem parou para pensar em como era estranho o comandante chamar alguém de senhor, pois as coisas estavam ficando realmente tensas. -Tenha calma! Ele não a machucou de verdade. Só atingiu os pontos de força dela, os lugares mais doloridos de seu corpo. Onde será que esse rato aprendeu isso? São técnicas de tortura milenares. - A rata gemeu de dor, caída no chão.
- Aaaah! Papaai, ele é mau! Muito mau! Eu não fiz nada...
O Shaman rosnou.
- Suponho que esse... delinquente... Seja castigado firmemente, segundo suas mais duras leis, não é mesmo, Comandante?
Sirius não suportou mais.
- Senhor! -Disse ele, nervoso- Leon não fez nada! Ela- Sirius apontou a filha do Shaman.- o provocou!
O Shaman o encarou, subitamente.
- Sirius, não é mesmo? Pelo que me lembro, você só está aqui por minha causa. Espero que você saiba com quem está andando. E que faça seus votos de lealdade às pessoas certas.
Sirius abaixou a cabeça.
Quando a multidão se dispersou, e Fleur foi levada para a enfermaria, apenas o Comandante Scoutt e o grupo de amigos permaneceram no celeiro. Os amigos haviam chegado há pouco tempo, ouvindo o barulho.
O Comandante foi até o fundo do celeiro. Ali, Leon estava caído no chão, desmaiado, com uma expressão homicida no rosto. Ele colocou a pata em sua testa. "Hum." Resmungou ele.
- Seu amigo está bem. -Disse. -Creio que um ou dois dias na enfermaria e ele ficará ótimo.
Então se aproximou de Charlie, que estava deitado em cima de um monte de palha, tremendo.
- Quanto a ele... Acho que posso fazer alguma coisa por esse animal. - Com um movimento de patas, e uma sequência de pequenos movimentos que pareciam uma espécie de dança, o pêlo do gato cresceu um pouco. Isso pareceu deixar o Comandante esgotado. "Está feito" Bufou ele.
Então, todos os amigos saíram da sala, Cheese e Sirius levando Leon nas costas. Depositaram o colega numa cama da enfermaria. A enfermeira-chefe prometeu que ele ficaria bem em algum tempo. Ela espetou uma agulha de soro no braço do rato desmaiado. E mandou os outros embora.
Mas aquelas não seriam as únicas surpresas da noite.
No refeitório, todos falavam de Leon. Pelo que ouvia, Sirius percebia que todas as conversas inocentavam a rata idiota, Fleur. Ele estava realmente tenso com tudo o que acontecera. Vendo-o assumir sua esquecida face fria e calculista novamente, Débora tentou animá-lo com alguma coisa -Qualquer coisa-. Pela janela, viu uma carruagem puxada por três besouros levando alguém.
- Vejam! -Exclamou ela, agradecida por ter algo que distraísse os amigos do mais recente assunto. - O que será que é aquilo?
Então aquele que estava sendo transportado na carruagem apareceu.
Era um velho rato com barbas brancas, apoiado numa bengala torta.
O monge do Templo nas Montanhas.
Boas notícias/Más notícias
O Comandante ordenou que fizessem uma formação de cumprimento. Quando o velho rato entrou no refeitório, todos os Cavaleiros bateram continência e então se curvaram, respeitosamente, e em silêncio. Ele se dirigiu a um pequeno púlpito que o Comandante mantia no refeitório para falar aos alunos, de vez em quando.
- Meus jovens! Agradeço pelo respeito e consideração que vocês estão aparentando ter para comigo hoje. As notícias que trago não são boas; Há riscos iminentes para todos nós. Bem... Lobos foram avistados na Floresta. -Sussurros nervosos, assustados e excitados percorreram o refeitório, e acabaram com um grito do Comandante. -Sim- Prosseguiu o monge. -Lobos. Vocês já ouviram falar deles, não é mesmo? Seres absolutamente imensos, maiores do que dez gatos ou cem ratos juntos. Com pêlos espetados, e cores que variam do cinza até o branco, passando pelo marrom e o preto. Sim, lobos, com dentes afiados e olhos amarelos. Esses mesmos lobos que vocês imaginaram, meus jovens. E eles estão muito perto. Vim alertá-los para que se protejam, e protejam também seus animais e montaria. Não deixem nada vulnerável, pois eles matarão o que puderem. Andem sempre em grupos. Não saiam sozinhos; Seria como um pequeno lanche ambulante para esses animais terríveis. E se lembrem de que os lobos são assassinos cruéis, mas muito belos. Eles criam uma atração sobre nós, ratos. Em nossas mentes, acreditamos que podemos dominá-los. Que podemos criar laços de amizade com eles. Mas isso é impossível. Esses seres são selvagens e não aceitam dominação. Então é apenas o que peço. Tomem cuidado. -Os ratos se entreolharam, imaginando se haveria mais. Estavam certos.- E agora, as notícias boas! -Continuou o monge, com um sorriso.- O Comandante permitiu que vocês fizessem uma excursão ao Templo no mês que vem. -Todos os Cavaleiros vibraram. O Templo parecia incrível! - Sim, sim! -Disse o velho rato, no púlpito.- Eu tinha certeza de que adorariam. E vão aprender a domar alguns tipos de animais lá, a fazer poções e remédios com plantas medicinais, e alguns tipos de meditações e técnicas de autocontrole. A excursão será no próximo mês.
Com isso, o monge acabou seu discurso ali, que foi seguido de aplausos entusiasmados.
Ele se retirou para um dos quartos privilegiados que o Comandante mantinha apenas para os convidados ilustres, e todos os ratos foram mandados de volta a seus chalés. Sirius se dirigiu, sozinho, até o seu próprio quarto. Enquanto andava, olhou para a Casa Principal, onde ficavam os quartos dos visitantes ilustres. Com ondas de raiva descendo por seu peito, percebeu que Fleur ficaria ali também. A rata o localizou e sorriu para ele, da janela de cristal, cercada por lindas cortinas floridas. Sirius rosnou, começando a tremer e se controlando muito para não tacar um belo de um cannon na direção daquela idiota. Seus dedos se contorciam, ansiosos por invocar uma bola de ferro do tamanho de uma casa e jogá-la na filha do Shaman. "Argh!" Ele pensou, nervoso. "Se acalme, Sirius. Você é um rato bom e bem-comportado e não vai fazer essa desfeita ao Comandante." Na janela, a rata riu, fazendo um gesto obsceno para Sirius. Ele não suportou mais; Se viu fazendo uma esfera de energia no alto e, no último momento, parou, extinguindo-a num fiapo de fumaça. Suspirando, percebeu que os guardas da Casa Principal haviam percebido seu pequeno ato terrorista. "Droga" pensou ele. Mais um problema. Os guardas vinham a todo vapor, mas felizmente Sirius sabia como fugir deles. Subindo em uma árvore rapidamente, esperou até um dos seguranças chegar perto e pulou em cima dele, tapando sua boca com as patas. e apertando uma pequena veia em sua nuca. Ele desmaiou antes que pudesse fazer algum barulho. Logo o outro guarda estava lá, a procura do colega, mas Sirius pensou rápido; O rato se escondeu nas sombras das árvores e, quando o segurança se abaixou junto ao outro, desmaiado no chão, ele tacou um galho em seu rosto. Atordoado, o guarda se virou para ver o que era aquilo, mas Sirius lhe deu uma rasteira e apertou a tal veia na nuca. Então levou os corpos dos dois para a Floresta. Vendo-os ali, sorriu maliciosamente. Não se lembrariam de nada no dia seguinte.
Andando até o chalé, Sirius pensou no que havia feito. Talvez não fosse correto, mas naquele dia as coisas estavam muito feias para o seu lado. Ele não estava com paciência para mais nada. NADA. O jovem rato começava a conhecer o estresse.
Na frente de sua casa, ouviu altos rosnados. O que era aquilo? E então a voz de um rato. As orelhas de Sirius ficaram em pé. O rato se pôs alerta.
Os gritos eram de Twinsanity.
Correndo até a cabana, viu uma terrível cena:
Twin estava agachado embaixo de uma árvore, com um ferimento terrível na perna traseira esquerda. Ele não conseguia se mexer, e nem levantar. E, em sua frente, um lobo enorme, de pelagem negra e olhos amarelos o observava, compenetrado. O animal era incrível. Seu pêlo revoava e se agitava, com o vento noturno. Seus olhos pareciam focos de luz. Sirius ficou paralisado. E então voltou à realidade, com um rosnado maligno da criatura.
O lobo avançava para Twin, passo ante passo. Sirius olhou para aquele gigantesco animal. Não havia tempo para chamar ajuda, e, com a raiva diminuindo, não conseguiria invocar um cannon. Aliás, nem mesmo um cannon seria suficiente para lutar contra uma dessas criaturas.
O que ele faria?
BlackJack
Sirius encarou o lobo. De repente, percebeu que não poderia matá-lo. A criatura se movia graciosamente para Twin. Seus movimentos eram quase hipnóticos. Sem saber o que fazer, o rato fez a coisa mais idiota que poderia ter executado. Ele gritou para chamar a atenção do animal.
- EI! SAIA DE PERTO DO MEU AMIGO! -Gritou o jovem, estupidamente.
O lobo parou. A portentosa cabeça se virou para Sirius lentamente. Aqueles olhos amarelos o encararam e, por um momento, o jovem Cavaleiro teve a sensação de que o bicho estava lendo seus pensamentos. Então, o animal se virou para ele lentamente. O primeiro pensamento de Sirius foi: "Estou morto."
E, nesse momento, o lobo se curvou, numa respeitosa reverência, abaixando as duas patas dianteiras. Uma voz apareceu, fria e rouca, mas bondosa, no fundo da mente do rato.
"Salve, Sirius Luppus Castellan. O portador dos Espíritos Indomáveis, filho de Lyra Castellan e de Kobe Luppus.
Esperamos muito por este dia. Venha comigo, senhor."
Sirius encarou o lobo, incrédulo. Ele estava mesmo falando com ele? Como... Como isso era possível? E o animal sabia seu sobrenome, o qual nunca dissera a ninguém. Nunca o usara.
O lobo estava quase entrando na floresta, mas hesitou, esperando que Sirius o seguisse.
"Algum problema, senhor?" Perguntou.
O jovem rato tentou usar a conexão mental para falar com ele.
"Eu... Eu não sei se...Ahn...." Droga. Aquilo estava pior do que pensava.
"O senhor está preocupado com seu amigo?" O lobo foi compreensivo. "Não se preocupe. Não fui eu que o machuquei. E estava tentando salvá-lo, pois vi o senhor em sua mente."
"Ahn...Sim." Sirius respondeu ao animal. "Você pode ajudá-lo?"
"Se é o que deseja... O levaremos para a Alcatéia. Lá, trataremos seus ferimentos com ervas." O lobo pareceu seguro enquanto pegava Twin delicadamente com a boca e o colocava em suas costas. Isso deixou Sirius mais calmo.
"Onde é a Alcatéia?" Perguntou Sirius enquanto andavam. "Como você sabe que eu sou um Espírito indomável? Como sabe meu nome? E, principalmente, COMO estou conseguindo falar com você?"
"Vejo que está confuso, senhor." Disse o lobo, divertido. "Tenho respostas para todas as suas perguntas. Veja, a Alcatéia não é longe. Fica no fundo da Floresta, num local inabitado e inexplorado pelos ratos. O senhor será o primeiro a vê-la, em anos. Todos nós esperávamos por você há séculos. Vão ficar felicíssimos de vê-lo." Sirius se sentiu orgulhoso com isso. "Eu posso ver os Espíritos se agitando dentro do senhor. São inspiradores. Eu sei seu nome, pois você é uma lenda entre todos os lobos do mundo. E, por último, tenho certeza de que o senhor sabe que os Espíritos Indomáveis tomavam a forma de lobos quando estavam na Terra. Eles tinham uma relação especial conosco."
Sirius ficou pensativo. Não conhecia esta parte da história. Porque o Comandante não havia contado isso a ele? E agora estava andando rumo à parte desconhecida da Floresta, conversando com um lobo! Seu mundo virara de cabeça para baixo.
"Senhor?" Perguntou o lobo, confuso. "Está bem?"
"Sim" Respondeu o rato, pela conexão mental. "Só... Pensando. Há muita coisa para processar." E então ele encarou o lobo, que andava ao seu lado. "Por falar nisso, qual é o seu nome?"
"BlackJack, senhor." Respondeu o animal, calmamente. "Fico honrado de estar conversando com você agora."
Sirius riu. E então começou a ouvir barulhos na floresta, próximo a eles. Rosnados e uivos encheram o ar.
"Chegamos." Disse BlackJack, contente. "Conheça a minha família."
Sirius se viu em uma pedra, em frente a aproximadamente 200 lobos. Uma voz gritou, em sua mente.
"É o Indomável! Ele voltou para nós!"
E 200 lobos fizeram uma respeitosa reverência para um minúsculo rato marrom, dobrando suas patas à luz da Lua.
A Alcatéia
Sirius sentiu uma nova energia dentro de si. Ele não sabia bem o que dizer, mas sentia que tinha que ser algo como um discurso. Nervoso, encarou os lobos, mas foi salvo por uma grande loba branca. Ela parecia ser maior e mais graciosa do que seus companheiros. Suas feições eram belas e esguias. A loba se levantou primeiro e subiu para a pedra num salto elegante. Então, encarou Sirius e uma nova voz invadiu sua mente.
"Olá, meu senhor. Seja muito bem vindo a nossa humilde residência. Todos nós nos sentimos muito honrados com sua presença e felizes com a sua volta. Por favor, nos deixe conhecê-lo. Seu amigo será tratado com as mais finas ervas. Com sua permissão, descobriremos quem o machucou e o destruiremos" A loba rosnou. "Eu sou Maya, a alfa desse bando."
"Ahn... Prazer." Sirius respondeu, nervoso. "Boa noite" Disse, com voz fraca, para os outros lobos. Todos eles se entreolharam. O rato pensou que estava perdido, mas de repente, um deles gritou: "Boa noite, mestre!"
E então aconteceu. Todos os lobos uivaram, felizes, e juntos, para a Lua, que brilhava enorme no céu. O som era tão bonito que Sirius se sentiu tentado a uivar também, mesmo fazendo papel de idiota. Era um som melancólico, mas que ressoava com felicidade. Como se todos os lobos estivessem festejando algo invisível. Uma alegria secreta.
A noite a partir daí se tornou menos tensa e mais agradável. Sirius brincou como há tempos não brincava. Se sentiu como um filhote de lobo, um cachorrinho pronto para se divertir e aprender a caçar. Todos os animais tinham um enorme respeito por ele, mas era algo sadio. Uma coisa boa, como um elogio. Era muito bom fazer parte, ainda que por uma noite, da Alcatéia. Todos participavam da brincadeira: Adultos, filhotes, e até mesmo alguns idosos, que corriam e pulavam como se fossem jovens novamente. A noite alegre passou muito rápido.
Logo era a hora do repouso. Era um costume antigo todos os lobos se deitarem à frente daquela grande pedra, que lembrava uma espécie de palanque, ou palco, ao rato, e contarem antigas lendas de sua tribo, antes de se retirarem para as grutas em que dormiam. Os anciãos mais velhos do bando subiam na pedra e recitavam a história de seu povo. Às vezes, um novo membro do bando era anunciado, como quando se percebia que um filhote havia se tornado adulto.
Novamente, todos participavam. Sirius logo percebeu o tipo de união que aqueles animais mantinham entre si. Tudo estava interligado e todos eram respeitados como iguais. Os lobos dividiam tudo o que possuíam e a comunidade era pacífica. Todos os membros eram importantes; Os filhotes, como fonte de sangue novo para o bando, e a nova geração; Os adultos, por serem o núcleo da Alcatéia, mantendo tudo o que possuíam em ordem; E os idosos, que preservavam a história daquele povo, mantendo todos unidos. Sirius se sentia honrado de fazer parte daquela tribo.
Antes da Cerimônia das Lendas, o jovem rato resolveu ir ver como estava Twin. A gruta em que o amigo estava sendo tratado era um pouco afastada. Adentrando o lugar, percebeu que era muito bonito. As paredes eram de cristal, e refletiam as cores do arco-íris. Twinsanity estava deitado numa confortável cama de palha e folhas em um canto. Uma loba cuidava de seus machucados com uma mistura de ervas. Eles estavam limpos e pareciam bem melhores agora. Vários já tinham se fechado. O rato ainda estava inconsciente.
"Ele vai ficar bem?" Perguntou Sirius, preocupado.
"Mas é claro" Respondeu a loba, tranquila. "Essa solução de extrato de macadâmia e camomila sempre funciona."
"Ah..." Sirius resolveu sair logo, antes que a loba começasse um discurso sobre o remédio.
Chegando ao Grande Altar, como os lobos chamavam a pedra-palco, viram que quase todos estavam prontos. Maya estava deitada a um lado, enquanto os Grandes Anciões subiam na pedra, com passos lentos e levemente mancos. Ela fez uma respeitosa reverência e se retirou, indo se colocar entre os outros lobos. Um dos anciãos, que era cinzento e parecia ser o mais idoso, se sentou em frente a todos, no ponto mais alto do Grande Altar. Ele encarou a todos e começou a contar.
"Era uma época de guerra e destruição. Três espécies lutavam pelo poder. Os lobos, os humanos, e os ratos.
A nossa espécie não estava em uma boa posição. Estávamos perdendo para os humanos e quase sendo dominados pelos ratos.
Foram anos difíceis.
Até a chegada dos Espíritos. Eles eram muito puros e não tinham preferências, mas nossa espécie sempre foi muito querida por eles. Os Indomáveis se transformavam em lobos, em sua forma terrena."
O Grande Ancião foi interrompido, de repente.
Um rato corria, desesperado, gritando.
Sirius bateu com a pata na própria testa.
O rato era Twin.
A Cerimônia
Sirius se levantou, exasperado. "Droga" pensou ele. O rato andou até Twinsanity.
- TWIN, SEU IDIOTA, PÁRA AGORA! ESTÁ TUDO BEM.
Twin o encarou, confuso.
- TUDO BEM? Como assim está "TUDO BEM"? Estamos no meio de uma colônia...
- Alcatéia... -Sirius corrigiu.
- ALCATÉIA, QUE SEJA! Estamos no meio de uma Alcatéia, CHEIA DE LOBOS! Como pode estar TUDO BEM?
- Escuta, se acalme agora ou vou ser obrigado a mandar eles arrancarem seus intestinos.
Twin imediatamente se calou. Sirius contou tudo, calmamente, desde que conhecera BlackJack. O amigo ficou em silêncio por muito tempo. Enfim, encarou Sirius e disse, pensativo:
- Cara, essa é a história mais maluca que eu já ouvi.
Sirius riu. Em seguida o apresentou aos lobos, que o acolheram, felizes.
A contação de lendas adentrou a noite. Sirius e Twin dormiram juntamente com BlackJack numa gruta humilde, mas muito bem-cuidada e limpa. De manhã, foram acordados pelo lobo negro.
"Senhor?" Perguntou ele. "Acorde, vamos! Há algo que queremos fazer antes de irem."
"Okay" Sirius respondeu, sonolento.
Twin foi um pouco mais difícil de acordar.
- Twinsanity, acorda! ACORDA, BELA ADORMECIDA! -Disse Sirius, chacoalhando-o. Porém, não adiantou muita coisa.
"Caramba, senhor, tem certeza de que ele não foi picado por aquelas moscas do sono?" Perguntou BlackJack, alarmado.
"Não, pode ter certeza disso. Bem que o Quiqui dizia que esse animal dorme feito uma pedra."
Então, olhando para o lobo, teve uma idéia.
"Traga um pouco de água, por favor, BlackJack." Disse o rato.
"Sim, senhor" Respondeu o lobo, divertido.
Logo ele estava de volta, com um pequeno balde feito de coco nos dentes. Sirius pegou um pouco de água com as patas e jogou no rosto do amigo.
- GAAAH! -Gritou Twin, acordando imediatamente.
- Acordou, Bela adormecida? -Perguntou Sirius, rindo, e piscando sutilmente para BlackJack. -Vamos embora! Os lobos querem nos ver antes de irmos.
Relutante, Twin saiu da caverna aquecida para o frio da manhã. Estava nevando. Os flocos brancos caíam suavemente sobre o chão já coberto de neve, e recobriam o pêlo dos lobos. O branco ressaltava sobre o negro do pêlo de BlackJack, que parecia não se importar com o frio.
Todos os lobos estavam novamente reunidos em torno do Grande Altar. Maya levou Sirius para uma gruta próxima à Pedra. Twin e BlackJack se misturaram junto aos outros lobos. Na caverna, a loba passou uma tinta azul no rosto e no corpo do jovem rato.
"O que é isso, Maya?" Sirius perguntou, nervoso.
Maya riu, encarando-o como se fosse apenas um pequeno filhotinho, que brincava na relva e mostrava as garras pela primeira vez.
"Hoje será a sua cerimônia de aceitação, querido." Disse ela, risonha. "Você se tornará o mais novo membro da tribo!"
Sirius se sentiu feliz, mas cada vez mais nervoso.
O rato e Maya escalaram a pedra agilmente, se colocando, novamente, na frente de todo o bando. A loba encarou o jovem, os olhos azuis faiscando na manhã. Então se virou para o grupo.
"Este jovem, o Indomável, agora está oficialmente fazendo parte do nosso bando. Salve, Sirius!"
Todos os duzentos lobos uivaram.
Sirius não pensou duas vezes.
Ele uivou também.
O Estábulo número 1
BlackJack se encarregou de levar os dois amigos para suas respectivas cabanas. Sirius ficou absolutamente encantado de se montar nas costas do esplendoroso animal. Ele corria mais rápido do que qualquer outro bicho que já haviam visto, e os ratos chegaram aos chalés num átimo. Sirius entrou e olhou o relógio, na cômoda: Seis horas da manhã. Ele tinha uma hora de sono ainda. Naquele dia, não havia aulas antes do café da manhã.
O rato se jogou no seu beliche e se lembrou da festa... Houvera um grande banquete. Mais brincadeiras... Fora uma bela noite. Mas algo ainda o perturbava. Quem, ou o quê, machucara Twin? O rato não soubera responder essa pergunta. Agora, estava andando de muletas, improvisadas, mas logo as tiraria. Não eram ferimentos profundos nem nada, mas o ser que os cometera estava certamente pretendendo causar muita dor. Imerso em seus pensamentos, o rato dormiu sem perceber.
Ventava muito quando Sirius chegou pro café da manhã. Todos estavam lá -menos Leon- e o cumprimentaram alegremente. Hoje teriam a primeira aula de Trato às Montarias, dada por Koburo, como um prólogo do que aprenderiam dali a alguns dias, no Templo das Montanhas. Ninguém parecera perceber que Sirius e Twin haviam sumido durante a noite, mas os dois ratos se entreolharam, divertidos. Os ratos devoraram o café rapidamente, e correram para a aula, que iria ser no campo de treinamento mais próximo dos estábulos.
Os amigos foram quase os últimos. O professor já estava ali e todos os alunos também. O grupo de Sirius localizou Fleur num canto e então sentaram o mais longe possível dela. Koburo começou a falar.
- Olá, alunos. -Cumprimentou-os o professor.- Sejam bem vindos à Aula de Trato das Montarias. Essa aula será extremamente importante na sua vida como Cavaleiros do Queijo. Aqui, daremos um início a seu treinamento com outros seres. Ensinaremos não a montar, e sim a dominar as feras que se escondem nos caminhos que vocês percorrerão. Agora vamos entrar no estábulo e começar com coisas simples, como as aranhas. Alguma pergunta?
Fleur levantou a mão, risonha. O professor a encarou.
- O que foi, Fleur? -Perguntou ele, calmamente.
- Professor- Disse a rata, em sua voz irritante, se esforçando para não rir.- Será que os animais se importam quando... ahn... Delinquentes juvenis chegam perto deles? -Ela olhou para Sirius e Quiqui, com um braço atrás de si fazendo um gesto obsceno para eles.
Sirius rosnou. Respirando fundo, tentou evitar que suas mãos se mexessem para criar um cannon enorme e negro no meio da aula. "Acalme-se." Pensou ele, consigo mesmo. A sala inteira olhou de seu grupo para Fleur antes de começarem a rir histericamente. Quiqui também grunhiu. Ele já tinha muito no que pensar. Droga, eles estudariam aranhas. O rato nem conseguia se imaginar chegando perto de uma destas criaturas. Como faria para seu medo mais secreto passar despercebido por toda a sala? Apenas o grupo sabia de seu medo. O rato estremeceu, pensando em aranhas grandes e peludas.
O professor mandou todos calarem a boca, ou soltaria uma vaca descontrolada em cima da turma, o que fez todos se calarem inimaginavelmente rápido. E então todos os ratos adentraram o Estábulo número 1. Era um lugar que ressoava com vida. Aranhas, escopiões e outros animais se espalhavam pelo local. Koburo disse para os alunos se espalharem e verem que tipo de animal se adaptava melhor a eles. Débora e Amanda foram para perto das borboletas. Os outros animais lhes davam arrepios. Débora se afastou um pouco da amiga. Logo, uma linda borboleta azul e preta pousou ao seu lado e permitiu que ela a acariciasse. Amanda foi, feliz, para perto da amiga, com uma borboleta amarela empoleirada em seu braço esquerdo como se fosse um gavião.
Sirius, Cheese e Twin foram para perto dos escorpiões. Sirius sempre apreciara aquelas criaturas, fortes e ágeis. Além disso, apesar de parecerem calmas, tinham um veneno sempre pronto para ser expelido, o que lembrava o rato de si mesmo. Cheese abaixou-se e um escorpião preto e vermelho subiu em seu ombro.
- Aí, galera, parece que ele gostou de mim- Disse o rato, rindo. Então o animal levantou bem a cauda e abaixou-a, imediatamente picando o ombro do rato. -AARAAAAGAHAAAHH! -Gritou Cheese, com a dor.
Sirius riu. Ele sabia que nenhum dos bichos ali era venenoso.
Enquanto isso, Quiquicp enfrentava uma situação bem diferente. Uma aranha branca avançava para ele passo-ante-passo. O rato estava paralisado. A aranha colocou uma das pernas extralongas a um centímetro de Quip.
Felizmente, o jovem foi salvo pelo professor Koburo, que percebeu seu medo. Vendo o rubor tomar conta do rosto do aluno, o jovem professor prometeu que não contaria para ninguém, o que abriu um sorriso no rosto do rato, e o levou para ver as abelhas, juntamente com Dehco e Thefernand. Quiqui se interessou por esses animais. Thefernand estava com um zangão no ombro, e parecia orgulhoso de si mesmo. Dehco não parecia muito confortável em meio às abelhas, então foi para perto dos besouros, onde Sirius se encontrava. Ele se lembrou de que havia ouvido falar dele no dia anterior.
- Entãão... Você é aquele delinquente de que a Fleur estava falando?
Sirius encarou o rato, raivoso. Será que era assim que todos o estavam vendo?
O rato sucumbiu à raiva e invocou um enorme cannon no alto.
Em meio à agitação, ninguém percebia um rato muito estranho apoiado nas vigas do teto do Estábulo.
O aviso
Todos os alunos gritaram quando viram o cannon, uma massa escura e pesada flutuando acima de Sirius. O rato então percebeu o que estava fazendo e a bola negra se extinguiu em fiapinhos de fumaça. Um silêncio desconfortável se seguiu. Então o professor Koburo chamou Sirius e pediu que o acompanhasse. O rato sabia que estava ferrado.
Os dois foram para dentro da Academia e então o professor tocou numa porta de carvalho gigantesca. Sirius a reconheceu como a entrada da sala do Comandante Scoutt. "Aaah, não!" Pensou o rato, nervoso, enquanto uma voz dizia que podiam entrar.
O Comandante ouviu sua história calmamente. E então dispensou o professor e se virou para Sirius.
Foi pior do que ele pensava. Scoutt gritou, gritou, gritou e gritou mais um pouco. De repente, o jovem percebia como Débora se sentia.
- VOCÊ TEM NOÇÃO DO QUE FEZ? PODERIA TER MATADO ALGUÉM!
Enfim o Comandante se acalmou e dispensou Sirius, não antes de ter enchido seus ouvidos com um sermão que parecia não acabar nunca.
Havia dobradinha de Trato das montarias naquele dia, então ainda estava tendo aula. Quase todos já tinham escolhido seus insetos agora. Koburo ajudava quem estava confuso ainda. Quando Sirius adentrou a sala, todas as cabeças se viraram para ele e as conversas cessaram. O rato se sentiu o próprio Osama Bin Laden. Conforme andava, ouvia sussurros sobre ele. Tentando ignorar a tudo isso, caminhou lentamente até onde estavam Nedlemouse e Thefernand. Os dois ainda não tinham escolhido ainda, e estavam na parte das libélulas. Sirius logo se interessou por aqueles animais. Os insetos pareciam voar sem sair do lugar, encantando o rato. Haviam formigas num balde, e, quando o rato jogou uma delas para dentro, uma libélula a pegou e devorou no ar, com uma acrobacia. Em seguida, veio até ele e se sentou em seu ombro. Thefernand acabou ficando com um gafanhoto e Nedle, com um louva-a-deus. Sirius e a sua libélula foram até o local onde todos os alunos se sentaram, lado a lado com seus insetos, e se sentou perto dos amigos. Débora e Amanda haviam pegado uma borboleta cada uma, Quiqui ficara com uma centopéia, Cheese (por incrível que pareça) ficara com o escorpião safado e Twin agarrara uma abelha listrada de amarelo e preto. O professor Koburo se certificou de que todos haviam conseguido um inseto e passou a dar instruções.
- Meus parabéns, alunos! -Disse ele.- Agora que conseguiram os animais, é chegada a hora de usá-los. Os insetos, em sua maioria, são animais de caça ou de busca. Vocês podem treiná-los para encontrar um determinado tipo de plantas ou outros animais. Ou mesmo para caçar para vocês! Os insetos daqui são pequeninos demais para este tipo de coisa, mas podemos usá-los para encontrar formigas, que servirão de alimento para outros insetos. Vamos fazer um exercício. Quero que digam a seus insetos que cacem formigas na floresta agora mesmo. Quem conseguir pegar mais formigas irá ganhar um prêmio, ok? Quando eu contar três, digam a eles: VÁ! Em alto em bom som, entenderam? Têm que fazer o bicho SABER que vocês são os líderes. Prontos? Um, dois, TRÊS!
Cinquenta vozes alegres gritaram "VÁ", enchendo a manhã de som. Sirius gritou e lançou a sua libélula azulada com o braço. O animal levantou vôo graciosamente, adentrando a floresta em segundos.
Cheese teve mais problemas. Seu escorpião não parecia querer se mexer, se recusando até mesmo de sair do ombro do rato. O professor percebeu a dificuldade do aluno e, delicadamente, tirou o escorpião do ombro dele (segurando-o de forma que o animal não o picasse) e o colocou no chão, gritando "VÁ!" com tanta superioridade que até Sirius se sentiu tentado a se levantar e ir caçar formigas. O animal imediatamente saiu correndo rumo à Floresta.
Foi uma manhã agradável. Os insetos iam e voltavam, largando formigas mortas ao pé dos donos, que os acariciavam, alegres. A libélula de Sirius não fez mal no treino, e logo um montinho de formigas se levantava aos pés do dono. No final, quando Koburo apitou, todos contaram as formigas, ansiosos. O besouro de Dehco foi o vencedor. O rato ganhou uma enorme barra de chocolate do professor. Em seguida, todos pegaram carrinhos de mão e levaram as formigas até o Estábulo, depositando-as numa pilha. Isto é, todos, exceto Fleur. A rata havia pego uma joaninha pink e nem se dera ao trabalho de pegar um carrinho. O professor pareceu avaliar situação, mas por fim nada disse, e os alunos foram dispensados.
Todos passaram nos chalés antes de ir para o almoço. Depois, Sirius resolveu fazer uma visita a Leon, no hospital. O amigo ficou muito feliz em vê-lo, o que melhorou seu dia. Sirius se viu falando de tudo o que acontecera com ele até aquele momento para Leon. O rato ficou pensativo por um momento, mas depois apenas riu, amargamente. Quando Sirius perguntou o motivo, a resposta foi o grito de Cheese, durante a aula. Mas não pareceu convincente.
- Eu espero que possa sair desse lugar até amanhã- Disse Leon, carrancudo. O hospital estava o matando.
- Qual a pior parte? -Perguntou Sirius, hesitante. -Essa agulha idiota, espetada no seu braço o dia todo? As injeções? Ou aquela enfermeira -Ele abaixou a voz- Com cara de monstra?
Leon riu novamente.
- O pior deve ser a comida. Cruzes, se é que pode chamar isso de comida. Eu quase vomito todas as vezes que como. E depois tenho que tomar mais remédios, porque eles acham que eu não estou me alimentando direito.
- Qual foi o diagnóstico?
- Ah, eu tive duas costelas e um dedo quebrados. E um traumatismo craniano. -Leon fez uma careta. -Mas não sinto nada. Devo estar mesmo parecendo com uma múmia, pois nem sinto os machucados, de tantas bandagens.
Os dois ratos riram. Então a enfermeira apareceu, com o jantar de Leon. Aquilo era mesmo um horror, parecia uma pasta amarela com pedaços de cruz-credo. Leon fez uma encenação de vômito por trás dela. A enfermeira mandou Sirius par fora, então ele se despediu e correu para o refeitório. Estava atrasado para o almoço e hoje o monge iria dizer algo importante. Se sentou, afobado, em sua mesa. Todos já estavam lá e a comida já havia sido servida. Com um pouco de pena de Leon, ele devorou grandes porções e terminou rapidamente.
E o monge subiu ao púlpito. Encarando todos, começou a falar.
- Olá, meus jovens. Eu não quero incomodá-los por muito tempo. Vou ser rápido, para não enchê-los com o papo furado de um velho. -Houve quem risse- A excursão para o Templo foi adiantada! -Todos os alunos vibraram- Sim, sim! Será amanhã, de manhã. Preparem suas coisas. Nós a adiantamos, pois queremos que vocês participem do Duelo que ocorre no Templo das Montanhas todos os anos. O Duelo é um evento monumental que envolve diversas atividades, como a corrida, o salto, e, principalmente, a batalha. Tenho certeza de que vão gostar. Peço que levem uma barraca, um cantil e objetos pessoais. Não levem muitas coisas. Estão dispensados.
E, com isso, o velho monge terminou seu aviso, deixando todos animados para o dia seguinte.
Arrumando as malas
O resto do dia passou muito rápido, a agitação dos ratos fazendo o ponteiro do relógio se apressar. O jantar teve uma bela surpresa: Leon voltara do hospital, e foi recebido alegremente pelos amigos. Ele ainda estava com ataduras no tórax e andava com muletas, mas, no todo, estava ótimo. O monge foi visto almoçando na Grande Mesa, juntamente com o Comandante Scoutt. Os professores Soren e Koburo comeram juntos numa mesa próxima a eles. Sirius não deixou de notar como eles eram jovens. Talvez tivessem dois ou três anos a mais do que ele, o que o fez imaginar a quanto tempo estavam na Academia. Então, a conversa na mesa o atraiu e ele se voltou para os amigos.
- Hey, o que vocês vão levar para a Excursão? -Perguntou Cheese, animado.
- Sei lá -Disseram Débora e Sirius juntos. Depois riram, levemente envergonhados.
- Eu não sei o que vou levar ainda -Disse Sirius, pensativo. -Não tenho muita coisa; Só o que eles pediram, acho.
- Uma barraca, um cantil e coisas pessoais -Comentou Amanda, lembrando-se.
- Eu vou portare un canivete, e umas roupas, acho -Quiqui contava seus pertences.
- Suponho que tenhamos que levar alguma arma, mesmo, como um canivete, ou uma faca. Vou levar minha adaga. -Disse Leon, dando início a uma nova discussão sobre armas entre os meninos. Débora e Amanda saíram da mesa, satisfeitas com a comida, e, ao passarem pela porta do refeitório, notaram Twin num lado, conversando com alguém invisível. "Que estranho" pensou Débora, indo de encontro ao rato. Amanda a seguiu.
- Eu não quero mais isso! -Dizia Twin, assustado e nervoso. -Saia de perto de mim.
As ratas sentiram um calafrio quando ouviram uma voz tenebrosa responder, na noite. A voz era fria e gélida e soava como o raspar de uma faca na pedra.
- NÃO ME IMPORTO COM O QUE VOCÊ QUER! OBEDEÇA AO SEU MESTREEE!
A voz fez Débora se lembrar de seu antigo mestre. O que era aquilo? Ela achava que Sirius o tinha matado algumas semanas antes, no conflito que chamavam de Guerra do Bosque.
Mais assustador ainda foi quando, do nada, Twin caiu no chão, inerte. Ele ficou assim por alguns minutos, e depois se levantou e saiu andando normalmente. "Senhoras" Disse o rato, ao passar pelas garotas.
Aquela noite estava mesmo muito estranha.
Enquanto isso, Sirius e Leon estavam na Alcatéia. Sirius estava avisando aos lobos que se ausentaria por algum tempo, e aproveitou a ocasião para apresentar Leon às criaturas. O amigo apreciou enormemente os lobos, se identificando imediatamente com um amigo de BlackJack, de pêlo marrom avermelhado e de nome Kali. Houve um banquete, com carnes de veados silvestres e frutas deliciosas, e então os amigos foram de volta à cabana, levados por BlackJack e Kali.
A noite foi tumultuada e repleta de sonhos estranhos.
Sirius sonhou que estava numa clareira, semelhante à da Guerra do Bosque. Lá, dois lobos lutavam ferozmente, arrancando pedaços um do outro. Com um susto, ele reconheceu BlackJack e Kali. Leon apareceu ao seu lado. O amigo falava com voz estranha. "FALE COM O SÁBIO NAS MONTAAANHAS!" Disse ele. "VOCÊ PRECISA SABER! PRECISA SABEEEEEEEEEER!"
O rato acordou, suando, na manhã ensolarada. Os raios de sol entravam pela janela, incidindo em seu rosto. Leon roncava, como de costume. As muletas encostadas na cama produziam sombras estranhas com a luz do sol.
Sirius de repente se lembrou de que precisava ter arrumado sua mala no dia anterior. Batendo na testa, desceu do beliche e pegou sua velha mala debaixo da cama, abrindo apalermadamente as gavetas da cômoda e jogando roupas aleatórias nela. Depois pegou seu cantil e uma barraca antiga. Leon acordou caindo da da cama e logo estava ao seu lado, desesperadamente jogando roupas a esmo em sua própria mala marrom, de couro. Os dois fizeram força para conseguir fechar as malas, meio abarrotadas, e depois riram. E então se apressaram para tomar o café da manhã. Estavam atrasados; Já eram quase 6 da manhã e o café hoje começaria antes.
Ao chegarem na mesa, perceberam Nedle e Thefernand lá também.
- Opa. Este lugar já está ficando abarrotado -Brincou Leon, se sentando no próprio lugar. Sirius riu, sentando-se também.
- Quem mandou vocês acordarem tarde? -Ralhou Débora, de brincadeira. - Esses dois iriam se sentar na mesa da princesa- Ela apontou para Fleur, que almoçava com Dehco, do outro lado do refeitório- Se não tivéssemos salvado eles. Coitado do Dehco.
Todos riram, observando o próprio rato ter que cortar as unhas de Fleur e serví-la com sucos. Ele não iria demorar muito para trocar de mesa.
- Todos estão prontos? -Perguntou Twin, observando as malas aos pés de todos os amigos.
- Mas é claro! -Respondeu Amanda. -Eu mesma já tinha arrumado minha mala anteontem. Será que teve algum idiota que deixou tudo pra hoje de manhã?
Os amigos riram. Sirius e Leon também, embora envergonhados. Então a conversa mudou de rumo.
- Vocês viram? -Perguntou Quiqui, ansioso.- O monge disse que vamos aprender a montar em aves!
- Wow. Eu sempre quis montar algo que não aquelas cobras minúsculas do Estábulo -Disse Nedle, invejoso. -O que será que vamos aprender lá no Templo?
- Lembrando que haverá o Duelo também. -Thefernand entrara na conversa.- Sabem que vamos competir contra um povo que luta magnificamente. E além do mais nem começamos os duelos de espada.
- Claro, mas eu nem sei se vou me inscrever. -Cheese falou, nervoso.
- Ah, fala sério, amor! -Exclamou Amanda- Você ganharia, com certeza.
E o coro de "Com quem será?" Encheu a mesa.
O Acampamento
Antes de saírem, o Comandante ordenou que ficassem sempre em grupos, pois o caminho era perigoso e poderiam ser atacados por lobos. -O grupo de Sirius riu. Todos os outros, inclusive o Comandante, olharam para eles sem entender. O Comandante tossiu, para chamar a atenção, continuando.
- Como vocês sabem, o Templo fica a dois dias daqui. A escalada da Montanha Sagrada representa um dia a mais na viagem. Por sorte, alguns de nossos alunos mais talentosos no alpinismo vão nos ajudar. Temos equipamentos para todos. Espero não haver acidentes. Lembro-os novamente de que tudo isso é para se divertirem um pouco, ao mesmo tempo em que vão treinar e se exercitar. O Duelo ocorrerá duas semanas depois que chegarmos lá. Estão prontos?
Um coro de "Sim" se ergueu dos Cavaleiros, seguido de vivas. A viagem começara.
Charlie miou, tristonho, amarrado no Estábulo. Leon se despedira dele algumas horas antes, e os professores que ficassem na Academia iriam alimentá-lo. O seu pêlo estava crescendo assustadoramente rápido, de modo a estar de tamanho normal agora. Ele foi até a porta do Estábulo, o máximo que conseguia ir sem sentir o puxão das cordas no pescoço, e viu o dono desaparecendo ao longe. “Meow” Fez o gato, pensando no dono.
A primeira noite foi passada numa clareira de uma floresta desconhecida. Koburo e Soren haviam ido junto na viagem, como monitores. Segundo eles, aquela floresta era conhecida como “Floresta Negra” por causa dos animais estranhos que viviam por ali e pelo fato de as árvores crescerem bastante juntas, impedindo a entrada do sol. No fim da tarde, enquanto o céu coloria-se de vermelho e laranja, ali parecia ser de noite. A floresta era realmente sombria.
Uma fogueira foi acesa na clareira, iluminando tudo. O grupo de Sirius começou a montar as barracas; Uma para os meninos e outra para as garotas. Thefernand e Nedle foram convidados a ficarem junto com eles, mas tinham seu próprio grupo. Louizx ficara com eles. Ele era um grande alpinista, um dos que ajudaria na difícil escalada da montanha. Fleur estava numa MEGA-barraca, de tamanho descomunal, se erguendo com torrinhas e janelas com peitoril florido. Dehco carregara toda a sua bagagem. Pelo que os amigos observavam, o rato estava apaixonado por Fleur, que infelizmente não nutria o mesmo sentimento. Mesmo assim, se aproveitava dele para fazê-lo trabalhar para ela. Além de Dehco, havia em seu grupo um rato chamado Recordista, um antigo aluno da Academia. Ele também era um dos alpinistas profissionais.
Houve muitos risos na hora da montagem das barracas. Leon e Cheese tentaram montar a estrutura, mas só conseguiram quebrar algumas partes dela, que foram consertadas rapidamente por Twin e Sirius. Amanda e Débora liam o manual, concentradas, enquanto os meninos tentavam fazer tudo sozinhos, às pressas. Uma tenda foi armada rapidamente por eles, mas ficou tão estranha e torta, que, rindo, o grupo a desfez. Seguindo as instruções das garotas, conseguiram montar uma barraca azul bonita para eles. A montagem da outra barraca foi bem mais simples e os amigos a concluíram sem dificuldade.
Chegada era a hora do jantar. O Comandante ordenou que os grupos fossem em busca de comida na floresta ao redor. Peixes, frutas, cocos, pequenas aves, tudo servia. Os amigos foram em busca de alimento.
Twin, surpreendentemente, era um ótimo caçador. Avistando um grupo de codornas, ele fez os amigos cercarem-nas, pelos lados, sem que percebessem. Sirius e Leon, em cima de uma árvore, podiam ver Cheese e Débora escondidos em arbustos à frente e Twin e Amanda à direita, sob uma grama alta. O grupo observava Twin atentamente, esperando pelo sinal.
Finalmente, o rato levantou a pata no ar, atento. Dois dedos para cima. Esse era o alerta. Cheese e Débora pularam, assustando os pássaros, que foram direto para Sirius e Leon. Esses, por sua vez, pularam sobre a codorna mais fraca, imobilizando-a. Twin e Amanda então conseguiram matá-la, sem dor, com um espinho mergulhado em veneno. A codorna morreu como se adormecesse.
De volta à Grande Fogueira, os amigos perceberam que poucos grupos haviam tido sucesso na expedição de caça; A codorna foi bem recebida e o grupo de Sirius foi parabenizado. Louizx era um bom cozinheiro, e todos o ajudaram a depenar e desossar a codorna, colocando-a sobre uma grande folha de palmeira, para então envolvê-la em óleo retirado de alguns peixes. Ela foi espetada em um graveto de metal, fincado sobre a fogueira. Foi um jantar delicioso.
Fleur normalmente dispensou o que chamou de “Comida Animalesca” e comeu um manjar trazido por Dehco. Então houve uma cantoria em volta da fogueira, com clássicos do rock e do pop e músicas dos ratos, como "Tudo começou com um Wall Jump" e "My first first". Então marshmallows trazidos por Nedlemouse foram distribuídos por todos, espetados em gravetos e assados na fogueira.
Todos estavam se divertindo demais para notar a forma escura e esguia atrás deles, informando a sua posição para alguém invisível.
A Bomba
A noite estava calma e tranqüila, com todos os grupos dormindo em suas barracas. De repente, um estampido terrível acorda todos.
O Comandante Scoutt foi o último a sair da barraca. Neste momento, todos estavam fora das barracas, onde parecia ter caído um meteoro. Uma enorme cratera se abria no lugar onde deveria estar a fogueira. Haviam dez feridos pelos estilhaços de alguma coisa que explodira ali.
O Comandante não pensou duas vezes.
- QUEM FOI O VERME IDIOTA E SEM CÉREBRO QUE FEZ ISSO? – Gritou o velho mestre. Ninguém se mexeu. – Se ninguém disser, serei obrigado a interrogar UM A UM - Tornou Scoutt, com uma fúria maligna. Novamente ninguém se mexeu, e todos se encaravam, apreensivos, tentando imaginar quem seria capaz de fazer algo como aquela cratera, certamente uma marca de explosão por bombas. Irritadíssimo, o Comandante mandou ficarem em fila em frente a sua cabana. O interrogatório começara.
Dehco foi o primeiro a entrar na cabana. Estava tudo escuro e duas mãos misteriosas o conduziram a uma cadeira, perto da qual havia uma mesa. Suas patas foram algemadas atrás da cadeira e uma luz muito forte o cegou. Se recuperando, viu o Comandante atrás da mesa, sentado em outra cadeira.
- O que é isso? –Exclamou o rato, apreensivo. –Nunca vi tamanho ultraje e...
- SOU EU QUE FAÇO AS PERGUNTAS! –Gritou Scoutt, com uma fúria terrorista. –Vamos começar. Espero sinceramente que você coopere. ONDE VOCÊ ESTAVA NA HORA DO INCIDENTE?
- Eu... –Respondeu Dehco, indeciso.
- ONDE VOCÊ ESTAVA, INÚTIL? –Gritou o Comandante.
- Estava na cabana de Fleur! –Exclamou o rato, assustado.
- Hum. –Disse o Comandante, friamente. –Conte-me mais.
O rato começou sua história.
“Eu estava com Fleur desde que saímos da Academia. Levei sua mochila e suas coisas. Recordista ma ajudou nisso. Então, nesta noite, estávamos dormindo no pior quarto da mega-barraca dela. Tinha dois colchões e...
- VÁ DIRETO AO PONTO, VERME! –Interrompeu Scoutt, nervoso.
- Sim senhor. Nós ouvimos um barulho horrível do lado de fora e Fleur resmungou para que saíssemos. Então, vimos uma enorme cratera e tinha alguém saindo para a floresta.
- Alguém do nosso grupo? –Perguntou o Comandante, interessado.
- Não;-Respondeu o rato – Usava uma roupa preta e máscara. Só o que vimos foi isso, senhor.
- Hum. –Resmungou o velho mestre. –Dispensado!
A fila andou durante toda a noite. Vários ratos foram interrogados, e os que saíam eram proibidos de contar o que havia acontecido lá dentro. Enfim foi a vez de Nedle. Ele entrou e rapidamente foi algemado como os outros. Do outro lado da luz forte, podia ver (e ouvir) o Comandante.
- Mestre? –Perguntou ele, apreensivo.
- SILÊNCIO, VERME. –Respondeu o Comandante Scoutt, bravo. –Onde você estava durante o incidente?
- Na minha cabana, dormindo junto com Louizx e o Thefernand. –O rato respondeu, sem papas na língua. –Por sinal, poderia desligar a luz? Está muito forte.
- CALE A BOCA. SÓ EU DETERMINO AS COISAS POR AQUI. –Gritou Scoutt. - Quero saber com mais detalhes.
“Bem, brigamos antes de nos deitarmos, porque eu queria chamar o Recordista para ficar junto com a gente, mas o Louizx disse que ele era da Team Fleur, e o Thefernand também não gostava dele por algum motivo, e então eu fui deitar bravo, mas ninguém queria que eu ficasse assim e conversamos, mas na verdade isso não adiantou nada, e nós todos queríamos na verdade era que...”
- Droga, moleque! –Exclamou o Comandante. –Dispensado. Não entendo uma palavra sequer do que você diz. Respire antes de falar!
Nedle saiu da barraca atordoado.
Logo após era a vez de Louizx. O mesmo procedimento que houvera com os outros aconteceu também com ele.
- ONDE VOCÊ ESTAVA NA HORA DO INCIDENTE?
- Eu estava na minha barraca, dormindo! –Respondeu o rato, prontamente. Já havia passado por interrogatórios bem piores.
- É O QUE TODOS DIZEM!- Tornou o Comandante. – QUERO SABER A VERDADE!
- É essa a verdade, idiota. –Respondeu Louizx, irritado, e recebeu um tabefe do Comandante.
- RESPEITE SEUS SUPERIORES! –Gritou ele. –ONDE ESTÁ SUA HISTÓRIA?
- Tá. Eu conto pra você. –Respondeu Louizx, com um dente a menos.
“Eu tinha acabado de brigar com o Ned quando ouvi alguém se mexendo perto da cabana. Saí, para verificar, deixando os outros dormindo. Era uma mulher. Tinha o rosto encoberto por uma máscara negra. Quando me viu, olhou para mim e seus olhos penetrantes mexeram com o meu cérebro. Eu dormi. Acordei com o som da multidão.”
- Okay – Disse o comandante, com voz áspera. –Dispensado!
O próximo na sucessão de ratos interrogados era Thefernand. Para agilizar o procedimento, Twin foi com ele. O Comandante os algemou e repetiu as mesmas perguntas.
Twin foi o primeiro a contar sua história.
“Bem, eu estava lá, dormindo, e vi o Sirius e o Leon discutindo alguma coisa, aos sussurros. Aí o Leon quase bateu no Sirius, mas pareceu parar no último instante. Eu voltei a dormir e quando acordei, com o barulho da explosão, fui um dos últimos a se levantar, porque achava que estava sonhando.”
Thefernand contou a própria história, sendo sincero.
“Eu saí da minha barraca, porque o clima de lá estava muito tenso. Ninguém percebeu, na verdade, o que me favoreceu. Então aconteceu uma sucessão de coisas estranhas:
Primeiro: Me dirigi à floresta, pensando numa moita de morangos silvestres que eu havia visto na excursão de caça, mas não estava sozinho. Havia alguém ali, falando com algo que parecia um comunicador de pulso.
Segunda: Ela percebeu a minha presença antes que eu percebesse a dela. Era uma rata esguia e de cabelos pretos, mas o rosto estava coberto por uma máscara. Ela apenas disse: “Bons Sonhos” e me apagou, olhando dentro dos meus olhos. Eu acordei mais tarde, com o barulho de algo explodindo. E o povo começou a sair das cabanas.”
O Comandante os dispensou. Ele não quis mais ouvir mais ninguém. Sirius, Leon, Débora, Amanda, Cheeseblazed e os outros se sentiram aliviados, mas a tensão do mestre só aumentava.
Ele já havia sobrevivido a muito. Tortura, abusos e coisas piores. O velho rato tocou seu braço esquerdo, feito de metal. Ele tirou a luva marrom que usava, simulando uma pele, e observou a mão robótica que se encontrava ali, no lugar da sua, pensativo. Aquilo parecia realmente curioso. E perigoso. Uma rata com um poder de adormecer outros. Isso indicava grande concentração mental. Um treinamento rigorosíssimo, talvez. “Hum...” Pensou o Comandante. Certamente havia sido ela que colocara a bomba na fogueira.
E, sem que ele percebesse, a inimiga o observava.
No ninho
No dia seguinte, todos acordaram muito cedo, como já estavam acostumados, para continuar a viagem. Não demorou muito para atingirem seu objetivo.
A Montanha Sagrada era absolutamente enorme, espantosamente gigantesca. O topo se cobria de gelo, e o Templo podia ser avistado numa saliência da pedra escura. Era uma longa subida. O Comandante encarou todos, um a um. Seu olhar já dizia tudo: Preparem-se.
Os grupos começaram a retirar os equipamentos das mochilas. Era tudo de segunda mão, o que tornava a escalada mais perigosa, mas, bem, eles já haviam sobrevivido a coisas piores. No grupo de Sirius, que estava em grande agitação, um ajudava o outro a se arrumar, colocando capacetes, equipamentos de escalada, cordas e outras parafernálias.
O Comandante foi o primeiro, dando o exemplo. Lentamente, todos os outros começaram a escalar também. Louizx, Recordista e os dois monitores Soren e Koburo ajudavam os iniciantes.
Sirius estava concentrado em seus pés. Sempre fora desajeitado, e temia que um movimento brusco fosse o motivo de sua morte. Ele olhou para baixo e se espantou com a altura. Um calafrio percorreu seu corpo. "NÃO olhe" Pensou ele, trêmulo. "Você consegue, vamos" O rato se esforçou para dar mais um passo, apoiando a pata dianteira numa rocha. Com um barulho terrível, a pedra se soltou, caindo para o infinito. Num momento de pânico, Sirius ficou pendurado apenas por uma das mãos. Os pés balançavam, inutilmente, abaixo.
Leon percebeu o perigo em que se encontrava o amigo. Acelerando a subida, encontrou-o quase tendo um ataque de pânico, uma única pata entre ele e a morte abaixo.
- Sirius? -Exclamou Leon, após ajudá-lo a se equilibrar.
- Eu...Não...Gosto...De...Alturas! -Disse o amigo, tremendo.
Leon riu. Os dois continuaram a subida juntos.
Acima deles, Soren e Koburo escalavam a toda velocidade.
- Bons tempos aqueles em que fazíamos isso todos os dias. -Disse Soren para o colega.
- Com certeza- Respondeu Kob, suado. -Depois que viramos professores não tivemos mais tempo.
- Na minha opinião, isso vale a pena.
Os ratos subiram a montanha agilmente, como gatos. O único à sua frente era o Comandante, que parecia ter a agilidade de um cabrito montês, pisando, apoiando-se, escalando, pulando. Ele era um exemplo.
Não demorou a escurecer; Não podiam continuar uma subida tão complicada à noite. O Comandante encontrou uma gruta na montanha, onde ficaram durante a noite. Era um lindo lugar, com um lago verde e uma moita de uma planta estranha. Os ratos fizeram a fogueira novamente e armaram suas barracas. Chegariam logo.
A expectativa dominava seus corpos e suas mentes.
O dia seguinte foi árduo em vários sentidos. A escalada parecia não cessar, e o Templo só parecia estar cada vez mais longe. Então, de repente, Louizx estacou aonde estava, vários metros acima dos outros. Ele desceu, com alguns pulos, e se dirigiu ao Comandante.
A expressão de fúria e terror do mestre espantou os Cavaleiros. Ele gritou, por cima do ombro.
- ÁGUIA AVISTADA A LESTE. FAÇAM SILÊNCIO, ESCALEM DEVAGAR E TENTEM DISFARÇAR SE TIVEREM ROUPAS OU COISAS CHAMATIVAS. NÃO CHAMEM A ATENÇÃO DE MODO ALGUM. AS ÁGUIAS SÃO PERSPICAZES E NÃO QUEREMOS QUE ELA NOS VEJA.
Um arrepio percorreu a espinha de Leon. Ele já havia tido sua cota de experiências com pássaros, e enfrentar mais um deles parecia mais do que poderia aguentar. Respirando fundo para acalmar-se, olhou para Sirius, ao seu lado. O amigo certamente não ficava a vontade ali em cima, nas montanhas. Era visível que ele se esforçava para não olhar para baixo, e seu corpo inteiro tremia. Mesmo assim, o rato tentou evitar fazer barulho ou emitir algum som. Um guincho muito alto ecoou pela montanha agora quase silenciosa. Era o pássaro. Os ratos subiram o mais rápido que puderam.
Eles realmente acharam que estavam seguros.
Foi muito rápido. Uma ventania terrível fez vários Cavaleiros perderem o equilíbrio e ficarem a ponto de cair para o infinito. Louiz, Recordista e os outros ajudavam, rapidamente. Mas ninguém percebeu o real motivo do vento até que uma enorme sombra negra os cobriu, e o guincho agudo da águia furou seus ouvidos sensíveis. Alguns ratos gritaram. O pássaro abriu as garras douradas, cujas unhas negras pareciam facas imensas, e investiu contra eles, agarrando os dois primeiros ratos que conseguiu, um com cada garra. E depois, ergueu vôo de novo, as asas vigorosas e escuras fazendo-a planar sem esforço em direção ao ninho, muito acima deles.
O clima era de terror e desespero, mas o Comandante acalmou-os suficientemente para conseguirem alcançar uma pequena gruta antes que alguém caísse da montanha. Lá, as cabeças foram contadas rapidamente, e depois foi feita uma chamada. Os ratos levados pelo pássaro foram descobertos.
Nedlemouse e Louizx.
Tainarak chorava copiosamente. Débora a consolava, em vão. Fleur estava encolhida num canto, em cima de uma toalha colorida, com Dehco bajulando-a novamente. Aquilo lembrava um piquenique, mas Sirius tinha outras preocupações além de se irritar com a rata petulante. Ele, Leon, Cheese, Twin, Quiqui, Amanda, Soren, Koburo e o Comandante tentavam criar um esquema para invadir o ninho da águia e salvar os amigos. Teriam que ser muito rápidos. As águias costumavam comer apenas a noite, e estavam quase no fim da tarde. Além disso, eram pássaros religiosos e dogmáticos. Gostavam de fazer rituais e rezas com a comida. Isso daria um tempo a mais para os amigos.
De certo modo, era um plano simples. Deveriam se posicionar numa formação alpha padrão, em que dois pares de membros eram posicionados pelos flancos e outros dois, posicionados ao norte e ao sul. Alguém deveria ser a isca; Atrair a atenção da águia, que, pelas penas mais pronunciadas na nuca e no pescoço, era fêmea, e dos seus prováveis filhotes, enquanto os outros se reposicionavam no ninho. Um par de sentinelas deveria se posicionar a leste e a oeste do ninho. Os outros deveriam trabalhar rapidamente para tirar os amigos daquele lugar, e os sentinelas sairiam por último, limpando os rastros.
De certa forma, era muito arriscado. Poderia terminar em morte. Mas era a única esperança real de salvar Ned e Louiz, então o plano foi colocado em ação rapidamente.
Enquanto a equipe de salvamento subia rapidamente a montanha, os dois ratos que haviam sido aprisionados refletiam sobre como sair dali.
Nedle observava a águia atentamente. Ela não era um animal irracional, como os corvos ou as aranhas e outros insetos. Parecia entender perfeitamente tudo o que ocorrera, e era mãe. O amor que ela dedicava a seus filhotes era incompreensível e ao mesmo tempo, incrivelmente inspirador. A ave se dedicava a cada um dos três bichinhos exclusivamente, com gentileza e amor. Ela parecia olhar para os ratos desculpando-se pelo que faria com eles. Aos poucos, os dois entendiam o porquê de sua captura.
Logo era a hora do jantar, no ninho. A ave os retirou da pequena prisão de galhos em que estavam, levando-os gentilmente com o bico até o altar de sacrifício. Ali, ela piou, fazendo uma oração, e incentivou os filhotes a piarem também, abaixando as cabeças. O som ecoou pelos frios rochedos na noite.
Louizx de repente viu algo que o encheu de esperança. Era Twinsanity, um rato da Academia.
Eles tinham vindo salvá-los.
Sirius e Amanda se comunicaram com Leon e Soren, do outro lado do ninho. "Estão todos prontos" disseram, em voz baixa. Koburo e Cheese aguardavam ao norte, e Débora, juntamente com Quiqui, no sul. Twin seria a isca. Ele era perfeito, sendo rápido o suficiente para fugir e ágil para se esconder quando a fuga ficasse muito complicada. Ele correria para uma gruta cujo interior rebrilhava com cristais, um pouco abaixo de onde estavam, e que era perto dos outros, mas não perto o suficiente para a águia encontrá-los. Agora precisavam aguardar o sinal.
Koburo levantou a cauda, fazendo um movimento circular. Era chegada a hora. Twinsanity invadiu o ninho, fazendo a águia estacar no momento em que iria avançar para Nedle.
- EI! OLHA PRA CÁ, BICHO ESTÚPIDO! -Gritou o rato, um pouco mais baixo do que deveria.
Mas o pássaro tinha boa audição. Ela olhou longamente para Ned, como se prometesse comê-lo mais tarde, e então encarou Twin com dois olhos amarelos intimidantes. Seu olhar não era bravo. Era mais como se ela estivesse desapontada. "Por que você interrompeu meu jantar?" parecia dizer. O rato percebeu que apenas aquilo não seria suficiente para ofendê-la, fazê-la ir atrás dele. "Está na hora de tomar providências drásticas" Pensou ele, pegando uma pedrinha do chão e mirando. Um calafrio de expectativa correu seu corpo marrom, e o rato atirou a pedra no olho da águia.
Isso foi mais do que suficiente. A ave gritou, indignada, e voou, tentando investir para o rato com suas garras douradas. Twin rolou, desviando, e depois pulou quando ela tentou abocanhá-lo com aquele terrível bico dourado, de pontas afiadíssimas. Os dois continuaram brigando, até que sumiram no horizonte. Os filhotes da águia ficaram bem quietos, e depois correram para uma reentrância na rocha. É, com certeza eles não apresentariam perigo algum.
O plano começou a ser posto em ação.
Quiqui e Débora posicionaram-se em guarda, como sentinelas. Os outros se espalharam pelo ninho, e pelo altar de sacrifício. Ned e Louiz não pareciam nada mau, embora ambos estivessem tremendo. Cheese levou Ned nos ombros sem dificuldades. Louizx recusou a ajuda para andar.
Os outros checaram tudo. Havia ali pertences e coisas pessoais, Sirius percebeu, de outros ratos, que não tiveram a mesma sorte. Isso o deixou com muita raiva, e o rato esmigalhou o graveto que tinha nas mãos.
Estava tudo pronto. Soren e Koburo amparavam Louiz, e todos já estavam saindo, quando um alerta de Quiqui os sobressaltou.
- ALERTA VERMELHO! -Gritou o rato- ELA ESTÁ VOLTANDO! E... Oh não...-Disse ele, em voz mais baixa. -O rato em suas garras é... Ele é... -Quiqui gaguejava, não conseguia completar o próprio pensamento.
Débora completou a frase.
- O rato é Twin. -Disse ela, o terror sobressaindo em sua voz.
A águia voava majestosamente para eles, as asas abertas e um Twinsanity desmaiado nas garras.
Por Anvil. O que fariam agora?
Sonhos
O enorme pássaro jogou Twin no ninho e pousou, com as asas abertas, não muito longe deles. Os ratos permaneciam paralisados, um efeito do estresse. Então, a ave os encarou friamente, os olhos amarelos fixos em cada um deles.
E deu um grito terrível que cortou a noite, o bico dourado se escancarando. A águia avançou para os amigos com fúria. Naqueles momentos que transcorrem entre a vida e a morte, em que tudo parece ficar mais lento, Débora notou uma hesitação no animal. Ela não parecia querer matá-los, como se isso contrariasse seus paradigmas. Os olhos estavam tristes, mas a raiva parecia sobrepôr todos os outros sentimentos. "Ah!" Pensou a rata. "O que adianta prestar atenção nisso agora? A gente já era!"
E a águia avançou, nos cinco segundos fatais, quando de repente outro grito cortou a noite. Um rato pulou sobre o pássaro, vindo de sabe-se-lá onde para salvar suas vidas.
- QUIETA, KATRLYN!- Gritou ele, raivoso. A águia parou a meio caminho de matá-los com suas garras, e o olhou, dócil, inclinando a cabeça gentilmente. -Nunca vi um bicho tão teimoso. -Reclamou o rato, balançando a cabeça. Então voltou-se para os amigos. -Está tudo bem com vocês? Ela os machucou?
Quiqui foi o primeiro a falar.
- Senhor, nosso grupo está numa gruta a pouco tempo daqui. Dois de nossos amigos foram raptados pela águia, e viemos em missão de resgate. Um dos nossos foi... Ele desmaiou, tememos que esteja ferido.
O rato o encarou, sério. Então disse, em voz rouca:
- Vocês são do grupo que vem da Academia, não é mesmo? -Os ratos assentiram- Então tá. Eu sou Daniellm, do Templo nas Montanhas. Vou levá-los até lá. O mestre ficará muito feliz em vê-los. Encontrei seus amigos a caminho de lá. Eles me contaram sobre a águia, e eu vim o mais rápido que pude. Venham, vamos levar seu amigo para os curandeiros.
Todos se entreolharam, enquanto o rato já ia subindo nas pedras novamente. A Academia os havia ensinado a não confiarem em ninguém; No entanto, aquele rato os salvara, e demonstrara ter um controle extremo sobre o pássaro, que agora os encarava, dócil. Ela parecia arrependida de seus atos. Os filhotes estavam fora de vista, provavelmente escondidos em alguma fissura da pedra avermelhada e escura. Daniel olhou para trás, com um sorriso.
- Algum problema? -Perguntou, desconfiado.
Os amigos não tiveram escolha; o seguiram.
Num ponto da escalada, encontraram com os outros. O Templo estava mais perto do que nunca, e podia ser visto dali. Grandes paredes brancas se destacavam no fundo avermelhado das montanhas, e os ratos estavam a apenas um dia de viagem de lá. Dormiram, novamente, numa gruta.
Twinsanity não parecia mau; Ele repousava sobre uma cama de palha, num canto. Por sorte, os Cavaleiros conheciam diversas técnicas de cura. Alguns ratos permaneceram ao lado de Twin, colocando emplastros de ervas e coisas desse tipo em seus poucos ferimentos. Entre eles, Amanda, Louizx e Nedlemouse. Aos dois também havia sido oferecido algum tratamento, mas eles não estavam feridos.
Naquela noite, Sirius e Leon, como sempre, arrastaram seus sacos de dormir para um canto da gruta. Leon estava muito quieto, esfregando com as patas a perna ferida um tempo antes. Sirius notou um corte longo e profundo nela. Leon não estava mais usando muletas, mas mesmo assim ainda andava mancando. Ele não havia percebido isso anteriormente. O rato imaginava o quanto a experiência com a águia devia ter abalado o companheiro. Afinal, ele já fora quase morto por um pássaro. Mas Leon estava impassível. Um rápido "Boa Noite" foi dito, antes de caírem num sono profundo, pontuado por sonhos estranhos.
Leon sonhou, novamente, com a mesma coisa.
"VOCÊ ESTÁ MUITO PERTO, HERÓI!" Dizia a voz, fria e aguda. O rato conhecia aquele lugar; Era sempre ali que o maldito sonho ocorria. No ninho da águia. A voz vinha do animal.
"FALTA POUCO" Tornou a dizer o pássaro. "ENCONTRE O SÁBIO NAS MONTANHAS! ELE LHE DIRÁ O QUE PRECISAA..."
O rato caiu num redemoinho obscuro, e acordou, suando, dentro da gruta, com todos os amigos.
Enquanto isso, juntamente com Amanda, em outro ponto da gruta, Débora tinha seus próprios sonhos.
Ela estava na floresta da Academia. As conhecidas árvores antigas e retorcidas ilustravam a trilha, de cada lado. A rata perseguia alguma coisa, embora não soubesse exatamente o quê. Na sua frente, uma forma negra corria. A forma tinha orelhas pontudas e um focinho pontiagudo; A Cavaleira logo percebeu do que se tratava; Um lobo, pelo andar claramente canino, e pelas pegadas que deixava. "Mas o que.." Pensou, aturdida. Como a criatura não a vira? Justamente nesse momento, o animal se virou para trás, os olhos amarelos encarando-a. Ela paralisou no lugar em que estava, enquanto o lobo jogava a portentosa cabeça para trás e uivava. O som agudo encheu a floresta, e logo vários outros lobos estavam ali. A rata estava morta. Havia um par de lobos brancos que lhe chamou a atenção; Eles deveriam ser os alfas. A grande figura negra que havia uivado a encarou novamente.
BlackJack falou, em sua mente, com uma voz rouca.
- Ajude-nos! -Ganiu ele. -Nosso senhor corre perigo! Precisamos da senhorita!
A fêmea branca uivou.
- Ajude o nosso senhor Sirius!
O companheiro dela ladrou, raivoso.
- O Herói o destruirá, para salvar outras vidas. Não deixe que isso aconteça! Ele está fazendo TODAS as escolhas erradas!
O sonho se dissolveu. A rata acordou com Amanda chacoalhando-a. Era de manhã; Todos estavam se arrumando para continuar a jornada. Daniel o esperava, na gruta, juntamente com o Comandante. Twin estava bem; Havia tido apenas alguns cortes nos braços, mas, graças às ervas e plantas curativas, podia continuar a subida normalmente. Os garotos estavam a um canto, discutindo sobre a águia. Leon assentia todas as vezes que falavam com ele, mas não parecia estar prestando atenção à conversa. A rata notara esse comportamento estranho dele desde o dia anterior. Balançando a cabeça para espantar os maus pensamentos, olhou para onde o Sol despontava, no horizonte.
O Templo
Eles chegaram ao Templo quando o Sol estava no meio do céu. A construção era impressionante; Pedras de granito branco se agigantavam, criando paredes. O teto pontiagudo, de madeira escura, e as janelas de papel de arroz, completavam a construção. Havia um caminho de pedras prateadas, que levava à entrada do Templo, flanqueada por dois dragões de bronze, que carregavam esferas de obsidiana nos dentes pontiagudos. O lugar era impressionante. Estando nas montanhas, se surpreenderam ao ver, em meio às pedras escuras, um magnífico jardim, cheio de plantas verdejantes e flores coloridas. Tudo parecia absolutamente simétrico, mas de forma harmoniosa. Ao lado da trilha de pedras prateadas, haviam dois pequenos rios, de água transparente, que rebrilhava, exibindo reflexos da luz solar, que parecia dar a tudo um ar mais alegre. Os ratos se sentiram minúsculos diante daquilo tudo, e caminharam lentamente rumo à entrada. Na porta gigantesca de carvalho, entalhado com belas imagens, o Monge esperava. Sirius se perguntou como ele chegara ali mais rápido do que eles. Então se lembrou da carruagem voadora, puxada pelos besouros. A viagem deveria fazer parte da excursão.
O Comandante Scoutt e o Monge se cumprimentaram alegremente, e então fizeram um sinal para que os Cavaleiros entrassem. Dentro do Templo, encontraram alguns monges meditando a um lado, e de outro, ninjas, se preparando para o treino. Os amigos já haviam ouvido falar deles; Assassinos sombrios, contratados pelos magnatas do mundo dos ratos, mas também ratos com habilidades de disfarce impressionantes, podendo se esconder num pequeno fio de sombra ou mesmo atrás de uma árvore, sem que ninguém os percebesse. Isso os tornava espiões muito cogitados pelos grupos mais influentes e pelas tribos. Os ninjas do Templo tinham reflexos impressionantes e imponentes. Eles se moviam com uma elegância que os Cavaleiros só haviam notado nos mestres como o Comandante, em ação. O pátio enorme, em que essas duas cenas distintas coexistiam lado a lado normalmente, estava visivelmente preparado para a chegada dos Cavaleiros, com um púlpito (sempre) preparado em seu centro. O Monge já estava indo para lá, apressado, a túnica branca revoando.
O discurso foi rápido.
- Olá, meus caros Cavaleiros. Sejam bem vindos à nossa humilde habitação. –Disse o Monge, contente. “Humilde?” Perguntou Débora a Amanda, com um sorrisinho- Ficamos muito felizes de vocês estarem aqui, e daremos aos senhores as melhores acomodações que pudermos. Espero que possam aprender muito conosco, pois estaremos aprendendo com vocês. Estão liberados. Os nossos monitores Soren –O professor/monitor se empertigou –E Koburo –O outro monitor fez o mesmo- Os ajudarão a encontrar seus quartos. São dez por quarto. Sim, são quartos bem grandes. – Apressou-se ele a dizer, com os murmúrios preocupados- Podem ir.
Com um sorriso, o Monge apontou para um corredor forrado de mármore negro, onde os monitores os esperavam. Os ratos os seguiram até um enorme hall de pedra creme, com portas a toda volta. Os números foram distribuídos em pedaços de pergaminho entre os visitantes.
O quarto de Sirius era o número 4. Quando abriu a porta, se deparou com Amanda, Débora, Quiquicp, Twinsanity, Cheeseblazed, Thefernand, Louizx e Nedlemouse. Mas o olhar do rato não se deteu neles.
O quarto era GIGANTESCO, se é que podia se chamar isso de quarto. Era 3 vezes o tamanho do chalé em que viviam na Academia. Havia 5 beliches, com colchões macios e travesseiros de penas. Ao fundo, dois banheiros, um masculino e um feminino. Todo o quarto tinha uma iluminação suave, que combinava com as paredes azul-claras. Os amigos tomaram banho, satisfeitos por fazerem isso num chuveiro (que, diferentemente do chuveiro público da Academia, tinha uma temperatura razoavelmente ajustável –Na Academia, ou era quente, ou era frio-) e não num rio ou cachoeira silvestre. Todos dormiram pelo restante da tarde.
Os Cavaleiros haviam recebido ordem para ir ao jardim atrás do Templo, de noite. Chegando lá, encontraram os ninjas treinando. Havia um riozinho que passava por ali, e dentro dele, haviam estacas de madeira, bastante afastadas das outras. Os ninjas utilizavam pequenos spirits azulados para pular de uma para a outra. Nada que os Cavaleiros nunca tivessem treinado- Nas aulas de Conjuração de Objetos, haviam chegado até a Conjuration. Mas a habilidade com que os ninjas manipulavam isso era impressionante.
O motivo de estarem ali era conhecerem os ninjas e os jovens monges melhor, então os amigos se espalharam pelo jardim. Fleur estava sentada a um canto, com várias monjas ao seu redor, enquanto falava de seu cabelo e roupas. Dehco estava ao seu lado fielmente, lixando as suas unhas, se bem que já parecia estar vacilando em sua fidelidade: O rato estava com uma cara horrível, mas cumpria as ordens de Fleur sem hesitar. Leon sentiu pena dele.
Twin estava sentado junto a alguns ninjas, que pulavam de um lado para o outro, utilizando spirits. “Que coisa retardada” pensou o rato, irritado. Aqueles ninjas se achavam demais. E então um deles o notou.
- O que está fazendo aí, Mané? –Perguntou um deles, com um sorriso idiota. –Você é um daqueles trouxas que vieram da Academia?
-Vá se danar! –Respondeu Twin, nervoso, mas incapaz de controlar seu gênio forte. –Aposto que você deve estar muito ocupado com seus flashezinhos inúteis, pulando como um coelho. Que tal você começar de novo, idiota, para eu poder rir dessa tua cara feia?
O ninja não gostou nada dessa ofensa. Os seus amigos grandões e cheios de músculos vieram para perto dele, e passaram a encarar o jovem Cavaleiro com suas caras tortas, parcialmente cobertas por uma máscara negra.
Sirius e Leon, que admiravam o Comandante discutir com o Monge por causa das acomodações dos Cavaleiros –Ele achava que eram luxuosas demais- Perceberam a agitação. Eles foram até Twin, as patas fechadas em punhos, prontos para uma briga.
- Algum problema? –Perguntou Sirius, irritado.
- Qual é a sua, hein, baixinho? –Perguntou o ninja que havia xingado Twin- Veio defender seu amigo imbecil?
Leon não gostou dessa.
-Ah, você já se olhou no espelho hoje, gigante? –Perguntou ele, bravo. –Acho que não, não é mesmo? O espelho racharia.
De repente eram Cheese, Nedle e Thefernand que chegavam ali.
- Olhem só. –Disse Cheese, baixinho- Os ninjas. Aqueles que se acham tão importantes. Hah.
-Cale a boca, inútil –Debochou o ninja, os asseclas estalando os dedos. –Porque não vão lá, com as meninas, brincar de boneca?
- Não vou brincar de sua brincadeira preferida hoje, obrigado –Rosnou Thefernand, ansioso por uma boa briga.
Logo, todos os Cavaleiros e a maioria dos ninjas estavam ali, se encarando, ferozmente, e trocando acusações e ofensas. Débora e Amanda foram muito hábeis nessa parte.
Os ânimos se exaltavam nos jardins do Templo. Ninjas e Cavaleiros prontos para um combate histórico.
Quem iria ganhar agora? A força ou a disciplina?Prólogo
- Eles voltaram! -O grito do sentinela cortou a noite densa e monótona.
As figuras de 15 ratos surgiam no horizonte.
Os grupos de salvamento estavam de volta, enfim. O Comandante esperara muito tempo por esse dia. Aqueles ratos eram verdadeiramente heróis, pois haviam se infiltrado numa casa humana e salvo vários outros de um terrível destino. O vigia pensava nesses atos de heroísmo até que, num olhar mais atento, percebeu uma enorme forma atrás do grupo. Com um calafrio, identificou um gato. O que exatamente aquela criatura fazia ali?
Todos os amigos (e o gato, que descobriram ter sido domesticado pelo grupo) se acomodaram em volta da fogueira e contaram sua história. Os outros Cavaleiros ouviram tudo atentamente, assim como o Comandante Scoutt. Quando terminaram, o Comandante chamou a atenção de todos para si.
- Meus parabéns, caros pupilos. Você obtiveram êxito em sua missão. Salvaram um certo número de ratos. Resgataram aqueles que ficaram presos na casa. Eu estou... Estou orgulhoso de vocês, meus amigos. Meus caros Cavaleiros.
Os olhos dos Cavaleiros se iluminaram de orgulho. E então o Comandante encarou-os, correndo os olhos pelo gato que vinha atrás.
- Mas agora vamos ter uma conversa sobre... Este gato.
- O nome dele é CHARLIE.- Resmungou Leon, um pouco alto demais.
Invocando
Sirius acordou, suando e tremendo. "Acalme-se." Pensou ele. "Está tudo bem. É só mais um sonho." Para se acalmar, levantou-se e olhou pela janela. Ver os campos e o céu sempre o deixava mais calmo. Naquela manhã, os campos estavam vazios e estava chovendo. Grandes gotas caíam em sequência e o céu estava cinzento e nublado. Raios cortavam o horizonte. Com um suspiro, se lembrou de que hoje teriam um treinamento de invocação de objetos com o Comandante. Ele certamente não iria se importar com a chuva, então com certeza sairiam do campo encharcados. Olhando em seu relógio, que lhe fora dado pelo próprio Comandante há duas semanas, quando voltara de sua missão, percebeu que era muito cedo. Até para um Cavaleiro, que acordava de madrugada para treinar. Então seus pensamentos voltaram-se para o sonho e ele teve um calafrio.
- Sua hora está próxima- Dissera aquela terrível voz, fria e profunda- A profecia se realizará, e eu serei o dono dos Espíritos Indomáveis!
O jovem rato sabia que, quando a profecia se realizasse, ele poderia morrer. Mas sabia também que aquilo que conheciam não estava completo.
"Procure um sábio nas montanhas" Dissera a mãe de Leon. " O que vocês conhecem não está completo."
Sirius imaginou quem seria esse sábio. Talvez algum monge. Os Cavaleiros sabiam que havia um Templo nas montanhas. Certo dia um desses monges fora até a Academia. Ele tinha uma barba muito longa e a maioria dos seus pêlos eram brancos. Caminhava com dificuldade, com o auxílio de uma bengala de madeira, um pouco torta pelo passar do tempo. Havia algumas falhas em seu pêlo, especialmente na cabeça. Certamente parecia muito respeitável e antigo. Amanda lhe dissera que o rato tinha mais de 200 anos, e ele rira, na hora. Mas, pensando bem, quem sabe o monge tivesse mesmo essa idade? Pelo menos era o que parecia. O jovem riu baixinho, se lembrando de tudo, e anotou a pergunta mentalmente para quando encontrasse o tal monge novamente.
Com um bocejo, se lembrou de que estava com sono. Ao som dos roncos de Leon, se deitou e dormiu quase instantâneamente.
Enquanto isso, em outra cabana, Quiquicp e Twinsanity ressonavam, em suas camas. Um trovão acordou Quiquicp. Como Sirius, ele não gostava de trovões.
- Dio Mio. -Disse ele, abaixando as cortinas. - Cosí haverá um tufone. Questa pioggia non si ferma!
Com mais uma espiada pelas janelas, onde uma verdadeira tempestade se formava, fechou novamente as cortinas, trêmulo, e voltou para a cama. Mais um trovão cortou a noite até então calma, desta vez acordando Twin.
- Cruzes. -Disse ele.- Está acordado, Quiqui?
- Sì. -Respondeu o amigo, a voz levemente trêmula. - Questa chuva vai acabar com nosso treino.
- Acho que não. - Respondeu Twin, cansado.-O Comandante não é muito de se abalar com trovões. Falando nisso, já está quase na hora. Vamos logo, e não se esqueça do guarda-chuva.
O Comandante esperava-os no campo de treinamento de costume, quando chegaram. Sirius, Leon, Débora, Amanda e Cheeseblazed estavam lá também, e os dois ratos rapidamente foram para o lado deles. Como já era esperado, todos os ratos estavam ensopados. A chuva não cessava, caindo à volta deles.
- Estão atrasados. -Disse Scoutt, com voz fria.- Vão lavar pratos depois do almoço hoje. Meus parabéns.
- Eles só se atrasaram 7 minutos, véio! -Disse Débora, nervosa.
- Não importa. -Respondeu o Comandante.- Atrasos não são permitidos. E quem reclamar vai se juntar a eles na cozinha!- Tornou, ameaçador.
Os ratos se calaram de imediato. O mestre não estava de bom humor naquele dia.
- POIS BEM!- Gritou ele, para chamar a atenção de todos.- Vamos começar hoje com os conjuramentos de objetos! A começar por balões, que são os mais fáceis. Vou logo avisando que não é uma coisa simples. Vocês terão que se concentrar muito e botar esses seus cérebros diminutos para funcionar. Pensem no balão. Imaginem ele se formando à sua frente e canalizem sua energia para que ela o forme. Vamos! Comecem!
Sirius tentou fazer o que o comandante mandava. Imaginou um balão azul na sua frente. Se concentrou friamente naquilo, e uma dor leve tomou sua cabeça. Ele a ignorou. Sentiu de repente as patas dianteiras ficarem mais quentes e finalmente algo pareceu surgir.
Cheeseblazed, ao seu lado, olhou para o que tinha sido formado e riu. Um balão menor do que uma bolinha de gude havia se formado, e estava vazio. Aquilo caiu no chão e se dissipou em pequenas centelhas douradas. O jovem rato suspirou. De repente Scoutt estava na sua frente. Ele chamou a atenção de todos os outros para si e disse:
- Vejam como se faz.
O mestre fechou os olhos e pareceu estar muito concentrado. Com um rápido movimento de mãos, um balão amarelo apareceu em sua frente. Os outros ratos o observaram, admirados. Até mesmo Sirius, que já havia invocado um cannon em outras ocasiões (mas apenas quando estava com raiva extrema) ficou impressionado com o que vira. Parecia tão simples! Ele resolveu se dedicar mais.
Enquanto os amigos treinavam sob a chuva constante, alguém os observava.
Um par de olhos vermelhos apareceu e sumiu novamente, entre as árvores que cercavam o campo de treinamento.
A Lâmina de Deus
Sirius se concentrou firmemente no que estava fazendo, desta vez. Nada pareceu surgir. "Droga" pensou ele. Encarando os outros, percebeu que todos estavam tendo o mesmo sucesso. Amanda era a única que estava conseguindo alguma coisa. Centelhas douradas saíam de suas patas tomando a forma de um balão verde. Uma pequena corda desceu pelo balão.
Enfim ele voou, em direção ao céu.
O Comandante a observou, orgulhoso. Então lançou um olhar maligno aos outros ratos.
- Será MESMO que vocês são assim tão INÚTEIS? DÊEM O FORA DAQUI AGORA, ANTES QUE EU ACABE COM VOCÊS, SEUS PALERMAS! -E então o velho rato pareceu suspirar. Ele se acalmou um pouco e então tornou a encará-los.- ESPERO que NENHUM de vocês seja tão idiota A PONTO de chegar atrasado ao jantar hoje. Vamos ter um convidado ilustre lá, hoje. ENTÃO ESTEJAM LÁ! DISPENSADOS!!!
Os amigos foram para seus chalés antes de ir para o próximo treino. A chuva estava quase parando, agora, então aproveitaram para se secarem e se lavarem antes de saírem de novo. As palmas das mãos dos ratos doíam terrivelmente, por causa do esforço, e na aula que se seguiu a grande maioria estava com as patas enfaixadas ou cheias de curativos. Aquela era a aula de Batalha com Armas, administrada por Sorentytok, um dos Cavaleiros de Elite que havia ajudado os ratos em sua missão. Ele não era muito mais velho do que eles e costumava ser um ótimo professor, fazendo-os rir inúmeras vezes e exigindo o máximo que podiam dar. Naquele dia, todos receberam uma espada de madeira para aprenderem a lutar com esse tipo de armas. Soren queria que se dividissem em duplas, então naturalmente Leon e Sirius ficaram juntos, assim como Débora e Amanda. Quiqui ficou com Twin e Cheese ficou com Thefernand. O professor os mostrou um ataque simples, que consistia em uma finta, confundindo o adversário, e um golpe direto no peito, que poderia machucá-lo e até derrubá-lo, se feito corretamente. Então demonstrou os diversos tipos de fintas com sua espada. Após deixar os alunos babando com os incríveis movimentos, passou a demonstrar como se defenderiam, ignorando as fintas e desviando a estocada do adversário. Sirius percebeu que o professor não lutava com uma espada de madeira, mas sim com uma arma real, de bronze. Ele ficou impressionado. Prometeu a si mesmo que, um dia, lutaria com uma dessas.
- Comecem. -Disse o professor, dando início às batalhas.
Leon atacava primeiro. Sirius se concentrou na ponta de sua espada, lembrando-se de ignorar as fintas. Pacientemente, esperou o adversário investir com a arma em seu peito e então se defendeu com a parte interior da espada. Sem pensar, investiu contra o amigo com a própria arma de madeira e, quando recuperou os sentidos, tinha Leon encostado em uma árvore, com a ponta da espada falsa em seu pescoço. Assustado, se afastou do amigo, que fez um som rascante com a garganta, como se estivesse engasgado. Sirius percebeu então que o machucara na garganta. Aliviado, constatou que não era nada grave, apenas um pequeno corte.
O professor Soren o encarou longamente. Todos os presentes ratos o observavam com assombro. O jovem rato ficou muito nervoso, de repente.
- Venha comigo, filho. -Disse Soren, suavemente. -Os outros... Ahn... Continuem treinando! Eu já volto.
Sirius o seguiu. Os dois ratos adentraram na Academia e seguiram por um longo corredor. Viraram à direita na grande tapeçaria que representava a Batalha do Tio Tsuí- Chua -Teísé, no Japão, e foram em frente, subindo dois lances de escada até chegar em uma sala no Terceiro Andar. Sirius percebeu que Soren estava um pouco nervoso, mas senhor de si. Ele abriu a porta, após um segundo de hesitação.
Era uma sala muito interessante. Inúmeros ganchos e estantes a ocupavam completamente. Em cada par de ganchos, repousava uma espada. Elas variavam muito, indo das douradas às negras, das longas e finas às pequenas e largas e das curvas às retas. Abaixo de cada uma das espadas, estavam os seus nomes, gravados em placas de bronze. Sirius registrou inúmeros, de "Morte total" a "Korraskas". Todas pareciam muito poderosas e potentes, armas as quais apenas um Comandante ou superior poderia adquirir. No entanto, o olhar e a atenção de Sirius foram atraídos para uma espada que estava no centro da sala, numa redoma de vidro. Ela era um pouco curva e parecia imemorial, como se fosse a mais antiga arma daquela sala. Sua lâmina era muitíssimo afiada. O punho da espada era de um material dourado reluzente. Estavam gravadas algumas letras em latim, na lâmina. Aquela arma despertava medo em quem a observava. Parecia poder cortar apenas com um toque. Sirius encarou o professor, que a esta altura estava ao lado da tão temida lâmina.
- Esta -Disse ele, parecendo muito calmo e frio.- É Verutun Dei. A Lâmina de Deus.
A sala 666
Sirius o encarou, admirado. O nome fez seus pêlos se eriçarem. O professor o encarou e continuou falando.
- Veja, o que eu vou dizer agora é altamente confidencial. Você está oficialmente proibido de comentar o que direi a seguir com qualquer um, a menos que tenha a minha permissão. Está ouvindo?
- Sim, mestre. -Respondeu o rato, nervoso, mas absorto.
- Pois bem. Esta sala, Sirius, é uma das mais secretas da Academia. Seu nome é "Sala das espadas", a sala número 666. Gerações de ratos se perguntaram porque a sala 665 ia direto para a 667. Essa sala foi escondida por muitos séculos. Apenas nós, professores, Comandantes e Generais podem adentrá-la. E, dentre os professores, apenas os instrutores de armas, como eu, podem tocar nas armas que aqui se escondem. E aqueles que nós convidamos. Veja, Sirius. Cada arma daqui tem um poder especial, algo que a diferencie. Algumas foram utilizadas por grandes mestres; São peças históricas de grande poder. Outras foram encontradas em circunstâncias misteriosas e algumas mais têm suas lâminas repletas de magia. Veja! -Exclamou o jovem professor, apontando para uma lâmina prateada, com algumas penas entalhadas em seu metal, aparentemente muito leve- Aquela é Áv̱ra, uma espada aérea. Com ela, você poderia controlar os sete ventos, os mandando atacar quem você quisesse! Consegue imaginar? -Perguntou Soren, encarando-o. E então apontou para uma lâmina gigante, de quase três metros, e que parecia feita de algum material parecido com argila. - Essa é Zemli, uma espada terrena. Com ela, poderia criar montanhas apenas com pequenos movimentos. - O professor então apontou para uma espada que parecia ser feita de pedra negra.- Essa é Styx, feita de obsidiana. Dizem que pode invocar os mortos, e matar apenas com um toque. -Novamente apontou para uma espada, esta com um punho verde brilhante, como uma esmeralda, e uma lâmina dupla, com um desenho tribal na base. O mestre apontou para ela e a arma pegou fogo. Sirius o encarou e depois olhou de volta para a espada, admirado. -Essa é Flamer, a lâmina do fogo. Percebo que você não havia realmente acreditado em minhas palavras até este momento, não é mesmo, meu caro? -O professor riu. -Há inúmeras mais nesta sala. Mas nenhuma é tão poderosa, ou misteriosa, quanto esta aqui. -O professor apontou para a lâmina que repousava na redoma da vidro- Ela é uma lenda. Creio que você esteja se perguntando porque eu lhe mostrei isso, não é mesmo? -O professor disse, misterioso. Pois bem, a Verutun Dei pertenceu ao seu pai.
- Ao meu... pai? -Perguntou o jovem rato, admirado.
-Seu pai, meu caro, era um excelente espadachim. Sua espada era uma lenda, encontrada por ele mesmo sob circunstâncias misteriosas. Alguns dizem que ela era demoníaca, pois não podia ser tocada. Quem a tocava com as mãos nuas sofria um sofrimento terrível e, às vezes, até enlouquecia e perdia a razão. Alguns dizem que era um item vindo do Mundo Inferior, banhado no Tártaro. Mas apenas alguns sabem o verdadeiro segredo da Lâmina de Deus. Eu tenho a sorte de estar entre eles, e você também terá, meu caro amigo.
"Veja, a Extremam eius conspectu é de bronze celestial. Ela foi fabricada, aproximadamente, em 666 a.C. Ninguém sabe sua origem. O mais provável é que ela tenha nascido dos restos de pesadelos humanos e de ratos amaldiçoados e torturados no Mundo Inferior, que corriam nas águas negras do Rio Estige. Quando as três Fúrias encontraram aquela terrível lâmina, entenderam o que significava o VERDADEIRO MAL. E forjaram um punho para ela nas forjas dos Dêmonios do Mar (telquines). Então, Alectó (a terceira Fúria) a levou para ser amaldiçoada pelas Parcas. A maldição de Verutun Dei foi tão forte que dizem que, se um homem a tocar com as mãos nuas, poderá enlouquecer, imerso em seus próprios pesadelos. Deus viu tamanho poder maligno e confiscou a espada, levando-a consigo. Por muitos anos ela permaneceu desaparecida. Mas, um dia, Ele decidiu confiar a um ser a guarda da terrível arma. Deus a deu para os espíritos Indomáveis, sabendo que, quando encontrassem um corpo comum, ela retornaria às mãos de um rato na Terra, que a protegeria. Seu pai, Sirius. Kobe era seu nome. Esse rato se tornou um guerreiro lendário, assim como sua mãe. Mas a espada de sua mãe nunca foi encontrada e pouco se sabe sobre ela. Agora, esta lâmina tem muitas histórias girando em torno de si. A mais verídica, na qual eu, o Shaman da vila e o Comandante acreditamos, é que o poder Dele ainda está contido nela, assim como o poder demoníaco da lâmina. Sendo assim, ela é o centro do poder de ambos os lados na Terra, representando o equilíbrio entre o bem e o mal."
- Wow. - Disse Sirius, muito pensativo. -Por que me contou isso, mestre? Eu não sei nada sobre espadas e não sou nada parecido com o meu pai.
- Nada parecido? NADA PARECIDO?- Exclamou o professor- Você me faz rir, aluno. Você é igualzinho ao seu pai, mas tem os olhos de sua mãe. E o gênio também é dela. Eu o conheci, por pouco tempo, antes...
Sirius ficou muito quieto, mas o professor não insistiu no assunto.
- E como pode dizer que não é um bom espadachim? Não viu o que fez com Leon hoje, na primeira aula com espadas? -Perguntou Soren ao aluno.
- Leon! -Exclamou Sirius, nervoso. Como podia ter esquecido do amigo?- Ele está bem? Eu o machuquei?
- Seu amigo está ótimo. -Respondeu o jovem mestre.- Acredito que ele seja muito forte, pois aquele não foi um golpe fraco. Mas isso não importa. Eu o trouxe aqui e o mostrei tudo isso porque acredito que você tenha o mesmo talento do seu pai. E, sendo seu único descendente, é o único que pode tocar a Verutun Dei. Sirius, você tinha que saber mais sobre seu passado, pois a hora em que essa espada será importante na sua vida e na de todos nós não está longe. E, com isso, está dispensado.
O professor agitou a pata e a a sala se dissolveu. De repente, Sirius estava nos campos de treinamento. Leon, Twin e Quiquicp estavam ao seu lado. Pela posição do sol, o rato percebeu que a aula já havia acabado há algum tempo. Quanto tempo será que ele havia passado na sala 666?
- Sirius? -Perguntou Twin, alarmado. -Eu não te vi chegar, cara!
- É, eu também não. -Respondeu Sirius, um pouco tonto. - Novidades?
- É isso que eu pergunto -Disse Leon. -Onde você esteve?
- Depois eu te conto -Murmurou Sirius. Eu te machuquei com aquela espada idiota?
- Não, fique tranquilo- Respondeu Quiqui, antes que Leon falasse alguma coisa. -Egli só te chiamati de algumas palabras feias.
Leon enrubesceu. Twin lançou-lhe um olhar malicioso e sorriu.
- Mentira. -Disse Leon.
Então Twin viu algo que lhe chamou a atenção.
- Ei, galera, vejam aquela rata!
Uma linda rata acabara de chegar. Ela vinha acompanhada pelo Shaman da vila e pelo Comandante Scoutt. Era magra e esguia e usava uma bela flor nos cabelos, coloridos com mechas um pouco mais escuras. Andava com elegância. Leon não desgrudava os olhos dela.
De repente, Amanda e Débora chegaram, correndo, afobadas. Amanda foi a primeira a falar:
- Gente! Tem uma nova aluna na nossa turma. O nome dela é Fleur.
Débora a interrompeu.
- E ela é FILHA DO SHAMAN!
Os ratos a observaram, admirados. O Shaman da Vila os observou e de repente todos se sentiram muito tentados a ir direto para o refeitório almoçar.
A briga
O almoço foi silencioso. Cheese chegou atrasado, como de costume, pois estava ajudando o Comandante a transportar alguns equipamentos. Todos se acomodaram na mesa em que sempre se sentavam, próxima à janela, que hoje mostrava um céu nublado e cinzento. Deveria ser por volta da uma hora, então o almoço hoje estava atrasado. Espere, volte. O almoço NUNCA ficava atrasado. Todos os dias, ao meio dia, todos tinham que estar ali e a comida era servida pontualmente. Pontualidade era uma qualidade dos Cavaleiros do Queijo. Os ratos que chegavam atrasados ao almoço, jantar e aulas eram castigados, tendo que comer moluscos por algumas semanas. Por que hoje havia sido diferente?
Sirius refletia sobre isso, quando de repente um rato desconhecido apareceu na mesa dos amigos, cortando seus pensamentos e silenciando as conversas. Leon o encarou.
- Nedlemouse? -Perguntou ele. Se lembrava desse rato junto aos amigos na missão. Era o primeiro que correra quando ele aparecera com o gato. Com uma risadinha, Leon se lembrou de como esse pequeno rato parecera amedrontado na hora. Mas sabia que, na verdade, ele era realmente corajoso. Sirius havia contado com sua ajuda para colocar Charlie fora de combate, antes dele o encontrar.
- Sim. -Respondeu o rato.
Sirius se lembrou dele de repente. "Os melhores ouvidos do grupo, depois de Leon". A frase veio a sua mente, junto com a tenebrosa imagem da sala fria e escura. Ele estremeceu.
- O que você quer aqui, amigo? -Perguntou Sirius, estranhando. -Você costuma almoçar com o povo que fazia parte da Equipe Beta, não é mesmo?
- Sim. -Repetiu o rato.- Mas o Comandante quer que eu chame o Leon imediatamente para ver uma coisa.
- Ver o quê? -Perguntou Leon, curioso.
- É... É sobre o seu gato. -Respondeu Ned, nervoso.
O rosto de Leon assumiu uma expressão sombria.
- O que houve com o Charlie? -Rosnou ele.
Nedle enrubesceu.
-É melhor vocês virem comigo -Disse o rato, tenso.
Sirius, Leon e Quiquicp foram atrás de Nedle, que os levou para os estábulos atrás do refeitório, um pouco afastados. Sirius já fora ali, dar de comer a Charlie, com Leon. Era um lugar bonito, com árvores a toda a volta. Os Cavaleiros o usavam para guardar suprimentos e, de vez em quando, montarias simples como lagartixas e pequenas serpentes. Quiquicp adorava as serpentes. Uma vez o Comandante lhe ensinara a montar em uma. Mas o jovem não costumava ir ali, por causa das enormes aranhas que, conforme os Cavaleiros em treinamento, rondavam o local. Quiqui odiava aranhas. Ele sentiu um arrepio descer pela espinha ao pensar nelas.
E então eles chegaram ao pequeno celeiro onde ficava Charlie. A poucos metros da porta, ouviram um terrível ruído. Se parecia com um grito agudo, ou uma lira desafinada. Sirius não o reconheceu, mas Leon sim.
- Charlie.-murmurou ele, correndo para a porta. Sirius percebeu as orelhas abaixadas e a cauda reta do amigo. Ele estava MUITO bravo.
Sirius e Quiqui se entreolharam, apreensivos, e seguiram o amigo.
O barulho era mesmo de Charlie, que miava, desesperado, no centro do celeiro. Ele estava preso com cordas, amarradas em pequenos tocos. Um barbeador enorme estava no chão do local. Sirius não sabia se ria ou se ficava bravo com o que via.
Charlie estava inteiramente careca, exceto por alguns tufos de pêlo na cabeça, patas e rabo, o que o fazia ficar parecido com um pudlle muito, mas muito raivoso. O animal silvava, se debatendo para escapar das amarras. Leon fez um rápido movimento com as mãos e as cortou, todas de uma vez.
Charlie rolou para o lado, miando exausto. Embaixo dele, estava pichada uma mensagem em letras roxas-berrantes.
"ISSO FOI PELO MEU KIT DE MAQUIAGEM!"
Sirius rosnou. Por que alguém faria aquilo com Charlie, e mais, por um motivo tão idiota? Subitamente, uma risadinha torpe cortou seus pensamentos.
- Ha, ha, ha... -Disse alguém, na porta. -Bem feito para esse bicho inútil...
Charlie silvou, cansado. Uma rata alta, esguia e magra, com mechas escuras no cabelo, olhou para eles com malícia. O jovem rato reconheceu a filha do Shaman.
- Por que... POR QUE você fez isso? -Ele gritou, irritadíssimo.
- Porque eu quis, querido. -Respondeu a rata, com uma voz aguda e infantil. - O que você vai fazer, hein?
Sirius encarou-a, raivoso. E então olhou para Leon. O amigo estava parado ao seu lado, espumando de raiva.
Suas orelhas abaixadas e as sobrancelhas arqueadas lhe davam o rosto de um assassino. Pela primeira vez Sirius percebeu a sombra do rato de rua que ele fora, não muito tempo antes.
- Eu vou te matar, sua menina idiota e metida a besta, filha de uma rata. -Rosnou ele.
E avançou para a rata, que ria, insolentemente.
Sirius e Quiqui agiram rapidamente, se postando ao seu lado e segurando-o firmemente para que ele não fosse para cima da filha do Shaman. Por sorte eles haviam sido treinados para ter reflexos ofuscantes de tão rápidos.
- Dio mio, Leon! -Sussurrou Quiqui para o amigo. -Se você a machucar, eles te matarão!
- Ha, ha, ha... - A rata ria, irritando-os. Sirius se sentiu tentado a soltar o amigo e deixá-lo espancá-la. Leon se debatia, tentando ir atrás dela. De repente, ela apareceu diante deles. O rato estacou. Ela parecia ser tão rápida quanto... Quanto o próprio Comandante Scoutt! A delinquente o observou, risonha, e pôs a pata em seu focinho, e depois em seu queixo, levantando sua cabeça.
- Sabe que você até que é bonitinho, querido? Me liga, tá? Meu nome é Fleur. Fleur Maya.
Sirius rosnou, pensando em Débora. Ele se distraiu, por um momento...
E soltou Leon.
Quiquicp não foi forte o suficiente para segurar o rato enfurecido. Ele pulou em cima de Fleur e a encheu de socos. Os gritos da rata foram o suficiente para, de repente, uma verdadeira multidão estar ali dentro, no celeiro. O Shaman e o Comandante Scoutt estavam entre eles.
- MINHA FILHA! -Gritou o Shaman, raivoso. Com um minúsculo movimento das patas e um estalo de dedos, jogou Leon no outro lado do celeiro. O rato estremeceu e depois desmaiou, com o impacto.
- Meu senhor! -Disse o Comandante. Sirius nem parou para pensar em como era estranho o comandante chamar alguém de senhor, pois as coisas estavam ficando realmente tensas. -Tenha calma! Ele não a machucou de verdade. Só atingiu os pontos de força dela, os lugares mais doloridos de seu corpo. Onde será que esse rato aprendeu isso? São técnicas de tortura milenares. - A rata gemeu de dor, caída no chão.
- Aaaah! Papaai, ele é mau! Muito mau! Eu não fiz nada...
O Shaman rosnou.
- Suponho que esse... delinquente... Seja castigado firmemente, segundo suas mais duras leis, não é mesmo, Comandante?
Sirius não suportou mais.
- Senhor! -Disse ele, nervoso- Leon não fez nada! Ela- Sirius apontou a filha do Shaman.- o provocou!
O Shaman o encarou, subitamente.
- Sirius, não é mesmo? Pelo que me lembro, você só está aqui por minha causa. Espero que você saiba com quem está andando. E que faça seus votos de lealdade às pessoas certas.
Sirius abaixou a cabeça.
Quando a multidão se dispersou, e Fleur foi levada para a enfermaria, apenas o Comandante Scoutt e o grupo de amigos permaneceram no celeiro. Os amigos haviam chegado há pouco tempo, ouvindo o barulho.
O Comandante foi até o fundo do celeiro. Ali, Leon estava caído no chão, desmaiado, com uma expressão homicida no rosto. Ele colocou a pata em sua testa. "Hum." Resmungou ele.
- Seu amigo está bem. -Disse. -Creio que um ou dois dias na enfermaria e ele ficará ótimo.
Então se aproximou de Charlie, que estava deitado em cima de um monte de palha, tremendo.
- Quanto a ele... Acho que posso fazer alguma coisa por esse animal. - Com um movimento de patas, e uma sequência de pequenos movimentos que pareciam uma espécie de dança, o pêlo do gato cresceu um pouco. Isso pareceu deixar o Comandante esgotado. "Está feito" Bufou ele.
Então, todos os amigos saíram da sala, Cheese e Sirius levando Leon nas costas. Depositaram o colega numa cama da enfermaria. A enfermeira-chefe prometeu que ele ficaria bem em algum tempo. Ela espetou uma agulha de soro no braço do rato desmaiado. E mandou os outros embora.
Mas aquelas não seriam as únicas surpresas da noite.
No refeitório, todos falavam de Leon. Pelo que ouvia, Sirius percebia que todas as conversas inocentavam a rata idiota, Fleur. Ele estava realmente tenso com tudo o que acontecera. Vendo-o assumir sua esquecida face fria e calculista novamente, Débora tentou animá-lo com alguma coisa -Qualquer coisa-. Pela janela, viu uma carruagem puxada por três besouros levando alguém.
- Vejam! -Exclamou ela, agradecida por ter algo que distraísse os amigos do mais recente assunto. - O que será que é aquilo?
Então aquele que estava sendo transportado na carruagem apareceu.
Era um velho rato com barbas brancas, apoiado numa bengala torta.
O monge do Templo nas Montanhas.
Boas notícias/Más notícias
O Comandante ordenou que fizessem uma formação de cumprimento. Quando o velho rato entrou no refeitório, todos os Cavaleiros bateram continência e então se curvaram, respeitosamente, e em silêncio. Ele se dirigiu a um pequeno púlpito que o Comandante mantia no refeitório para falar aos alunos, de vez em quando.
- Meus jovens! Agradeço pelo respeito e consideração que vocês estão aparentando ter para comigo hoje. As notícias que trago não são boas; Há riscos iminentes para todos nós. Bem... Lobos foram avistados na Floresta. -Sussurros nervosos, assustados e excitados percorreram o refeitório, e acabaram com um grito do Comandante. -Sim- Prosseguiu o monge. -Lobos. Vocês já ouviram falar deles, não é mesmo? Seres absolutamente imensos, maiores do que dez gatos ou cem ratos juntos. Com pêlos espetados, e cores que variam do cinza até o branco, passando pelo marrom e o preto. Sim, lobos, com dentes afiados e olhos amarelos. Esses mesmos lobos que vocês imaginaram, meus jovens. E eles estão muito perto. Vim alertá-los para que se protejam, e protejam também seus animais e montaria. Não deixem nada vulnerável, pois eles matarão o que puderem. Andem sempre em grupos. Não saiam sozinhos; Seria como um pequeno lanche ambulante para esses animais terríveis. E se lembrem de que os lobos são assassinos cruéis, mas muito belos. Eles criam uma atração sobre nós, ratos. Em nossas mentes, acreditamos que podemos dominá-los. Que podemos criar laços de amizade com eles. Mas isso é impossível. Esses seres são selvagens e não aceitam dominação. Então é apenas o que peço. Tomem cuidado. -Os ratos se entreolharam, imaginando se haveria mais. Estavam certos.- E agora, as notícias boas! -Continuou o monge, com um sorriso.- O Comandante permitiu que vocês fizessem uma excursão ao Templo no mês que vem. -Todos os Cavaleiros vibraram. O Templo parecia incrível! - Sim, sim! -Disse o velho rato, no púlpito.- Eu tinha certeza de que adorariam. E vão aprender a domar alguns tipos de animais lá, a fazer poções e remédios com plantas medicinais, e alguns tipos de meditações e técnicas de autocontrole. A excursão será no próximo mês.
Com isso, o monge acabou seu discurso ali, que foi seguido de aplausos entusiasmados.
Ele se retirou para um dos quartos privilegiados que o Comandante mantinha apenas para os convidados ilustres, e todos os ratos foram mandados de volta a seus chalés. Sirius se dirigiu, sozinho, até o seu próprio quarto. Enquanto andava, olhou para a Casa Principal, onde ficavam os quartos dos visitantes ilustres. Com ondas de raiva descendo por seu peito, percebeu que Fleur ficaria ali também. A rata o localizou e sorriu para ele, da janela de cristal, cercada por lindas cortinas floridas. Sirius rosnou, começando a tremer e se controlando muito para não tacar um belo de um cannon na direção daquela idiota. Seus dedos se contorciam, ansiosos por invocar uma bola de ferro do tamanho de uma casa e jogá-la na filha do Shaman. "Argh!" Ele pensou, nervoso. "Se acalme, Sirius. Você é um rato bom e bem-comportado e não vai fazer essa desfeita ao Comandante." Na janela, a rata riu, fazendo um gesto obsceno para Sirius. Ele não suportou mais; Se viu fazendo uma esfera de energia no alto e, no último momento, parou, extinguindo-a num fiapo de fumaça. Suspirando, percebeu que os guardas da Casa Principal haviam percebido seu pequeno ato terrorista. "Droga" pensou ele. Mais um problema. Os guardas vinham a todo vapor, mas felizmente Sirius sabia como fugir deles. Subindo em uma árvore rapidamente, esperou até um dos seguranças chegar perto e pulou em cima dele, tapando sua boca com as patas. e apertando uma pequena veia em sua nuca. Ele desmaiou antes que pudesse fazer algum barulho. Logo o outro guarda estava lá, a procura do colega, mas Sirius pensou rápido; O rato se escondeu nas sombras das árvores e, quando o segurança se abaixou junto ao outro, desmaiado no chão, ele tacou um galho em seu rosto. Atordoado, o guarda se virou para ver o que era aquilo, mas Sirius lhe deu uma rasteira e apertou a tal veia na nuca. Então levou os corpos dos dois para a Floresta. Vendo-os ali, sorriu maliciosamente. Não se lembrariam de nada no dia seguinte.
Andando até o chalé, Sirius pensou no que havia feito. Talvez não fosse correto, mas naquele dia as coisas estavam muito feias para o seu lado. Ele não estava com paciência para mais nada. NADA. O jovem rato começava a conhecer o estresse.
Na frente de sua casa, ouviu altos rosnados. O que era aquilo? E então a voz de um rato. As orelhas de Sirius ficaram em pé. O rato se pôs alerta.
Os gritos eram de Twinsanity.
Correndo até a cabana, viu uma terrível cena:
Twin estava agachado embaixo de uma árvore, com um ferimento terrível na perna traseira esquerda. Ele não conseguia se mexer, e nem levantar. E, em sua frente, um lobo enorme, de pelagem negra e olhos amarelos o observava, compenetrado. O animal era incrível. Seu pêlo revoava e se agitava, com o vento noturno. Seus olhos pareciam focos de luz. Sirius ficou paralisado. E então voltou à realidade, com um rosnado maligno da criatura.
O lobo avançava para Twin, passo ante passo. Sirius olhou para aquele gigantesco animal. Não havia tempo para chamar ajuda, e, com a raiva diminuindo, não conseguiria invocar um cannon. Aliás, nem mesmo um cannon seria suficiente para lutar contra uma dessas criaturas.
O que ele faria?
BlackJack
Sirius encarou o lobo. De repente, percebeu que não poderia matá-lo. A criatura se movia graciosamente para Twin. Seus movimentos eram quase hipnóticos. Sem saber o que fazer, o rato fez a coisa mais idiota que poderia ter executado. Ele gritou para chamar a atenção do animal.
- EI! SAIA DE PERTO DO MEU AMIGO! -Gritou o jovem, estupidamente.
O lobo parou. A portentosa cabeça se virou para Sirius lentamente. Aqueles olhos amarelos o encararam e, por um momento, o jovem Cavaleiro teve a sensação de que o bicho estava lendo seus pensamentos. Então, o animal se virou para ele lentamente. O primeiro pensamento de Sirius foi: "Estou morto."
E, nesse momento, o lobo se curvou, numa respeitosa reverência, abaixando as duas patas dianteiras. Uma voz apareceu, fria e rouca, mas bondosa, no fundo da mente do rato.
"Salve, Sirius Luppus Castellan. O portador dos Espíritos Indomáveis, filho de Lyra Castellan e de Kobe Luppus.
Esperamos muito por este dia. Venha comigo, senhor."
Sirius encarou o lobo, incrédulo. Ele estava mesmo falando com ele? Como... Como isso era possível? E o animal sabia seu sobrenome, o qual nunca dissera a ninguém. Nunca o usara.
O lobo estava quase entrando na floresta, mas hesitou, esperando que Sirius o seguisse.
"Algum problema, senhor?" Perguntou.
O jovem rato tentou usar a conexão mental para falar com ele.
"Eu... Eu não sei se...Ahn...." Droga. Aquilo estava pior do que pensava.
"O senhor está preocupado com seu amigo?" O lobo foi compreensivo. "Não se preocupe. Não fui eu que o machuquei. E estava tentando salvá-lo, pois vi o senhor em sua mente."
"Ahn...Sim." Sirius respondeu ao animal. "Você pode ajudá-lo?"
"Se é o que deseja... O levaremos para a Alcatéia. Lá, trataremos seus ferimentos com ervas." O lobo pareceu seguro enquanto pegava Twin delicadamente com a boca e o colocava em suas costas. Isso deixou Sirius mais calmo.
"Onde é a Alcatéia?" Perguntou Sirius enquanto andavam. "Como você sabe que eu sou um Espírito indomável? Como sabe meu nome? E, principalmente, COMO estou conseguindo falar com você?"
"Vejo que está confuso, senhor." Disse o lobo, divertido. "Tenho respostas para todas as suas perguntas. Veja, a Alcatéia não é longe. Fica no fundo da Floresta, num local inabitado e inexplorado pelos ratos. O senhor será o primeiro a vê-la, em anos. Todos nós esperávamos por você há séculos. Vão ficar felicíssimos de vê-lo." Sirius se sentiu orgulhoso com isso. "Eu posso ver os Espíritos se agitando dentro do senhor. São inspiradores. Eu sei seu nome, pois você é uma lenda entre todos os lobos do mundo. E, por último, tenho certeza de que o senhor sabe que os Espíritos Indomáveis tomavam a forma de lobos quando estavam na Terra. Eles tinham uma relação especial conosco."
Sirius ficou pensativo. Não conhecia esta parte da história. Porque o Comandante não havia contado isso a ele? E agora estava andando rumo à parte desconhecida da Floresta, conversando com um lobo! Seu mundo virara de cabeça para baixo.
"Senhor?" Perguntou o lobo, confuso. "Está bem?"
"Sim" Respondeu o rato, pela conexão mental. "Só... Pensando. Há muita coisa para processar." E então ele encarou o lobo, que andava ao seu lado. "Por falar nisso, qual é o seu nome?"
"BlackJack, senhor." Respondeu o animal, calmamente. "Fico honrado de estar conversando com você agora."
Sirius riu. E então começou a ouvir barulhos na floresta, próximo a eles. Rosnados e uivos encheram o ar.
"Chegamos." Disse BlackJack, contente. "Conheça a minha família."
Sirius se viu em uma pedra, em frente a aproximadamente 200 lobos. Uma voz gritou, em sua mente.
"É o Indomável! Ele voltou para nós!"
E 200 lobos fizeram uma respeitosa reverência para um minúsculo rato marrom, dobrando suas patas à luz da Lua.
A Alcatéia
Sirius sentiu uma nova energia dentro de si. Ele não sabia bem o que dizer, mas sentia que tinha que ser algo como um discurso. Nervoso, encarou os lobos, mas foi salvo por uma grande loba branca. Ela parecia ser maior e mais graciosa do que seus companheiros. Suas feições eram belas e esguias. A loba se levantou primeiro e subiu para a pedra num salto elegante. Então, encarou Sirius e uma nova voz invadiu sua mente.
"Olá, meu senhor. Seja muito bem vindo a nossa humilde residência. Todos nós nos sentimos muito honrados com sua presença e felizes com a sua volta. Por favor, nos deixe conhecê-lo. Seu amigo será tratado com as mais finas ervas. Com sua permissão, descobriremos quem o machucou e o destruiremos" A loba rosnou. "Eu sou Maya, a alfa desse bando."
"Ahn... Prazer." Sirius respondeu, nervoso. "Boa noite" Disse, com voz fraca, para os outros lobos. Todos eles se entreolharam. O rato pensou que estava perdido, mas de repente, um deles gritou: "Boa noite, mestre!"
E então aconteceu. Todos os lobos uivaram, felizes, e juntos, para a Lua, que brilhava enorme no céu. O som era tão bonito que Sirius se sentiu tentado a uivar também, mesmo fazendo papel de idiota. Era um som melancólico, mas que ressoava com felicidade. Como se todos os lobos estivessem festejando algo invisível. Uma alegria secreta.
A noite a partir daí se tornou menos tensa e mais agradável. Sirius brincou como há tempos não brincava. Se sentiu como um filhote de lobo, um cachorrinho pronto para se divertir e aprender a caçar. Todos os animais tinham um enorme respeito por ele, mas era algo sadio. Uma coisa boa, como um elogio. Era muito bom fazer parte, ainda que por uma noite, da Alcatéia. Todos participavam da brincadeira: Adultos, filhotes, e até mesmo alguns idosos, que corriam e pulavam como se fossem jovens novamente. A noite alegre passou muito rápido.
Logo era a hora do repouso. Era um costume antigo todos os lobos se deitarem à frente daquela grande pedra, que lembrava uma espécie de palanque, ou palco, ao rato, e contarem antigas lendas de sua tribo, antes de se retirarem para as grutas em que dormiam. Os anciãos mais velhos do bando subiam na pedra e recitavam a história de seu povo. Às vezes, um novo membro do bando era anunciado, como quando se percebia que um filhote havia se tornado adulto.
Novamente, todos participavam. Sirius logo percebeu o tipo de união que aqueles animais mantinham entre si. Tudo estava interligado e todos eram respeitados como iguais. Os lobos dividiam tudo o que possuíam e a comunidade era pacífica. Todos os membros eram importantes; Os filhotes, como fonte de sangue novo para o bando, e a nova geração; Os adultos, por serem o núcleo da Alcatéia, mantendo tudo o que possuíam em ordem; E os idosos, que preservavam a história daquele povo, mantendo todos unidos. Sirius se sentia honrado de fazer parte daquela tribo.
Antes da Cerimônia das Lendas, o jovem rato resolveu ir ver como estava Twin. A gruta em que o amigo estava sendo tratado era um pouco afastada. Adentrando o lugar, percebeu que era muito bonito. As paredes eram de cristal, e refletiam as cores do arco-íris. Twinsanity estava deitado numa confortável cama de palha e folhas em um canto. Uma loba cuidava de seus machucados com uma mistura de ervas. Eles estavam limpos e pareciam bem melhores agora. Vários já tinham se fechado. O rato ainda estava inconsciente.
"Ele vai ficar bem?" Perguntou Sirius, preocupado.
"Mas é claro" Respondeu a loba, tranquila. "Essa solução de extrato de macadâmia e camomila sempre funciona."
"Ah..." Sirius resolveu sair logo, antes que a loba começasse um discurso sobre o remédio.
Chegando ao Grande Altar, como os lobos chamavam a pedra-palco, viram que quase todos estavam prontos. Maya estava deitada a um lado, enquanto os Grandes Anciões subiam na pedra, com passos lentos e levemente mancos. Ela fez uma respeitosa reverência e se retirou, indo se colocar entre os outros lobos. Um dos anciãos, que era cinzento e parecia ser o mais idoso, se sentou em frente a todos, no ponto mais alto do Grande Altar. Ele encarou a todos e começou a contar.
"Era uma época de guerra e destruição. Três espécies lutavam pelo poder. Os lobos, os humanos, e os ratos.
A nossa espécie não estava em uma boa posição. Estávamos perdendo para os humanos e quase sendo dominados pelos ratos.
Foram anos difíceis.
Até a chegada dos Espíritos. Eles eram muito puros e não tinham preferências, mas nossa espécie sempre foi muito querida por eles. Os Indomáveis se transformavam em lobos, em sua forma terrena."
O Grande Ancião foi interrompido, de repente.
Um rato corria, desesperado, gritando.
Sirius bateu com a pata na própria testa.
O rato era Twin.
A Cerimônia
Sirius se levantou, exasperado. "Droga" pensou ele. O rato andou até Twinsanity.
- TWIN, SEU IDIOTA, PÁRA AGORA! ESTÁ TUDO BEM.
Twin o encarou, confuso.
- TUDO BEM? Como assim está "TUDO BEM"? Estamos no meio de uma colônia...
- Alcatéia... -Sirius corrigiu.
- ALCATÉIA, QUE SEJA! Estamos no meio de uma Alcatéia, CHEIA DE LOBOS! Como pode estar TUDO BEM?
- Escuta, se acalme agora ou vou ser obrigado a mandar eles arrancarem seus intestinos.
Twin imediatamente se calou. Sirius contou tudo, calmamente, desde que conhecera BlackJack. O amigo ficou em silêncio por muito tempo. Enfim, encarou Sirius e disse, pensativo:
- Cara, essa é a história mais maluca que eu já ouvi.
Sirius riu. Em seguida o apresentou aos lobos, que o acolheram, felizes.
A contação de lendas adentrou a noite. Sirius e Twin dormiram juntamente com BlackJack numa gruta humilde, mas muito bem-cuidada e limpa. De manhã, foram acordados pelo lobo negro.
"Senhor?" Perguntou ele. "Acorde, vamos! Há algo que queremos fazer antes de irem."
"Okay" Sirius respondeu, sonolento.
Twin foi um pouco mais difícil de acordar.
- Twinsanity, acorda! ACORDA, BELA ADORMECIDA! -Disse Sirius, chacoalhando-o. Porém, não adiantou muita coisa.
"Caramba, senhor, tem certeza de que ele não foi picado por aquelas moscas do sono?" Perguntou BlackJack, alarmado.
"Não, pode ter certeza disso. Bem que o Quiqui dizia que esse animal dorme feito uma pedra."
Então, olhando para o lobo, teve uma idéia.
"Traga um pouco de água, por favor, BlackJack." Disse o rato.
"Sim, senhor" Respondeu o lobo, divertido.
Logo ele estava de volta, com um pequeno balde feito de coco nos dentes. Sirius pegou um pouco de água com as patas e jogou no rosto do amigo.
- GAAAH! -Gritou Twin, acordando imediatamente.
- Acordou, Bela adormecida? -Perguntou Sirius, rindo, e piscando sutilmente para BlackJack. -Vamos embora! Os lobos querem nos ver antes de irmos.
Relutante, Twin saiu da caverna aquecida para o frio da manhã. Estava nevando. Os flocos brancos caíam suavemente sobre o chão já coberto de neve, e recobriam o pêlo dos lobos. O branco ressaltava sobre o negro do pêlo de BlackJack, que parecia não se importar com o frio.
Todos os lobos estavam novamente reunidos em torno do Grande Altar. Maya levou Sirius para uma gruta próxima à Pedra. Twin e BlackJack se misturaram junto aos outros lobos. Na caverna, a loba passou uma tinta azul no rosto e no corpo do jovem rato.
"O que é isso, Maya?" Sirius perguntou, nervoso.
Maya riu, encarando-o como se fosse apenas um pequeno filhotinho, que brincava na relva e mostrava as garras pela primeira vez.
"Hoje será a sua cerimônia de aceitação, querido." Disse ela, risonha. "Você se tornará o mais novo membro da tribo!"
Sirius se sentiu feliz, mas cada vez mais nervoso.
O rato e Maya escalaram a pedra agilmente, se colocando, novamente, na frente de todo o bando. A loba encarou o jovem, os olhos azuis faiscando na manhã. Então se virou para o grupo.
"Este jovem, o Indomável, agora está oficialmente fazendo parte do nosso bando. Salve, Sirius!"
Todos os duzentos lobos uivaram.
Sirius não pensou duas vezes.
Ele uivou também.
O Estábulo número 1
BlackJack se encarregou de levar os dois amigos para suas respectivas cabanas. Sirius ficou absolutamente encantado de se montar nas costas do esplendoroso animal. Ele corria mais rápido do que qualquer outro bicho que já haviam visto, e os ratos chegaram aos chalés num átimo. Sirius entrou e olhou o relógio, na cômoda: Seis horas da manhã. Ele tinha uma hora de sono ainda. Naquele dia, não havia aulas antes do café da manhã.
O rato se jogou no seu beliche e se lembrou da festa... Houvera um grande banquete. Mais brincadeiras... Fora uma bela noite. Mas algo ainda o perturbava. Quem, ou o quê, machucara Twin? O rato não soubera responder essa pergunta. Agora, estava andando de muletas, improvisadas, mas logo as tiraria. Não eram ferimentos profundos nem nada, mas o ser que os cometera estava certamente pretendendo causar muita dor. Imerso em seus pensamentos, o rato dormiu sem perceber.
Ventava muito quando Sirius chegou pro café da manhã. Todos estavam lá -menos Leon- e o cumprimentaram alegremente. Hoje teriam a primeira aula de Trato às Montarias, dada por Koburo, como um prólogo do que aprenderiam dali a alguns dias, no Templo das Montanhas. Ninguém parecera perceber que Sirius e Twin haviam sumido durante a noite, mas os dois ratos se entreolharam, divertidos. Os ratos devoraram o café rapidamente, e correram para a aula, que iria ser no campo de treinamento mais próximo dos estábulos.
Os amigos foram quase os últimos. O professor já estava ali e todos os alunos também. O grupo de Sirius localizou Fleur num canto e então sentaram o mais longe possível dela. Koburo começou a falar.
- Olá, alunos. -Cumprimentou-os o professor.- Sejam bem vindos à Aula de Trato das Montarias. Essa aula será extremamente importante na sua vida como Cavaleiros do Queijo. Aqui, daremos um início a seu treinamento com outros seres. Ensinaremos não a montar, e sim a dominar as feras que se escondem nos caminhos que vocês percorrerão. Agora vamos entrar no estábulo e começar com coisas simples, como as aranhas. Alguma pergunta?
Fleur levantou a mão, risonha. O professor a encarou.
- O que foi, Fleur? -Perguntou ele, calmamente.
- Professor- Disse a rata, em sua voz irritante, se esforçando para não rir.- Será que os animais se importam quando... ahn... Delinquentes juvenis chegam perto deles? -Ela olhou para Sirius e Quiqui, com um braço atrás de si fazendo um gesto obsceno para eles.
Sirius rosnou. Respirando fundo, tentou evitar que suas mãos se mexessem para criar um cannon enorme e negro no meio da aula. "Acalme-se." Pensou ele, consigo mesmo. A sala inteira olhou de seu grupo para Fleur antes de começarem a rir histericamente. Quiqui também grunhiu. Ele já tinha muito no que pensar. Droga, eles estudariam aranhas. O rato nem conseguia se imaginar chegando perto de uma destas criaturas. Como faria para seu medo mais secreto passar despercebido por toda a sala? Apenas o grupo sabia de seu medo. O rato estremeceu, pensando em aranhas grandes e peludas.
O professor mandou todos calarem a boca, ou soltaria uma vaca descontrolada em cima da turma, o que fez todos se calarem inimaginavelmente rápido. E então todos os ratos adentraram o Estábulo número 1. Era um lugar que ressoava com vida. Aranhas, escopiões e outros animais se espalhavam pelo local. Koburo disse para os alunos se espalharem e verem que tipo de animal se adaptava melhor a eles. Débora e Amanda foram para perto das borboletas. Os outros animais lhes davam arrepios. Débora se afastou um pouco da amiga. Logo, uma linda borboleta azul e preta pousou ao seu lado e permitiu que ela a acariciasse. Amanda foi, feliz, para perto da amiga, com uma borboleta amarela empoleirada em seu braço esquerdo como se fosse um gavião.
Sirius, Cheese e Twin foram para perto dos escorpiões. Sirius sempre apreciara aquelas criaturas, fortes e ágeis. Além disso, apesar de parecerem calmas, tinham um veneno sempre pronto para ser expelido, o que lembrava o rato de si mesmo. Cheese abaixou-se e um escorpião preto e vermelho subiu em seu ombro.
- Aí, galera, parece que ele gostou de mim- Disse o rato, rindo. Então o animal levantou bem a cauda e abaixou-a, imediatamente picando o ombro do rato. -AARAAAAGAHAAAHH! -Gritou Cheese, com a dor.
Sirius riu. Ele sabia que nenhum dos bichos ali era venenoso.
Enquanto isso, Quiquicp enfrentava uma situação bem diferente. Uma aranha branca avançava para ele passo-ante-passo. O rato estava paralisado. A aranha colocou uma das pernas extralongas a um centímetro de Quip.
Felizmente, o jovem foi salvo pelo professor Koburo, que percebeu seu medo. Vendo o rubor tomar conta do rosto do aluno, o jovem professor prometeu que não contaria para ninguém, o que abriu um sorriso no rosto do rato, e o levou para ver as abelhas, juntamente com Dehco e Thefernand. Quiqui se interessou por esses animais. Thefernand estava com um zangão no ombro, e parecia orgulhoso de si mesmo. Dehco não parecia muito confortável em meio às abelhas, então foi para perto dos besouros, onde Sirius se encontrava. Ele se lembrou de que havia ouvido falar dele no dia anterior.
- Entãão... Você é aquele delinquente de que a Fleur estava falando?
Sirius encarou o rato, raivoso. Será que era assim que todos o estavam vendo?
O rato sucumbiu à raiva e invocou um enorme cannon no alto.
Em meio à agitação, ninguém percebia um rato muito estranho apoiado nas vigas do teto do Estábulo.
O aviso
Todos os alunos gritaram quando viram o cannon, uma massa escura e pesada flutuando acima de Sirius. O rato então percebeu o que estava fazendo e a bola negra se extinguiu em fiapinhos de fumaça. Um silêncio desconfortável se seguiu. Então o professor Koburo chamou Sirius e pediu que o acompanhasse. O rato sabia que estava ferrado.
Os dois foram para dentro da Academia e então o professor tocou numa porta de carvalho gigantesca. Sirius a reconheceu como a entrada da sala do Comandante Scoutt. "Aaah, não!" Pensou o rato, nervoso, enquanto uma voz dizia que podiam entrar.
O Comandante ouviu sua história calmamente. E então dispensou o professor e se virou para Sirius.
Foi pior do que ele pensava. Scoutt gritou, gritou, gritou e gritou mais um pouco. De repente, o jovem percebia como Débora se sentia.
- VOCÊ TEM NOÇÃO DO QUE FEZ? PODERIA TER MATADO ALGUÉM!
Enfim o Comandante se acalmou e dispensou Sirius, não antes de ter enchido seus ouvidos com um sermão que parecia não acabar nunca.
Havia dobradinha de Trato das montarias naquele dia, então ainda estava tendo aula. Quase todos já tinham escolhido seus insetos agora. Koburo ajudava quem estava confuso ainda. Quando Sirius adentrou a sala, todas as cabeças se viraram para ele e as conversas cessaram. O rato se sentiu o próprio Osama Bin Laden. Conforme andava, ouvia sussurros sobre ele. Tentando ignorar a tudo isso, caminhou lentamente até onde estavam Nedlemouse e Thefernand. Os dois ainda não tinham escolhido ainda, e estavam na parte das libélulas. Sirius logo se interessou por aqueles animais. Os insetos pareciam voar sem sair do lugar, encantando o rato. Haviam formigas num balde, e, quando o rato jogou uma delas para dentro, uma libélula a pegou e devorou no ar, com uma acrobacia. Em seguida, veio até ele e se sentou em seu ombro. Thefernand acabou ficando com um gafanhoto e Nedle, com um louva-a-deus. Sirius e a sua libélula foram até o local onde todos os alunos se sentaram, lado a lado com seus insetos, e se sentou perto dos amigos. Débora e Amanda haviam pegado uma borboleta cada uma, Quiqui ficara com uma centopéia, Cheese (por incrível que pareça) ficara com o escorpião safado e Twin agarrara uma abelha listrada de amarelo e preto. O professor Koburo se certificou de que todos haviam conseguido um inseto e passou a dar instruções.
- Meus parabéns, alunos! -Disse ele.- Agora que conseguiram os animais, é chegada a hora de usá-los. Os insetos, em sua maioria, são animais de caça ou de busca. Vocês podem treiná-los para encontrar um determinado tipo de plantas ou outros animais. Ou mesmo para caçar para vocês! Os insetos daqui são pequeninos demais para este tipo de coisa, mas podemos usá-los para encontrar formigas, que servirão de alimento para outros insetos. Vamos fazer um exercício. Quero que digam a seus insetos que cacem formigas na floresta agora mesmo. Quem conseguir pegar mais formigas irá ganhar um prêmio, ok? Quando eu contar três, digam a eles: VÁ! Em alto em bom som, entenderam? Têm que fazer o bicho SABER que vocês são os líderes. Prontos? Um, dois, TRÊS!
Cinquenta vozes alegres gritaram "VÁ", enchendo a manhã de som. Sirius gritou e lançou a sua libélula azulada com o braço. O animal levantou vôo graciosamente, adentrando a floresta em segundos.
Cheese teve mais problemas. Seu escorpião não parecia querer se mexer, se recusando até mesmo de sair do ombro do rato. O professor percebeu a dificuldade do aluno e, delicadamente, tirou o escorpião do ombro dele (segurando-o de forma que o animal não o picasse) e o colocou no chão, gritando "VÁ!" com tanta superioridade que até Sirius se sentiu tentado a se levantar e ir caçar formigas. O animal imediatamente saiu correndo rumo à Floresta.
Foi uma manhã agradável. Os insetos iam e voltavam, largando formigas mortas ao pé dos donos, que os acariciavam, alegres. A libélula de Sirius não fez mal no treino, e logo um montinho de formigas se levantava aos pés do dono. No final, quando Koburo apitou, todos contaram as formigas, ansiosos. O besouro de Dehco foi o vencedor. O rato ganhou uma enorme barra de chocolate do professor. Em seguida, todos pegaram carrinhos de mão e levaram as formigas até o Estábulo, depositando-as numa pilha. Isto é, todos, exceto Fleur. A rata havia pego uma joaninha pink e nem se dera ao trabalho de pegar um carrinho. O professor pareceu avaliar situação, mas por fim nada disse, e os alunos foram dispensados.
Todos passaram nos chalés antes de ir para o almoço. Depois, Sirius resolveu fazer uma visita a Leon, no hospital. O amigo ficou muito feliz em vê-lo, o que melhorou seu dia. Sirius se viu falando de tudo o que acontecera com ele até aquele momento para Leon. O rato ficou pensativo por um momento, mas depois apenas riu, amargamente. Quando Sirius perguntou o motivo, a resposta foi o grito de Cheese, durante a aula. Mas não pareceu convincente.
- Eu espero que possa sair desse lugar até amanhã- Disse Leon, carrancudo. O hospital estava o matando.
- Qual a pior parte? -Perguntou Sirius, hesitante. -Essa agulha idiota, espetada no seu braço o dia todo? As injeções? Ou aquela enfermeira -Ele abaixou a voz- Com cara de monstra?
Leon riu novamente.
- O pior deve ser a comida. Cruzes, se é que pode chamar isso de comida. Eu quase vomito todas as vezes que como. E depois tenho que tomar mais remédios, porque eles acham que eu não estou me alimentando direito.
- Qual foi o diagnóstico?
- Ah, eu tive duas costelas e um dedo quebrados. E um traumatismo craniano. -Leon fez uma careta. -Mas não sinto nada. Devo estar mesmo parecendo com uma múmia, pois nem sinto os machucados, de tantas bandagens.
Os dois ratos riram. Então a enfermeira apareceu, com o jantar de Leon. Aquilo era mesmo um horror, parecia uma pasta amarela com pedaços de cruz-credo. Leon fez uma encenação de vômito por trás dela. A enfermeira mandou Sirius par fora, então ele se despediu e correu para o refeitório. Estava atrasado para o almoço e hoje o monge iria dizer algo importante. Se sentou, afobado, em sua mesa. Todos já estavam lá e a comida já havia sido servida. Com um pouco de pena de Leon, ele devorou grandes porções e terminou rapidamente.
E o monge subiu ao púlpito. Encarando todos, começou a falar.
- Olá, meus jovens. Eu não quero incomodá-los por muito tempo. Vou ser rápido, para não enchê-los com o papo furado de um velho. -Houve quem risse- A excursão para o Templo foi adiantada! -Todos os alunos vibraram- Sim, sim! Será amanhã, de manhã. Preparem suas coisas. Nós a adiantamos, pois queremos que vocês participem do Duelo que ocorre no Templo das Montanhas todos os anos. O Duelo é um evento monumental que envolve diversas atividades, como a corrida, o salto, e, principalmente, a batalha. Tenho certeza de que vão gostar. Peço que levem uma barraca, um cantil e objetos pessoais. Não levem muitas coisas. Estão dispensados.
E, com isso, o velho monge terminou seu aviso, deixando todos animados para o dia seguinte.
Arrumando as malas
O resto do dia passou muito rápido, a agitação dos ratos fazendo o ponteiro do relógio se apressar. O jantar teve uma bela surpresa: Leon voltara do hospital, e foi recebido alegremente pelos amigos. Ele ainda estava com ataduras no tórax e andava com muletas, mas, no todo, estava ótimo. O monge foi visto almoçando na Grande Mesa, juntamente com o Comandante Scoutt. Os professores Soren e Koburo comeram juntos numa mesa próxima a eles. Sirius não deixou de notar como eles eram jovens. Talvez tivessem dois ou três anos a mais do que ele, o que o fez imaginar a quanto tempo estavam na Academia. Então, a conversa na mesa o atraiu e ele se voltou para os amigos.
- Hey, o que vocês vão levar para a Excursão? -Perguntou Cheese, animado.
- Sei lá -Disseram Débora e Sirius juntos. Depois riram, levemente envergonhados.
- Eu não sei o que vou levar ainda -Disse Sirius, pensativo. -Não tenho muita coisa; Só o que eles pediram, acho.
- Uma barraca, um cantil e coisas pessoais -Comentou Amanda, lembrando-se.
- Eu vou portare un canivete, e umas roupas, acho -Quiqui contava seus pertences.
- Suponho que tenhamos que levar alguma arma, mesmo, como um canivete, ou uma faca. Vou levar minha adaga. -Disse Leon, dando início a uma nova discussão sobre armas entre os meninos. Débora e Amanda saíram da mesa, satisfeitas com a comida, e, ao passarem pela porta do refeitório, notaram Twin num lado, conversando com alguém invisível. "Que estranho" pensou Débora, indo de encontro ao rato. Amanda a seguiu.
- Eu não quero mais isso! -Dizia Twin, assustado e nervoso. -Saia de perto de mim.
As ratas sentiram um calafrio quando ouviram uma voz tenebrosa responder, na noite. A voz era fria e gélida e soava como o raspar de uma faca na pedra.
- NÃO ME IMPORTO COM O QUE VOCÊ QUER! OBEDEÇA AO SEU MESTREEE!
A voz fez Débora se lembrar de seu antigo mestre. O que era aquilo? Ela achava que Sirius o tinha matado algumas semanas antes, no conflito que chamavam de Guerra do Bosque.
Mais assustador ainda foi quando, do nada, Twin caiu no chão, inerte. Ele ficou assim por alguns minutos, e depois se levantou e saiu andando normalmente. "Senhoras" Disse o rato, ao passar pelas garotas.
Aquela noite estava mesmo muito estranha.
Enquanto isso, Sirius e Leon estavam na Alcatéia. Sirius estava avisando aos lobos que se ausentaria por algum tempo, e aproveitou a ocasião para apresentar Leon às criaturas. O amigo apreciou enormemente os lobos, se identificando imediatamente com um amigo de BlackJack, de pêlo marrom avermelhado e de nome Kali. Houve um banquete, com carnes de veados silvestres e frutas deliciosas, e então os amigos foram de volta à cabana, levados por BlackJack e Kali.
A noite foi tumultuada e repleta de sonhos estranhos.
Sirius sonhou que estava numa clareira, semelhante à da Guerra do Bosque. Lá, dois lobos lutavam ferozmente, arrancando pedaços um do outro. Com um susto, ele reconheceu BlackJack e Kali. Leon apareceu ao seu lado. O amigo falava com voz estranha. "FALE COM O SÁBIO NAS MONTAAANHAS!" Disse ele. "VOCÊ PRECISA SABER! PRECISA SABEEEEEEEEEER!"
O rato acordou, suando, na manhã ensolarada. Os raios de sol entravam pela janela, incidindo em seu rosto. Leon roncava, como de costume. As muletas encostadas na cama produziam sombras estranhas com a luz do sol.
Sirius de repente se lembrou de que precisava ter arrumado sua mala no dia anterior. Batendo na testa, desceu do beliche e pegou sua velha mala debaixo da cama, abrindo apalermadamente as gavetas da cômoda e jogando roupas aleatórias nela. Depois pegou seu cantil e uma barraca antiga. Leon acordou caindo da da cama e logo estava ao seu lado, desesperadamente jogando roupas a esmo em sua própria mala marrom, de couro. Os dois fizeram força para conseguir fechar as malas, meio abarrotadas, e depois riram. E então se apressaram para tomar o café da manhã. Estavam atrasados; Já eram quase 6 da manhã e o café hoje começaria antes.
Ao chegarem na mesa, perceberam Nedle e Thefernand lá também.
- Opa. Este lugar já está ficando abarrotado -Brincou Leon, se sentando no próprio lugar. Sirius riu, sentando-se também.
- Quem mandou vocês acordarem tarde? -Ralhou Débora, de brincadeira. - Esses dois iriam se sentar na mesa da princesa- Ela apontou para Fleur, que almoçava com Dehco, do outro lado do refeitório- Se não tivéssemos salvado eles. Coitado do Dehco.
Todos riram, observando o próprio rato ter que cortar as unhas de Fleur e serví-la com sucos. Ele não iria demorar muito para trocar de mesa.
- Todos estão prontos? -Perguntou Twin, observando as malas aos pés de todos os amigos.
- Mas é claro! -Respondeu Amanda. -Eu mesma já tinha arrumado minha mala anteontem. Será que teve algum idiota que deixou tudo pra hoje de manhã?
Os amigos riram. Sirius e Leon também, embora envergonhados. Então a conversa mudou de rumo.
- Vocês viram? -Perguntou Quiqui, ansioso.- O monge disse que vamos aprender a montar em aves!
- Wow. Eu sempre quis montar algo que não aquelas cobras minúsculas do Estábulo -Disse Nedle, invejoso. -O que será que vamos aprender lá no Templo?
- Lembrando que haverá o Duelo também. -Thefernand entrara na conversa.- Sabem que vamos competir contra um povo que luta magnificamente. E além do mais nem começamos os duelos de espada.
- Claro, mas eu nem sei se vou me inscrever. -Cheese falou, nervoso.
- Ah, fala sério, amor! -Exclamou Amanda- Você ganharia, com certeza.
E o coro de "Com quem será?" Encheu a mesa.
O Acampamento
Antes de saírem, o Comandante ordenou que ficassem sempre em grupos, pois o caminho era perigoso e poderiam ser atacados por lobos. -O grupo de Sirius riu. Todos os outros, inclusive o Comandante, olharam para eles sem entender. O Comandante tossiu, para chamar a atenção, continuando.
- Como vocês sabem, o Templo fica a dois dias daqui. A escalada da Montanha Sagrada representa um dia a mais na viagem. Por sorte, alguns de nossos alunos mais talentosos no alpinismo vão nos ajudar. Temos equipamentos para todos. Espero não haver acidentes. Lembro-os novamente de que tudo isso é para se divertirem um pouco, ao mesmo tempo em que vão treinar e se exercitar. O Duelo ocorrerá duas semanas depois que chegarmos lá. Estão prontos?
Um coro de "Sim" se ergueu dos Cavaleiros, seguido de vivas. A viagem começara.
Charlie miou, tristonho, amarrado no Estábulo. Leon se despedira dele algumas horas antes, e os professores que ficassem na Academia iriam alimentá-lo. O seu pêlo estava crescendo assustadoramente rápido, de modo a estar de tamanho normal agora. Ele foi até a porta do Estábulo, o máximo que conseguia ir sem sentir o puxão das cordas no pescoço, e viu o dono desaparecendo ao longe. “Meow” Fez o gato, pensando no dono.
A primeira noite foi passada numa clareira de uma floresta desconhecida. Koburo e Soren haviam ido junto na viagem, como monitores. Segundo eles, aquela floresta era conhecida como “Floresta Negra” por causa dos animais estranhos que viviam por ali e pelo fato de as árvores crescerem bastante juntas, impedindo a entrada do sol. No fim da tarde, enquanto o céu coloria-se de vermelho e laranja, ali parecia ser de noite. A floresta era realmente sombria.
Uma fogueira foi acesa na clareira, iluminando tudo. O grupo de Sirius começou a montar as barracas; Uma para os meninos e outra para as garotas. Thefernand e Nedle foram convidados a ficarem junto com eles, mas tinham seu próprio grupo. Louizx ficara com eles. Ele era um grande alpinista, um dos que ajudaria na difícil escalada da montanha. Fleur estava numa MEGA-barraca, de tamanho descomunal, se erguendo com torrinhas e janelas com peitoril florido. Dehco carregara toda a sua bagagem. Pelo que os amigos observavam, o rato estava apaixonado por Fleur, que infelizmente não nutria o mesmo sentimento. Mesmo assim, se aproveitava dele para fazê-lo trabalhar para ela. Além de Dehco, havia em seu grupo um rato chamado Recordista, um antigo aluno da Academia. Ele também era um dos alpinistas profissionais.
Houve muitos risos na hora da montagem das barracas. Leon e Cheese tentaram montar a estrutura, mas só conseguiram quebrar algumas partes dela, que foram consertadas rapidamente por Twin e Sirius. Amanda e Débora liam o manual, concentradas, enquanto os meninos tentavam fazer tudo sozinhos, às pressas. Uma tenda foi armada rapidamente por eles, mas ficou tão estranha e torta, que, rindo, o grupo a desfez. Seguindo as instruções das garotas, conseguiram montar uma barraca azul bonita para eles. A montagem da outra barraca foi bem mais simples e os amigos a concluíram sem dificuldade.
Chegada era a hora do jantar. O Comandante ordenou que os grupos fossem em busca de comida na floresta ao redor. Peixes, frutas, cocos, pequenas aves, tudo servia. Os amigos foram em busca de alimento.
Twin, surpreendentemente, era um ótimo caçador. Avistando um grupo de codornas, ele fez os amigos cercarem-nas, pelos lados, sem que percebessem. Sirius e Leon, em cima de uma árvore, podiam ver Cheese e Débora escondidos em arbustos à frente e Twin e Amanda à direita, sob uma grama alta. O grupo observava Twin atentamente, esperando pelo sinal.
Finalmente, o rato levantou a pata no ar, atento. Dois dedos para cima. Esse era o alerta. Cheese e Débora pularam, assustando os pássaros, que foram direto para Sirius e Leon. Esses, por sua vez, pularam sobre a codorna mais fraca, imobilizando-a. Twin e Amanda então conseguiram matá-la, sem dor, com um espinho mergulhado em veneno. A codorna morreu como se adormecesse.
De volta à Grande Fogueira, os amigos perceberam que poucos grupos haviam tido sucesso na expedição de caça; A codorna foi bem recebida e o grupo de Sirius foi parabenizado. Louizx era um bom cozinheiro, e todos o ajudaram a depenar e desossar a codorna, colocando-a sobre uma grande folha de palmeira, para então envolvê-la em óleo retirado de alguns peixes. Ela foi espetada em um graveto de metal, fincado sobre a fogueira. Foi um jantar delicioso.
Fleur normalmente dispensou o que chamou de “Comida Animalesca” e comeu um manjar trazido por Dehco. Então houve uma cantoria em volta da fogueira, com clássicos do rock e do pop e músicas dos ratos, como "Tudo começou com um Wall Jump" e "My first first". Então marshmallows trazidos por Nedlemouse foram distribuídos por todos, espetados em gravetos e assados na fogueira.
Todos estavam se divertindo demais para notar a forma escura e esguia atrás deles, informando a sua posição para alguém invisível.
A Bomba
A noite estava calma e tranqüila, com todos os grupos dormindo em suas barracas. De repente, um estampido terrível acorda todos.
O Comandante Scoutt foi o último a sair da barraca. Neste momento, todos estavam fora das barracas, onde parecia ter caído um meteoro. Uma enorme cratera se abria no lugar onde deveria estar a fogueira. Haviam dez feridos pelos estilhaços de alguma coisa que explodira ali.
O Comandante não pensou duas vezes.
- QUEM FOI O VERME IDIOTA E SEM CÉREBRO QUE FEZ ISSO? – Gritou o velho mestre. Ninguém se mexeu. – Se ninguém disser, serei obrigado a interrogar UM A UM - Tornou Scoutt, com uma fúria maligna. Novamente ninguém se mexeu, e todos se encaravam, apreensivos, tentando imaginar quem seria capaz de fazer algo como aquela cratera, certamente uma marca de explosão por bombas. Irritadíssimo, o Comandante mandou ficarem em fila em frente a sua cabana. O interrogatório começara.
Dehco foi o primeiro a entrar na cabana. Estava tudo escuro e duas mãos misteriosas o conduziram a uma cadeira, perto da qual havia uma mesa. Suas patas foram algemadas atrás da cadeira e uma luz muito forte o cegou. Se recuperando, viu o Comandante atrás da mesa, sentado em outra cadeira.
- O que é isso? –Exclamou o rato, apreensivo. –Nunca vi tamanho ultraje e...
- SOU EU QUE FAÇO AS PERGUNTAS! –Gritou Scoutt, com uma fúria terrorista. –Vamos começar. Espero sinceramente que você coopere. ONDE VOCÊ ESTAVA NA HORA DO INCIDENTE?
- Eu... –Respondeu Dehco, indeciso.
- ONDE VOCÊ ESTAVA, INÚTIL? –Gritou o Comandante.
- Estava na cabana de Fleur! –Exclamou o rato, assustado.
- Hum. –Disse o Comandante, friamente. –Conte-me mais.
O rato começou sua história.
“Eu estava com Fleur desde que saímos da Academia. Levei sua mochila e suas coisas. Recordista ma ajudou nisso. Então, nesta noite, estávamos dormindo no pior quarto da mega-barraca dela. Tinha dois colchões e...
- VÁ DIRETO AO PONTO, VERME! –Interrompeu Scoutt, nervoso.
- Sim senhor. Nós ouvimos um barulho horrível do lado de fora e Fleur resmungou para que saíssemos. Então, vimos uma enorme cratera e tinha alguém saindo para a floresta.
- Alguém do nosso grupo? –Perguntou o Comandante, interessado.
- Não;-Respondeu o rato – Usava uma roupa preta e máscara. Só o que vimos foi isso, senhor.
- Hum. –Resmungou o velho mestre. –Dispensado!
A fila andou durante toda a noite. Vários ratos foram interrogados, e os que saíam eram proibidos de contar o que havia acontecido lá dentro. Enfim foi a vez de Nedle. Ele entrou e rapidamente foi algemado como os outros. Do outro lado da luz forte, podia ver (e ouvir) o Comandante.
- Mestre? –Perguntou ele, apreensivo.
- SILÊNCIO, VERME. –Respondeu o Comandante Scoutt, bravo. –Onde você estava durante o incidente?
- Na minha cabana, dormindo junto com Louizx e o Thefernand. –O rato respondeu, sem papas na língua. –Por sinal, poderia desligar a luz? Está muito forte.
- CALE A BOCA. SÓ EU DETERMINO AS COISAS POR AQUI. –Gritou Scoutt. - Quero saber com mais detalhes.
“Bem, brigamos antes de nos deitarmos, porque eu queria chamar o Recordista para ficar junto com a gente, mas o Louizx disse que ele era da Team Fleur, e o Thefernand também não gostava dele por algum motivo, e então eu fui deitar bravo, mas ninguém queria que eu ficasse assim e conversamos, mas na verdade isso não adiantou nada, e nós todos queríamos na verdade era que...”
- Droga, moleque! –Exclamou o Comandante. –Dispensado. Não entendo uma palavra sequer do que você diz. Respire antes de falar!
Nedle saiu da barraca atordoado.
Logo após era a vez de Louizx. O mesmo procedimento que houvera com os outros aconteceu também com ele.
- ONDE VOCÊ ESTAVA NA HORA DO INCIDENTE?
- Eu estava na minha barraca, dormindo! –Respondeu o rato, prontamente. Já havia passado por interrogatórios bem piores.
- É O QUE TODOS DIZEM!- Tornou o Comandante. – QUERO SABER A VERDADE!
- É essa a verdade, idiota. –Respondeu Louizx, irritado, e recebeu um tabefe do Comandante.
- RESPEITE SEUS SUPERIORES! –Gritou ele. –ONDE ESTÁ SUA HISTÓRIA?
- Tá. Eu conto pra você. –Respondeu Louizx, com um dente a menos.
“Eu tinha acabado de brigar com o Ned quando ouvi alguém se mexendo perto da cabana. Saí, para verificar, deixando os outros dormindo. Era uma mulher. Tinha o rosto encoberto por uma máscara negra. Quando me viu, olhou para mim e seus olhos penetrantes mexeram com o meu cérebro. Eu dormi. Acordei com o som da multidão.”
- Okay – Disse o comandante, com voz áspera. –Dispensado!
O próximo na sucessão de ratos interrogados era Thefernand. Para agilizar o procedimento, Twin foi com ele. O Comandante os algemou e repetiu as mesmas perguntas.
Twin foi o primeiro a contar sua história.
“Bem, eu estava lá, dormindo, e vi o Sirius e o Leon discutindo alguma coisa, aos sussurros. Aí o Leon quase bateu no Sirius, mas pareceu parar no último instante. Eu voltei a dormir e quando acordei, com o barulho da explosão, fui um dos últimos a se levantar, porque achava que estava sonhando.”
Thefernand contou a própria história, sendo sincero.
“Eu saí da minha barraca, porque o clima de lá estava muito tenso. Ninguém percebeu, na verdade, o que me favoreceu. Então aconteceu uma sucessão de coisas estranhas:
Primeiro: Me dirigi à floresta, pensando numa moita de morangos silvestres que eu havia visto na excursão de caça, mas não estava sozinho. Havia alguém ali, falando com algo que parecia um comunicador de pulso.
Segunda: Ela percebeu a minha presença antes que eu percebesse a dela. Era uma rata esguia e de cabelos pretos, mas o rosto estava coberto por uma máscara. Ela apenas disse: “Bons Sonhos” e me apagou, olhando dentro dos meus olhos. Eu acordei mais tarde, com o barulho de algo explodindo. E o povo começou a sair das cabanas.”
O Comandante os dispensou. Ele não quis mais ouvir mais ninguém. Sirius, Leon, Débora, Amanda, Cheeseblazed e os outros se sentiram aliviados, mas a tensão do mestre só aumentava.
Ele já havia sobrevivido a muito. Tortura, abusos e coisas piores. O velho rato tocou seu braço esquerdo, feito de metal. Ele tirou a luva marrom que usava, simulando uma pele, e observou a mão robótica que se encontrava ali, no lugar da sua, pensativo. Aquilo parecia realmente curioso. E perigoso. Uma rata com um poder de adormecer outros. Isso indicava grande concentração mental. Um treinamento rigorosíssimo, talvez. “Hum...” Pensou o Comandante. Certamente havia sido ela que colocara a bomba na fogueira.
E, sem que ele percebesse, a inimiga o observava.
No ninho
No dia seguinte, todos acordaram muito cedo, como já estavam acostumados, para continuar a viagem. Não demorou muito para atingirem seu objetivo.
A Montanha Sagrada era absolutamente enorme, espantosamente gigantesca. O topo se cobria de gelo, e o Templo podia ser avistado numa saliência da pedra escura. Era uma longa subida. O Comandante encarou todos, um a um. Seu olhar já dizia tudo: Preparem-se.
Os grupos começaram a retirar os equipamentos das mochilas. Era tudo de segunda mão, o que tornava a escalada mais perigosa, mas, bem, eles já haviam sobrevivido a coisas piores. No grupo de Sirius, que estava em grande agitação, um ajudava o outro a se arrumar, colocando capacetes, equipamentos de escalada, cordas e outras parafernálias.
O Comandante foi o primeiro, dando o exemplo. Lentamente, todos os outros começaram a escalar também. Louizx, Recordista e os dois monitores Soren e Koburo ajudavam os iniciantes.
Sirius estava concentrado em seus pés. Sempre fora desajeitado, e temia que um movimento brusco fosse o motivo de sua morte. Ele olhou para baixo e se espantou com a altura. Um calafrio percorreu seu corpo. "NÃO olhe" Pensou ele, trêmulo. "Você consegue, vamos" O rato se esforçou para dar mais um passo, apoiando a pata dianteira numa rocha. Com um barulho terrível, a pedra se soltou, caindo para o infinito. Num momento de pânico, Sirius ficou pendurado apenas por uma das mãos. Os pés balançavam, inutilmente, abaixo.
Leon percebeu o perigo em que se encontrava o amigo. Acelerando a subida, encontrou-o quase tendo um ataque de pânico, uma única pata entre ele e a morte abaixo.
- Sirius? -Exclamou Leon, após ajudá-lo a se equilibrar.
- Eu...Não...Gosto...De...Alturas! -Disse o amigo, tremendo.
Leon riu. Os dois continuaram a subida juntos.
Acima deles, Soren e Koburo escalavam a toda velocidade.
- Bons tempos aqueles em que fazíamos isso todos os dias. -Disse Soren para o colega.
- Com certeza- Respondeu Kob, suado. -Depois que viramos professores não tivemos mais tempo.
- Na minha opinião, isso vale a pena.
Os ratos subiram a montanha agilmente, como gatos. O único à sua frente era o Comandante, que parecia ter a agilidade de um cabrito montês, pisando, apoiando-se, escalando, pulando. Ele era um exemplo.
Não demorou a escurecer; Não podiam continuar uma subida tão complicada à noite. O Comandante encontrou uma gruta na montanha, onde ficaram durante a noite. Era um lindo lugar, com um lago verde e uma moita de uma planta estranha. Os ratos fizeram a fogueira novamente e armaram suas barracas. Chegariam logo.
A expectativa dominava seus corpos e suas mentes.
O dia seguinte foi árduo em vários sentidos. A escalada parecia não cessar, e o Templo só parecia estar cada vez mais longe. Então, de repente, Louizx estacou aonde estava, vários metros acima dos outros. Ele desceu, com alguns pulos, e se dirigiu ao Comandante.
A expressão de fúria e terror do mestre espantou os Cavaleiros. Ele gritou, por cima do ombro.
- ÁGUIA AVISTADA A LESTE. FAÇAM SILÊNCIO, ESCALEM DEVAGAR E TENTEM DISFARÇAR SE TIVEREM ROUPAS OU COISAS CHAMATIVAS. NÃO CHAMEM A ATENÇÃO DE MODO ALGUM. AS ÁGUIAS SÃO PERSPICAZES E NÃO QUEREMOS QUE ELA NOS VEJA.
Um arrepio percorreu a espinha de Leon. Ele já havia tido sua cota de experiências com pássaros, e enfrentar mais um deles parecia mais do que poderia aguentar. Respirando fundo para acalmar-se, olhou para Sirius, ao seu lado. O amigo certamente não ficava a vontade ali em cima, nas montanhas. Era visível que ele se esforçava para não olhar para baixo, e seu corpo inteiro tremia. Mesmo assim, o rato tentou evitar fazer barulho ou emitir algum som. Um guincho muito alto ecoou pela montanha agora quase silenciosa. Era o pássaro. Os ratos subiram o mais rápido que puderam.
Eles realmente acharam que estavam seguros.
Foi muito rápido. Uma ventania terrível fez vários Cavaleiros perderem o equilíbrio e ficarem a ponto de cair para o infinito. Louiz, Recordista e os outros ajudavam, rapidamente. Mas ninguém percebeu o real motivo do vento até que uma enorme sombra negra os cobriu, e o guincho agudo da águia furou seus ouvidos sensíveis. Alguns ratos gritaram. O pássaro abriu as garras douradas, cujas unhas negras pareciam facas imensas, e investiu contra eles, agarrando os dois primeiros ratos que conseguiu, um com cada garra. E depois, ergueu vôo de novo, as asas vigorosas e escuras fazendo-a planar sem esforço em direção ao ninho, muito acima deles.
O clima era de terror e desespero, mas o Comandante acalmou-os suficientemente para conseguirem alcançar uma pequena gruta antes que alguém caísse da montanha. Lá, as cabeças foram contadas rapidamente, e depois foi feita uma chamada. Os ratos levados pelo pássaro foram descobertos.
Nedlemouse e Louizx.
Tainarak chorava copiosamente. Débora a consolava, em vão. Fleur estava encolhida num canto, em cima de uma toalha colorida, com Dehco bajulando-a novamente. Aquilo lembrava um piquenique, mas Sirius tinha outras preocupações além de se irritar com a rata petulante. Ele, Leon, Cheese, Twin, Quiqui, Amanda, Soren, Koburo e o Comandante tentavam criar um esquema para invadir o ninho da águia e salvar os amigos. Teriam que ser muito rápidos. As águias costumavam comer apenas a noite, e estavam quase no fim da tarde. Além disso, eram pássaros religiosos e dogmáticos. Gostavam de fazer rituais e rezas com a comida. Isso daria um tempo a mais para os amigos.
De certo modo, era um plano simples. Deveriam se posicionar numa formação alpha padrão, em que dois pares de membros eram posicionados pelos flancos e outros dois, posicionados ao norte e ao sul. Alguém deveria ser a isca; Atrair a atenção da águia, que, pelas penas mais pronunciadas na nuca e no pescoço, era fêmea, e dos seus prováveis filhotes, enquanto os outros se reposicionavam no ninho. Um par de sentinelas deveria se posicionar a leste e a oeste do ninho. Os outros deveriam trabalhar rapidamente para tirar os amigos daquele lugar, e os sentinelas sairiam por último, limpando os rastros.
De certa forma, era muito arriscado. Poderia terminar em morte. Mas era a única esperança real de salvar Ned e Louiz, então o plano foi colocado em ação rapidamente.
Enquanto a equipe de salvamento subia rapidamente a montanha, os dois ratos que haviam sido aprisionados refletiam sobre como sair dali.
Nedle observava a águia atentamente. Ela não era um animal irracional, como os corvos ou as aranhas e outros insetos. Parecia entender perfeitamente tudo o que ocorrera, e era mãe. O amor que ela dedicava a seus filhotes era incompreensível e ao mesmo tempo, incrivelmente inspirador. A ave se dedicava a cada um dos três bichinhos exclusivamente, com gentileza e amor. Ela parecia olhar para os ratos desculpando-se pelo que faria com eles. Aos poucos, os dois entendiam o porquê de sua captura.
Logo era a hora do jantar, no ninho. A ave os retirou da pequena prisão de galhos em que estavam, levando-os gentilmente com o bico até o altar de sacrifício. Ali, ela piou, fazendo uma oração, e incentivou os filhotes a piarem também, abaixando as cabeças. O som ecoou pelos frios rochedos na noite.
Louizx de repente viu algo que o encheu de esperança. Era Twinsanity, um rato da Academia.
Eles tinham vindo salvá-los.
Sirius e Amanda se comunicaram com Leon e Soren, do outro lado do ninho. "Estão todos prontos" disseram, em voz baixa. Koburo e Cheese aguardavam ao norte, e Débora, juntamente com Quiqui, no sul. Twin seria a isca. Ele era perfeito, sendo rápido o suficiente para fugir e ágil para se esconder quando a fuga ficasse muito complicada. Ele correria para uma gruta cujo interior rebrilhava com cristais, um pouco abaixo de onde estavam, e que era perto dos outros, mas não perto o suficiente para a águia encontrá-los. Agora precisavam aguardar o sinal.
Koburo levantou a cauda, fazendo um movimento circular. Era chegada a hora. Twinsanity invadiu o ninho, fazendo a águia estacar no momento em que iria avançar para Nedle.
- EI! OLHA PRA CÁ, BICHO ESTÚPIDO! -Gritou o rato, um pouco mais baixo do que deveria.
Mas o pássaro tinha boa audição. Ela olhou longamente para Ned, como se prometesse comê-lo mais tarde, e então encarou Twin com dois olhos amarelos intimidantes. Seu olhar não era bravo. Era mais como se ela estivesse desapontada. "Por que você interrompeu meu jantar?" parecia dizer. O rato percebeu que apenas aquilo não seria suficiente para ofendê-la, fazê-la ir atrás dele. "Está na hora de tomar providências drásticas" Pensou ele, pegando uma pedrinha do chão e mirando. Um calafrio de expectativa correu seu corpo marrom, e o rato atirou a pedra no olho da águia.
Isso foi mais do que suficiente. A ave gritou, indignada, e voou, tentando investir para o rato com suas garras douradas. Twin rolou, desviando, e depois pulou quando ela tentou abocanhá-lo com aquele terrível bico dourado, de pontas afiadíssimas. Os dois continuaram brigando, até que sumiram no horizonte. Os filhotes da águia ficaram bem quietos, e depois correram para uma reentrância na rocha. É, com certeza eles não apresentariam perigo algum.
O plano começou a ser posto em ação.
Quiqui e Débora posicionaram-se em guarda, como sentinelas. Os outros se espalharam pelo ninho, e pelo altar de sacrifício. Ned e Louiz não pareciam nada mau, embora ambos estivessem tremendo. Cheese levou Ned nos ombros sem dificuldades. Louizx recusou a ajuda para andar.
Os outros checaram tudo. Havia ali pertences e coisas pessoais, Sirius percebeu, de outros ratos, que não tiveram a mesma sorte. Isso o deixou com muita raiva, e o rato esmigalhou o graveto que tinha nas mãos.
Estava tudo pronto. Soren e Koburo amparavam Louiz, e todos já estavam saindo, quando um alerta de Quiqui os sobressaltou.
- ALERTA VERMELHO! -Gritou o rato- ELA ESTÁ VOLTANDO! E... Oh não...-Disse ele, em voz mais baixa. -O rato em suas garras é... Ele é... -Quiqui gaguejava, não conseguia completar o próprio pensamento.
Débora completou a frase.
- O rato é Twin. -Disse ela, o terror sobressaindo em sua voz.
A águia voava majestosamente para eles, as asas abertas e um Twinsanity desmaiado nas garras.
Por Anvil. O que fariam agora?
Sonhos
O enorme pássaro jogou Twin no ninho e pousou, com as asas abertas, não muito longe deles. Os ratos permaneciam paralisados, um efeito do estresse. Então, a ave os encarou friamente, os olhos amarelos fixos em cada um deles.
E deu um grito terrível que cortou a noite, o bico dourado se escancarando. A águia avançou para os amigos com fúria. Naqueles momentos que transcorrem entre a vida e a morte, em que tudo parece ficar mais lento, Débora notou uma hesitação no animal. Ela não parecia querer matá-los, como se isso contrariasse seus paradigmas. Os olhos estavam tristes, mas a raiva parecia sobrepôr todos os outros sentimentos. "Ah!" Pensou a rata. "O que adianta prestar atenção nisso agora? A gente já era!"
E a águia avançou, nos cinco segundos fatais, quando de repente outro grito cortou a noite. Um rato pulou sobre o pássaro, vindo de sabe-se-lá onde para salvar suas vidas.
- QUIETA, KATRLYN!- Gritou ele, raivoso. A águia parou a meio caminho de matá-los com suas garras, e o olhou, dócil, inclinando a cabeça gentilmente. -Nunca vi um bicho tão teimoso. -Reclamou o rato, balançando a cabeça. Então voltou-se para os amigos. -Está tudo bem com vocês? Ela os machucou?
Quiqui foi o primeiro a falar.
- Senhor, nosso grupo está numa gruta a pouco tempo daqui. Dois de nossos amigos foram raptados pela águia, e viemos em missão de resgate. Um dos nossos foi... Ele desmaiou, tememos que esteja ferido.
O rato o encarou, sério. Então disse, em voz rouca:
- Vocês são do grupo que vem da Academia, não é mesmo? -Os ratos assentiram- Então tá. Eu sou Daniellm, do Templo nas Montanhas. Vou levá-los até lá. O mestre ficará muito feliz em vê-los. Encontrei seus amigos a caminho de lá. Eles me contaram sobre a águia, e eu vim o mais rápido que pude. Venham, vamos levar seu amigo para os curandeiros.
Todos se entreolharam, enquanto o rato já ia subindo nas pedras novamente. A Academia os havia ensinado a não confiarem em ninguém; No entanto, aquele rato os salvara, e demonstrara ter um controle extremo sobre o pássaro, que agora os encarava, dócil. Ela parecia arrependida de seus atos. Os filhotes estavam fora de vista, provavelmente escondidos em alguma fissura da pedra avermelhada e escura. Daniel olhou para trás, com um sorriso.
- Algum problema? -Perguntou, desconfiado.
Os amigos não tiveram escolha; o seguiram.
Num ponto da escalada, encontraram com os outros. O Templo estava mais perto do que nunca, e podia ser visto dali. Grandes paredes brancas se destacavam no fundo avermelhado das montanhas, e os ratos estavam a apenas um dia de viagem de lá. Dormiram, novamente, numa gruta.
Twinsanity não parecia mau; Ele repousava sobre uma cama de palha, num canto. Por sorte, os Cavaleiros conheciam diversas técnicas de cura. Alguns ratos permaneceram ao lado de Twin, colocando emplastros de ervas e coisas desse tipo em seus poucos ferimentos. Entre eles, Amanda, Louizx e Nedlemouse. Aos dois também havia sido oferecido algum tratamento, mas eles não estavam feridos.
Naquela noite, Sirius e Leon, como sempre, arrastaram seus sacos de dormir para um canto da gruta. Leon estava muito quieto, esfregando com as patas a perna ferida um tempo antes. Sirius notou um corte longo e profundo nela. Leon não estava mais usando muletas, mas mesmo assim ainda andava mancando. Ele não havia percebido isso anteriormente. O rato imaginava o quanto a experiência com a águia devia ter abalado o companheiro. Afinal, ele já fora quase morto por um pássaro. Mas Leon estava impassível. Um rápido "Boa Noite" foi dito, antes de caírem num sono profundo, pontuado por sonhos estranhos.
Leon sonhou, novamente, com a mesma coisa.
"VOCÊ ESTÁ MUITO PERTO, HERÓI!" Dizia a voz, fria e aguda. O rato conhecia aquele lugar; Era sempre ali que o maldito sonho ocorria. No ninho da águia. A voz vinha do animal.
"FALTA POUCO" Tornou a dizer o pássaro. "ENCONTRE O SÁBIO NAS MONTANHAS! ELE LHE DIRÁ O QUE PRECISAA..."
O rato caiu num redemoinho obscuro, e acordou, suando, dentro da gruta, com todos os amigos.
Enquanto isso, juntamente com Amanda, em outro ponto da gruta, Débora tinha seus próprios sonhos.
Ela estava na floresta da Academia. As conhecidas árvores antigas e retorcidas ilustravam a trilha, de cada lado. A rata perseguia alguma coisa, embora não soubesse exatamente o quê. Na sua frente, uma forma negra corria. A forma tinha orelhas pontudas e um focinho pontiagudo; A Cavaleira logo percebeu do que se tratava; Um lobo, pelo andar claramente canino, e pelas pegadas que deixava. "Mas o que.." Pensou, aturdida. Como a criatura não a vira? Justamente nesse momento, o animal se virou para trás, os olhos amarelos encarando-a. Ela paralisou no lugar em que estava, enquanto o lobo jogava a portentosa cabeça para trás e uivava. O som agudo encheu a floresta, e logo vários outros lobos estavam ali. A rata estava morta. Havia um par de lobos brancos que lhe chamou a atenção; Eles deveriam ser os alfas. A grande figura negra que havia uivado a encarou novamente.
BlackJack falou, em sua mente, com uma voz rouca.
- Ajude-nos! -Ganiu ele. -Nosso senhor corre perigo! Precisamos da senhorita!
A fêmea branca uivou.
- Ajude o nosso senhor Sirius!
O companheiro dela ladrou, raivoso.
- O Herói o destruirá, para salvar outras vidas. Não deixe que isso aconteça! Ele está fazendo TODAS as escolhas erradas!
O sonho se dissolveu. A rata acordou com Amanda chacoalhando-a. Era de manhã; Todos estavam se arrumando para continuar a jornada. Daniel o esperava, na gruta, juntamente com o Comandante. Twin estava bem; Havia tido apenas alguns cortes nos braços, mas, graças às ervas e plantas curativas, podia continuar a subida normalmente. Os garotos estavam a um canto, discutindo sobre a águia. Leon assentia todas as vezes que falavam com ele, mas não parecia estar prestando atenção à conversa. A rata notara esse comportamento estranho dele desde o dia anterior. Balançando a cabeça para espantar os maus pensamentos, olhou para onde o Sol despontava, no horizonte.
O Templo
Eles chegaram ao Templo quando o Sol estava no meio do céu. A construção era impressionante; Pedras de granito branco se agigantavam, criando paredes. O teto pontiagudo, de madeira escura, e as janelas de papel de arroz, completavam a construção. Havia um caminho de pedras prateadas, que levava à entrada do Templo, flanqueada por dois dragões de bronze, que carregavam esferas de obsidiana nos dentes pontiagudos. O lugar era impressionante. Estando nas montanhas, se surpreenderam ao ver, em meio às pedras escuras, um magnífico jardim, cheio de plantas verdejantes e flores coloridas. Tudo parecia absolutamente simétrico, mas de forma harmoniosa. Ao lado da trilha de pedras prateadas, haviam dois pequenos rios, de água transparente, que rebrilhava, exibindo reflexos da luz solar, que parecia dar a tudo um ar mais alegre. Os ratos se sentiram minúsculos diante daquilo tudo, e caminharam lentamente rumo à entrada. Na porta gigantesca de carvalho, entalhado com belas imagens, o Monge esperava. Sirius se perguntou como ele chegara ali mais rápido do que eles. Então se lembrou da carruagem voadora, puxada pelos besouros. A viagem deveria fazer parte da excursão.
O Comandante Scoutt e o Monge se cumprimentaram alegremente, e então fizeram um sinal para que os Cavaleiros entrassem. Dentro do Templo, encontraram alguns monges meditando a um lado, e de outro, ninjas, se preparando para o treino. Os amigos já haviam ouvido falar deles; Assassinos sombrios, contratados pelos magnatas do mundo dos ratos, mas também ratos com habilidades de disfarce impressionantes, podendo se esconder num pequeno fio de sombra ou mesmo atrás de uma árvore, sem que ninguém os percebesse. Isso os tornava espiões muito cogitados pelos grupos mais influentes e pelas tribos. Os ninjas do Templo tinham reflexos impressionantes e imponentes. Eles se moviam com uma elegância que os Cavaleiros só haviam notado nos mestres como o Comandante, em ação. O pátio enorme, em que essas duas cenas distintas coexistiam lado a lado normalmente, estava visivelmente preparado para a chegada dos Cavaleiros, com um púlpito (sempre) preparado em seu centro. O Monge já estava indo para lá, apressado, a túnica branca revoando.
O discurso foi rápido.
- Olá, meus caros Cavaleiros. Sejam bem vindos à nossa humilde habitação. –Disse o Monge, contente. “Humilde?” Perguntou Débora a Amanda, com um sorrisinho- Ficamos muito felizes de vocês estarem aqui, e daremos aos senhores as melhores acomodações que pudermos. Espero que possam aprender muito conosco, pois estaremos aprendendo com vocês. Estão liberados. Os nossos monitores Soren –O professor/monitor se empertigou –E Koburo –O outro monitor fez o mesmo- Os ajudarão a encontrar seus quartos. São dez por quarto. Sim, são quartos bem grandes. – Apressou-se ele a dizer, com os murmúrios preocupados- Podem ir.
Com um sorriso, o Monge apontou para um corredor forrado de mármore negro, onde os monitores os esperavam. Os ratos os seguiram até um enorme hall de pedra creme, com portas a toda volta. Os números foram distribuídos em pedaços de pergaminho entre os visitantes.
O quarto de Sirius era o número 4. Quando abriu a porta, se deparou com Amanda, Débora, Quiquicp, Twinsanity, Cheeseblazed, Thefernand, Louizx e Nedlemouse. Mas o olhar do rato não se deteu neles.
O quarto era GIGANTESCO, se é que podia se chamar isso de quarto. Era 3 vezes o tamanho do chalé em que viviam na Academia. Havia 5 beliches, com colchões macios e travesseiros de penas. Ao fundo, dois banheiros, um masculino e um feminino. Todo o quarto tinha uma iluminação suave, que combinava com as paredes azul-claras. Os amigos tomaram banho, satisfeitos por fazerem isso num chuveiro (que, diferentemente do chuveiro público da Academia, tinha uma temperatura razoavelmente ajustável –Na Academia, ou era quente, ou era frio-) e não num rio ou cachoeira silvestre. Todos dormiram pelo restante da tarde.
Os Cavaleiros haviam recebido ordem para ir ao jardim atrás do Templo, de noite. Chegando lá, encontraram os ninjas treinando. Havia um riozinho que passava por ali, e dentro dele, haviam estacas de madeira, bastante afastadas das outras. Os ninjas utilizavam pequenos spirits azulados para pular de uma para a outra. Nada que os Cavaleiros nunca tivessem treinado- Nas aulas de Conjuração de Objetos, haviam chegado até a Conjuration. Mas a habilidade com que os ninjas manipulavam isso era impressionante.
O motivo de estarem ali era conhecerem os ninjas e os jovens monges melhor, então os amigos se espalharam pelo jardim. Fleur estava sentada a um canto, com várias monjas ao seu redor, enquanto falava de seu cabelo e roupas. Dehco estava ao seu lado fielmente, lixando as suas unhas, se bem que já parecia estar vacilando em sua fidelidade: O rato estava com uma cara horrível, mas cumpria as ordens de Fleur sem hesitar. Leon sentiu pena dele.
Twin estava sentado junto a alguns ninjas, que pulavam de um lado para o outro, utilizando spirits. “Que coisa retardada” pensou o rato, irritado. Aqueles ninjas se achavam demais. E então um deles o notou.
- O que está fazendo aí, Mané? –Perguntou um deles, com um sorriso idiota. –Você é um daqueles trouxas que vieram da Academia?
-Vá se danar! –Respondeu Twin, nervoso, mas incapaz de controlar seu gênio forte. –Aposto que você deve estar muito ocupado com seus flashezinhos inúteis, pulando como um coelho. Que tal você começar de novo, idiota, para eu poder rir dessa tua cara feia?
O ninja não gostou nada dessa ofensa. Os seus amigos grandões e cheios de músculos vieram para perto dele, e passaram a encarar o jovem Cavaleiro com suas caras tortas, parcialmente cobertas por uma máscara negra.
Sirius e Leon, que admiravam o Comandante discutir com o Monge por causa das acomodações dos Cavaleiros –Ele achava que eram luxuosas demais- Perceberam a agitação. Eles foram até Twin, as patas fechadas em punhos, prontos para uma briga.
- Algum problema? –Perguntou Sirius, irritado.
- Qual é a sua, hein, baixinho? –Perguntou o ninja que havia xingado Twin- Veio defender seu amigo imbecil?
Leon não gostou dessa.
-Ah, você já se olhou no espelho hoje, gigante? –Perguntou ele, bravo. –Acho que não, não é mesmo? O espelho racharia.
De repente eram Cheese, Nedle e Thefernand que chegavam ali.
- Olhem só. –Disse Cheese, baixinho- Os ninjas. Aqueles que se acham tão importantes. Hah.
-Cale a boca, inútil –Debochou o ninja, os asseclas estalando os dedos. –Porque não vão lá, com as meninas, brincar de boneca?
- Não vou brincar de sua brincadeira preferida hoje, obrigado –Rosnou Thefernand, ansioso por uma boa briga.
Logo, todos os Cavaleiros e a maioria dos ninjas estavam ali, se encarando, ferozmente, e trocando acusações e ofensas. Débora e Amanda foram muito hábeis nessa parte.
Os ânimos se exaltavam nos jardins do Templo. Ninjas e Cavaleiros prontos para um combate histórico.
Quem iria ganhar agora? A força ou a disciplina?
Os resultados
Os dois grupos não pensaram duas vezes; Se lançaram uns contra os outros numa fúria demoníaca.
De repente, o lindo jardim era um campo de guerra. Todos estavam lutando com alguém; Todos invocavam objetos e usavam armas letais. A briga assumira um caráter maligno.
Sirius lutava com um enorme rato marrom-claro. Ele calculou suas possibilidades; O inimigo era bem maior do que ele, mas muito burro, o que certamente significava que podia ser vencido. O jovem pulou por cima da rasteira que o outro rato lhe dava, conseguindo pegar o braço do inimigo. Com uma força saída sabe-se-lá de onde, o Cavaleiro torceu o braço do outro rato e o obrigou a ajoelhar-se diante dele. O ninja gemia, então ele o deixou no chão, fora de combate.
Leon e Thefernand lutavam juntos contra dois ninjas de pelagem negra. Eles ficaram um de costas para o outro, segurando suas respectivas adagas, enquanto esperavam que o inimigo saísse das sombras. Thefernand não quis ser paciente.
- O QUE ESTÃO ESPERANDO, VERMES? –Gritou ele, irritado. – SÃO MUITO MEDROSOS PRA VIR PRA CIMA?
Um dos ninjas não agüentou a ofensa. Gritando, ele se atirou contra Leon.
O Cavaleiro levantou sua adaga prateada e fez um enorme corte na barriga do ninja, que caiu aos seus pés, desmaiado. O sangue espirrou; Leon não queria pensar nisso, e se virou para Thefernand, que lutava contra o outro ninja, adaga contra espada. Um esgar maligno se abriu no rosto do rato enquanto ele ia ajudar o amigo.
Débora e Amanda guerreavam mais adiante; Débora havia puxado seu arco. Era muito fácil, para ela. Com um grito feroz, ela correu pelo jardim destruído, mirando e atirando. Um ninja se esgueirou e pegou seu pé; Ela o nocauteou com o arco de madeira, logo depois atirando, quase instintivamente, num outro que pulava para a rata. Amanda não fazia feio; Ela e Cheese eram invencíveis juntos. O Comandante dissera que eles lembravam os espíritos indomáveis. Cheese pulou sobre um ninja como um leão, e Amanda, a própria leoa, o silenciou com sua espada.
Twin lutava juntamente com Louizx. Os dois, com suas espadas, pulavam sobre os inimigos como onças furiosas. Louizx fez cortes seguidos num ninja, que não teve nem tempo de se defender. Twin enfiou a espada no peito de um outro.
Mas nada disso adiantava. Eles estavam perdendo. Os ninjas eram treinados a mais tempo do que os Cavaleiros e tinham a vantagem de conhecer bem o terreno. As tropas ninjas avançavam incansáveis, para os Cavaleiros, destruindo tudo em seu caminho.
A guerra não durou muito.
De repente, eram o Comandante e o Monge que estavam ali. Os resultados foram previsíveis. A luta acabou imediatamente.
Sirius acordou no hospital. O lugar era seu velho conhecido, mas aquele não era o hospital da Academia. O rato estava tonto. Onde estava mesmo? Ei, o que ele estava fazendo ali? Qual era mesmo o seu nome? De repente, todas as suas memórias retornaram à sua mente, como uma avalanche. Ele recuperou a força e a sanidade. Seu nome era Sirius Luppus Castellan.
Mas essas não eram as lembranças mais importantes. Ele se lembrou de ouvir o Comandante gritando a plenos pulmões antes de desmaiar, com um enorme corte no peito. Maldito ninja. O rato tentou se levantar, mas todo o seu corpo doía. Ele se observou, e levou um susto com o que viu. Teria tido tantos ferimentos? Estava todo envolto em bandagens e curativos. Tinha pontos em vários lugares. “D ” P ou ele, nervoso. Onde estariam seus amigos? Ele vira Twin e Leon apanhando de dez outros ninjas, uma luta injusta. “B ” Sua visão estava voltando ao normal aos poucos, e ele discerniu outras camas ao redor. Twin repousava numa delas, ao seu lado, e Débora, em outra, na sua frente. Uma enfermeira se achegou, espetando uma agulha de soro em seu braço e ignorando-o quando perguntou sobre a batalha. Talvez fosse apenas surda, Sirius pensou, enquanto se recostava no travesseiro atrás dele.
Twin estava semiconsciente. Ele via tudo ao seu redor, mas o mundo era mesmo assim tão escuro? De repente uma voz encheu seus ouvidos. A voz era maligna, fria e arrastada, como uma faca raspando em gelo. O rato a reconheceu rapidamente.
- SERVOO! SEU MESTRE IMPLORA POR SUA AJUDA! AJUDEEE-MEEE! –Disse a voz, torturada.
“ ã ” R “E JÁ TEVE SUA LIÇÃO. SAIA DA MINHA MENTE.”
“Não me obrigue a machucá-lo, servo” ç a voz. “S b b o que eu sou capaz!”
“ ã S í Nã ” Respondeu Twin, um pouco nervoso.
“ ã lar para a ignorância!” T z ç nte, a visão de Twin ficou turva e o mundo explodiu em dor. O rato gritou desesperadamente.
Toda a enfermaria lotada encarou Twinsanity.
“ S b !” z desaparecer gradualmente.
A enfermeira chegou perto do rato, que suava frio.
-Está tudo bem com você, querido? –Perguntou ela, nervosa. Twin a encarou, a visão lentamente voltando ao normal. A enfermeira deu de ombros, não obtendo resposta, e espetou a agulha de soro em seu braço.
No refeitório, o clima era tenso. Poucos haviam sido liberados para sair da enfermaria antes do nascer do dia seguinte. Na mesa onde geralmente ficavam os amigos, apenas Nedle e Louizx permaneciam sãos. Eles estavam sofrendo as conseqüências disso.
O Comandante estava furioso. Ele obrigara os Cavaleiros a jantarem moluscos, a pior refeição que conheciam. Moluscos pareciam com meleca. Ned cutucava, ansioso, sua comida, esperando, talvez, que aquilo se levantasse e saísse andando. Louiz viu Fleur em outra mesa.
A rata, é claro, comia caviar e suco de morango. Ele suspirou. Dehco ainda não renunciara à “ z ” F N estranha também e riu; O som reverberou pelas paredes do refeitório. Ninguém levantou os olhos da comida repugnante.
A atitude do Monge fora diferente. Ele dera um sermão gigantesco, de quase quatro horas, para os ninjas, que ouviram calados, e depois os fizera fazer 500 flexões cada um. Nedle riu enquanto se lembrava da cena. O Monge não parecia bravo, e sim muito desapontado.
O refeitório vazio e frio marcava o fim do primeiro dia dos Cavaleiros no Templo.
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