quarta-feira, 13 de julho de 2011

Os Cavaleiros do Queijo- Livro Um

O jovem rato
Era um dia ensolarado na cidade dos ratos. Os ricaços e grandes proprietários de maps descansavam em suas mansões luxuriantes, mas esse não era o caso do herói dessa história. Diferente dos ricos que esbanjavam sua riqueza para todos verem, o pobre garoto não possuía nem mesmo uma toca. Taxado de noob, procurava fugir dos outros ratos. Não conseguia correr mais rápido quanto um simples ratinho. Uma runa o ultrapassava. Mas o rato era muito persistente. Numa pequena sala, Sirius treinava e treinava de novo. Na sua mente, parecia que nunca iria ser tão rápido quanto um mito. Ah! Os mitos mereciam esse nome! Ratos rápidos como raios. Quando passavam, só se sentia um cheiro de queijo da melhor qualidade e um relâmpago marrom.Os mitos não eram ricaços, mas trabalhavam na mais importante tarefa do Transformice: Eram cavaleiros do queijo. O jovem Sirius queria ser igual a eles.
Um dia, Sirius passeava pelo centro da cidade quando um bando de ratos cheios dos cheeses começou a xingá-lo e a zoá-lo. Não tendo reação, começaram a distribuir socos no ratinho. De repente, uma grande raiva o atingiu. Ele gritou e conjurou um enorme cannon que os jogou longe. Os ratos ricaços não tiveram dúvidas. Chamaram a polícia, que imediatamente foi atrás do jovem. Correndo, Sirius sabia que se fosse pego pela polícia, não sobreviveria. Os noobs não eram valorizados. Por não poderem pagar a fiança, eles eram espancados até virarem sabão. De repente, ele tropeçou num toco e caiu sob os pés do Shaman. Sirius pensou que não seria poupado, mas o shaman apenas olhou-o longamente e disse: Venha comigo, filho. Shaman e rato saíram juntos noite adentro.

A Proposta do Shaman
Enquanto caminhavam lado a lado, o rato pensava que seria morto. Mas o shaman chegou a uma grande árvore, se sentou e o convidou a sentar-se. Ele perguntou, com sua voz calma e pausada:
-Meu filho. Vi você treinando ontem à noite. Você tem jeito. Aquele cannon que você jogou naqueles empresários safados -Sirius se assustou ao ouvir o Shaman falar deles dessa maneira- Sim, eles são mesmo! Nunca gostei deles! Ah! continuando, aquele cannon foi ótimo! Adoraria que você se juntasse aos Cavaleiros do queijo! O que acha?
Sirius ficou extasiado. Gaguejando, aceitou a proposta do Shaman. Cheio de felicidade, o jovem rato estava nas nuvens. Em meio à tantas emocões, ouviu o mestre falar: Seu treinamento começa amanhã.

O treinamento se inicia
No dia seguinte, Sirius acordou muito cedo, se vestiu rapidamente e foi pro treinamento rápido como um raio. O Shaman estava lá esperando os ratos calouros chegarem. Ao seu lado, havia um rato cinza gigantesco, que usava uma farda. Ele olhou para Sirius fixamente com o seu olhar semicerrado. Era assustador olhar para o comandante da equipe de treinamento, já que tinha uma enorme cicatriz sobre o olho esquerdo e uma outra que cortava, como um raio, o seu olho direito, fazendo-o ser metade fechado e estranho. Ambas eram vermelhas e se destacavam sobre o cinza pálido de seu pêlo. Sirius nunca havia visto um rato que não fosse marrom, como ele próprio. Às vezes com manchas, ou com pêlos brancos de velhice, os ratos da cidade eram todos da mesma cor. Sirius tentou o máximo possível não encarar aquele cara ameaçador.
O Shaman trocou uma ou duas palavras com o rato cinza e foi embora. Antes de sair, deu uma ligeira piscadela para Sirius. O comandante começou a falar com uma terrível voz rouca.
-Vejo que vocês querem ser Cavaleiros do Queijo. Boa sorte, pois poucos aqui irão conseguir. Alguns -disse, olhando novamente para Sirius- Não vão passar nem da primeira noite. Vocês realmente acharam que seria assim tão fácil? Ha, ha, ha. Vejam bem. Ser um cavaleiro do queijo é uma tarefa difícil. Exige esforço máximo e podem ter certeza de que, às vezes, pensarão que nunca deveriam ter aparecido aqui nesta noite. O inimigo é muito forte, e não terá pena nenhuma. Vocês podem morrer. Podem ser torturados. A escolha é sua.
Após esse discurso absolutamente encorajador, o comandante pediu para todos se dividirem em duplas. Sirius ficou com um rato chamado Leon. Ele era pequeno, mas corajoso. O comandante, que agora sabiam se chamar Scoutt, disse que primeiro, testaria a sua resistência física. Os dois parceiros deveriam completar o circuito de atividades juntos. O circuito tinha 12 km. Primeiro, deveriam passar por barras de ferro em cima de um grande rio, muito fundo, que diziam ter piranhas, depois, correr 8 km desviando de flechas, armadilhas e buracos. Chegando a um lago, deveriam pegar caiaques e remar até chegar à outra extremidade. Naquele lago, haviam crocodilos, que eram atraídos pelo cheiro dos ratos e avançavam nos barcos. Enquanto um dos parceiros remava, o outro deveria bater nos crocodilos com o remo, espantando-os do barco. Por fim, chegando ao fim do lago, subiriam uma pequena montanha, usando sua melhores técnicas de WJ, pegar o queijo e encaminhar-se para a linha de chegada. O comandante Scoutt descreveu o circuito com desprezo e disse que aquele era apenas o nível um. Sirius e Leon entreolharam-se e rapidamente correram para o que talvez fosse a última coisa que fariam na vida.

A Maldição do Lago
Assim que conseguiram passar pelas barras, os dois parceiros chegaram nos 8 km rasos.Desviando dos buracos e flechas incandescentes, Sirius estava justamente pensando que não era assim tão difícil quando de repente uma flecha o atingiu, jogando-o num buraco.
-Sirius! -gritou Leon, rapidamente puxando o amigo para fora
-Valeu, cara. Rápido! Desvia! -Disse Sirius, fazendo o amigo desviar rapidamente de uma flecha incandescente.-Vamos continuar.
Os dois ratos correram, rapidamente pulando um buraco, desviando de uma flecha e desativando uma armadilha, uma de cada vez. Então chegaram no enorme lago cinzento que deveriam atravessar. Aquilo mais parecia um mar, mas eles não podiam desistir. Rapidamente Leon começou a remar enquanto Sirius pegou o outro remo para afastar os possíveis perigos. Tudo estava tranquilo. Tranquilo de mais. Sirius se recostou na madeira amarelada do caiaque antigo e esperou, mas nada parecia acontecer. Leon estava remando, porém será que estava remando mesmo? Eles não pareciam sair do lugar. Os amigos foram tomados por um sono pegajoso e profundo. Eles não estavam dormindo, mas não conseguiam enxergar o mundo à sua volta. Aquela neblina era muito profunda e recobria tudo com sua brancura. Mas será que havia neblina mesmo?Ou seria apenas um sonho… Os amigos já não sabiam. O lago havia feito seu real propósito. E, com esse terrível estupor, eles não percebem a sombra de algo MUITO grande se mexendo em direção ao caiaque…

Vingança
Dormindo, Leon ouviu alguma coisa… Seria mais um sonho? Ele não sabia. Mas sabia que podia confiar em suas orelhas. Diziam que a sua audição era uma das melhores entre os ratos. Ora, era por isso que ele havia sido chamado para ser um Cavaleiro do Queijo. Com estes pensamentos, sua mente começou a ficar mais forte. E mais forte. Ele não estava mais sonhando. Aqueles pensamentos eram dele! E não do maldito lago. Aos poucos, o jovem rato começava a recuperar os movimentos das patas. Lentamente, seus olhos se abriram, e ele a viu.
Era horrível. Leon não saberia dizer O QUE exatamente era aquilo, pois seu rosto (seria um rosto?) mudava de forma, virando os pensamentos e pesadelos mais horríveis do rato. O corpo era parecido com um de um tubarão enorme, mas a pele era escamosa e bulbosa como a de um sapo. Manchas negras percorriam seu corpo. Acho que é suficiente dizer que Leon nunca mais esqueceu aquela imagem aterradora, que passou a assombrá-lo por toda a sua vida. Ele não poderia aguentar olhar para aquilo por nem mais um segundo, então se virou e gritou para acordar Sirius. O amigo não se mexia. Parecia estar morto, enfeitiçado pelo lago maldito. Leon sacudiu-o e berrou em seu ouvido. Sirius só acordou quando Leon bateu nele com o remo, em desespero. O rato olhou em volta, desorientado, viu o monstro e gritou, finalmente saindo do estupor. Cada vez mais perto do caiaque, o enorme animal rugiu. Um som gutural e horrendo, que reverberou. E atacou.
Foi muito rápido. Para Sirius, foi como se o mundo se resumisse a pêlos, escamas e dentes. Dentes enormes e muito brancos dos quais escorria uma saliva negra nojenta. Ele lutou, assim como Leon, e eles avançaram com a pequena canoa, batendo com os remos na criatura, mas o animal apenas rosnou de novo e cortou os remos ao meio com os dentes como se fossem palitos. Depois avançou para os dois ratos e, num rápido movimento, jogou o caiaque longe. O barquinho bateu numa pedra e quebrou. Os dois ratos foram lançados para longe. Sirius não sentiu mais nada. Ele viu cenas indistintas passando na frente de seus olhos. Um rato bebê, brincando com um pequeno cannon de pelúcia. Um ratinho de uns três anos, chorando, enquanto os pais eram levados por policiais da vila. Ao longe, o Shaman olhando a cena, com olhos torturados. Ele viu os pais. Nunca mais os havia visto desde que era bebê. E agora sabia por que tinha passado a vida inteira se virando sozinho. As cenas continuavam passando. Um rato adolescente e magro, com um olhar feroz, como se esperasse que tentassem atacá-lo a qualquer momento. Mas não importava mais. Agora eu sei -pensou ele- e vou matar todos aqueles que tiraram meus pais de mim. E, com este último pensamento, afundou nas águas cinzentas do lago.

Vozes na noite
Sirius acordou com os gritos desesperados de Leon. Na verdade, ele estava sub-consciente. Vozes abriam caminho por sua mente.
-Sirius! Ah, não! Acorda, por favor! Sirius!
Era Leon. Depois, ouviu mais vozes ao fundo.
-O que aconteceu?
Vozes desconhecidas cortaram a noite.
-O que houve?
-Está tudo bem com vocês?
-Estão machucados?
Lentamente, Sirius ia identificando as vozes. Eram de outros futuros Cavaleiros do Queijo. Mas, então, um tom mais rude se sobrepôs aos outros tons. O jovem rato imediatamente soube que aquela era a voz do Comandante Scoutt.
-Saiam da frente. O que aconteceu, filho? Perguntou ele, com uma voz suave e gentil que os jovens amigos nunca pensariam que ele tivesse.
-Nós fomos atacados pelo monstro do lago, senhor. Ele destruiu nosso barco. Eu e Sirius caímos na água e eu só sobrevivi porque consegui me agarrar a uma parte do remo que flutuava. Então vi Sirius caindo nas pedras e achei que ele estivesse morto. Trouxe ele até a praia, senhor, mas ele está gravemente ferido.
Oh, sim. Enquanto Leon narrava os fatos ao comandante desesperadamente, Sirius sentia cada vez mais dor. Ela ia das costas até metade do seu crânio. Ele pensou que queria muito ter forças pra falar com o amigo desesperado e o Comandante Scoutt, mas não conseguia nem mesmo abrir os olhos. A sua boca parecia ter sido habitada por um escorpião venenoso. Mas não parecia ter problema algum com os seus ouvidos, e ele continuou a ouvir atentamente.
- Vocês realmente viram o monstro do lago? Meu jovem, ninguém sobreviveu a ele nos últimos dez mil anos. Dizem que mil anvil gods não alcançam o poder dele. Mas isso não importa. Eu temo que o seu amigo não sobreviva por muito mais tempo. Devemos levá-lo imediatamente ao hospital.
-Mas, senhor…
-Sim, filho?
- Estamos desclassificados, não é?
- Oh, garoto. Acho que vocês nunca poderão ser Cavaleiros do Queijo. Meus perdões.
E as lágrimas do jovem rato cintilaram à luz sutil da lua.

Dor
Sirius acordou com o barulho dos próprios gritos. Os seus olhos abriram-se bruscamente, e ele percebeu que não estava mais às margens do lago. Uma luz branca iluminava o Hospital Emergencial Dos Ratos. Mas ele não deu muita importância a isso no momento, pois a dor era muito intensa. Gritando e se debatendo, não deu importância aos outros ratos à sua volta, que diziam para ele se acalmar com uma voz cheia de pena. Por fim, foi imobilizado por três ou quatro fortes mãos. A enfermeira acabou de aplicar os pontos e de lhe dar algumas injeções e foi embora, muito penalizada. Suando e tremendo, o rato permaneceu deitado, imóvel. Leon chegou perto dele e seus olhos tristes lhe disseram que havia algo errado. O que seria? Sirius estava muito confuso. Sua mente estava embaralhada e de vez em quando se lembrava de pequenas partes difusas de memórias. O Comandante Scoutt se achegou à maca, também. Ele foi o primeiro a falar, e sua voz triste fez Sirius imaginar quantos jovens ratos ele havia visto morrerem ou perderem alguma parte do corpo ali mesmo naquele hospital.
-Sirius, se você não quiser falar, não precisa. Sabemos pelo seu amigo que vocês dois poderiam estar mortos, e fico muito triste de ver vocês passando por uma experiência como esta nos seus primeiros treinamentos. Obviamente eu não mandaria ninguém atravessar aquele lago se eu soubesse que havia algo tão cruel ali. Certamente só mandaria Cavaleiros de elite para matá-la. Mas vocês tem que entender que o nosso trabalho é sempre assim. Nós enfrentamos coisas muito piores lá fora do que você jamais poderia imaginar. E é por isso que eu digo que você e Leon podem desistir, se quiserem.
Sirius pensou NÃO! Aquilo estava saindo completamente errado. Argh! Ele não podia mexer os lábios. O jovem rato permaneceu em silêncio. O Comandante assentiu, se levantou, e foi embora com os seus passos mancos. Aos poucos, todos na sala saíram também. Apenas Leon permaneceu ali. Ele disse com um tom de voz muito triste:
-Cara, me desculpe. É tudo culpa minha. Eu ferrei tudo, lá no lago. Vi aquela coisa indo para cima de você, mas simplesmente não podia me mexer. E ele me mostrou imagens do meu passado. Imagens dos meus pais.
Sirius sabia como o amigo estava se sentindo. O encantamento do monstro era forte demais. Ele tinha se esquecido de que o amigo também era órfão. E os dois ficaram lado a lado, no hospital, imersos nos próprios pensamentos.

A profecia
Passaram-se dois dias até que Sirius recebesse alta para sair do hospital. Leon e ele haviam sido chamados para conversar com os comandantes a respeito do treinamento. Sirius sabia o que eles iriam falar: Vocês não estão prontos para serem Guardiões do Queijo. Ele não saberia o que fazer se ouvisse isso.Talvez fosse embora para algum lugar distante e vivesse como um eremita. Mas ele não sabia o que o amigo faria, pois Leon estava muito quieto desde o incidente no lago. No caminho para o Parlamento, Sirius resolveu perguntar o que havia acontecido.
- Leon, o que houve com você? Porque está tão quieto?
Leon observou o amigo longamente. Sabia que ele havia passado por processos dolorosos no hospital, afinal havia deslocado alguns ossos e havia tido um enorme corte que ia da cabeça aos pés, atravessando as suas costas e às vezes deixando a coluna quase visível. Mas Sirius não parecia estar abalado, pelo contrário, ele estava mais otimista e parecia olhar para tudo com outros olhos. Leon não se sentia assim. Parecia ter um peso nas costas que o impedia de continuar. Ele ainda se sentia culpado pelo acidente, e achava que poderia ter salvado Sirius. Mas havia algo a mais.
- Sabe, cara, no hospital eu te disse que havia visto os meus pais. Mas eu os vi num lugar terrível. Eles pareciam estar presos por correntes invisíveis. E eles me acusaram de ser o culpado de tudo. Eles disseram que eu deveria achar uma forma de reverter o que eu havia feito. E, em seguida, disseram uma profecia. Sirius, eu nunca vou me esquecer disso. Foi horrível. A profecia dizia:

"No caminho para o poder,
O herói deverá enfrentar os perigos.
Sofrerá com a maldição do lago mortal
E perderá um amigo na reta final.
Com o último nascer do sol ele verá um sinal,
De que o maior dos heróis morrerá afinal."


Então, Leon ficou muito quieto novamente. Sirius sentiu que não deveria pressioná-lo. Pensou no significado da profecia. As palavras misteriosas não faziam sentido, então continuou andando, calado, ao lado do melhor amigo, para o que talvez fosse a confirmação de que nunca poderia realizar seu sonho.

Diante do Parlamento
O Parlamento certamente era impressionante. Grandes colunas de gesso, no estilo romano, e um chão de mármore negro, reluzente, faziam a maioria dos ratos pensar duas vezes antes de chegar perto dele. Sirius e Leon entraram, apreensivos, e se viram diante de dez velhos ratos, todos com expressão muito severa, sentados em um grande arco. No meio desse arco, o Shaman olhava para eles. Ao seu lado, o Comandante Scoutt os observava. Os outros representantes do Parlamento eram ministros e conselheiros do Shaman. Alguns estavam usando umas perucas brancas ridículas, mas Sirius não reparou nisso. De repente, o olhar do Shaman se encontrou com o dele e o Grande Mestre começou a falar.
- Vocês foram chamados para se apresentar diante do Parlamento. Por favor, sentem-se- disse ele, apontando para duas cadeiras de madeira do centro do arco- O Comandante Scoutt me informou que vocês não foram bem no primeiro treinamento para Cavaleiros do Queijo. Isso significa que vocês não poderão mais continuar com os treinos. Os senhores estão banidos permanentemente da função. Sirius encarou as próprias patas. Sim, o pior se confirmara. Não sabia para onde iria agora. Leon sentia o mesmo. Os dois companheiros se assustaram quando a voz do Shaman novamente cortou o silêncio.
- Porém, apesar de tudo o que aconteceu no lago, é importante ressaltar que nenhum outro rato sobreviveu quando foi atacado pelo monstro. Todas as supostas lendas são claras nesse ponto. E acho que é bom que todos saibam que os Cavaleiros do queijo mais bem-treinados que mandamos para ver se as histórias eram verídicas também não voltaram. Portanto, meus caros ratos, o Parlamento concorda que vocês estão ABSOLUTAMENTE prontos para os próximos treinos! Parabéns, pois agora, vocês são oficialmente Cavaleiros do queijo em treinamento, pois demonstraram uma coragem e ousadia sem iguais. E isso, meus rapazes, é o que faz um verdadeiro Cavaleiro do Queijo.
Sirius e Leon se entreolharam. Não podiam acreditar em sua sorte. Seriam realmente cavaleiros do queijo!!! Era bom de mais pra ser verdade! Eles olharam, com alegria, para o Shaman da vila.
-Sim, meus rapazes. Vocês conseguiram, e, como isso merece uma comemoração, vocês e os outros futuros Cavaleiros terão uma grande festa com banquete hoje à noite. Congratulações. E, com isso, estão dispensados do Parlamento.
Sirius e Leon saíram, quase aos pulos, da grande construção. Enquanto andavam, viam que alguns representantes do Parlamento não pareciam assim tão felizes, principalmente os que usavam as perucas brancas. Sirius rapidamente percebeu que aqueles eram os pais dos garotos que o zoavam e atiravam pedras nele. A elite não estava satisfeita com a sua aprovação. O Shaman parou os amigos na porta e os cumprimentou, de novo, por terem conseguido. O Comandante Scoutt fez o mesmo.
-Vocês serão ótimos Cavaleiros do Queijo.
E os ratos, felizes, foram se preparar para a festa.
O verdadeiro propósito

Sirius estava muito feliz, quando acordou, de manhã, em sua mais nova toca. Leon estava no beliche de baixo, roncando levemente. O amigo não tinha o hábito de acordar cedo. Mas mesmo ele deveria estar sonhando com o dia anterior. Depois que saíram do Parlamento, havia sido preparada uma festa em homenagem aos que passaram no primeiro teste para serem cavaleiros do queijo. A festa havia sido ótima, com comidas absolutamente deliciosas, tortas de queijo, queijo derretido, pizza de queijo, queijo frito no lava-ground… Mas o melhor havia sido que os magnatas da vila agora pareciam olhar para ele com outros olhos. Olhos de arrependimento. Eles não pareciam mais achá-lo inútil, pelo contrário. E isso foi o melhor daquela noite maravilhosa. Sirius ficou deitado por muito tempo, se lembrando de cada detalhe, até que ouviu o sinal de acordar: Uma corneta tocando o hino do Transformice. O jovem rato se levantou, acordou Leon e os dois foram para o campo de treinamento. O Comandante Scoutt os esperava. Ele fez um gesto para que se sentassem e começou a explicar a missão dos jovens ratos como Cavaleiros do Queijo.
- Meus jovens, antes de mais nada, sejam bem vindos ao seu mais novo cargo: Cavaleiros do Queijo. Devo dizer que estou muito orgulhoso e impressionado com a habilidade que tiveram em completar o primeiro treino. Porém, a partir de agora, as coisas serão muito mais difíceis. Vocês podem realmente ser mortos. Podem ser torturados para dizer alguma informação. Porque os Cavaleiros do Queijo fazem muito mais do que apenas levar e trazer nosso alimento principal. Não. Isso é apenas o que queremos que os ratos normais pensem. Os cavaleiros do Queijo na verdade são uma organização que visa proteger o mundo dos ratos de um mal terrível. Os humanos. Eles estão invadindo o nosso espaço cada vez mais, e constroem armadilhas e iscas para que nós sejamos capturados. Já mataram muitos de nós. E eles não têm nenhuma dó, nem mesmo de filhotes, já que os capturam para fazer experiências cruéis. Os humanos também têm instituições secretas, como o FBI e a CIA. Vocês já devem ter ouvido falar. E, foi numa dessas instituições, que eles descobriram que os ratos têm inteligência. Uma inteligência que talvez seja superior à deles. E, desde essa descoberta, eles vêm tentando nos capturar cada vez mais, para descobrir o segredo em nossos cérebros. Não se enganem, pois eles parecem bonitinhos e às vezes nos bajulam com queijos e presentes, mas é apenas para nos prender numa gaiola fria e triste e nos esquecer lá. Os chamados cientistas costumam mexer nos nossos cérebros para ver como funcionam. Eles também gostam de nos colocar em labirintos ou coisas assim, dando choques elétricos se não conseguimos completá-los. Ou de trocar nossos membros por partes robóticas. Até mesmo testam medicamentos em nós. Tenham cuidado, ratos.
E, com esse terrível discurso, os ratos foram encaminhados à sala de armas. Enquanto andavam, Sirius e Leon tinham o mesmo pensamento: O Comandante Scoutt já havia passado por tudo que havia descrito.

Treinando
Os dias se passavam alegremente quando se era um Cavaleiro do Queijo em treinamento. O Comandante Scoutt não dava mole, levando-os para salas difíceis e bootcamps, onde tinham que desviar de bigornas, enfrentar terríveis anvil gods negros e fazer wj até em gelo. Ele queria que cada um dos ratos fosse um mito. Mito descrevia bem o Comandante. Sirius nunca havia visto um rato tão rápido e forte. Os mitos que corriam pelas ruas da vila dos ratos não se aproximavam da sua velocidade. As provas a que eram submetidos testavam tanto a sua velocidade como a força e o raciocínio rápido. Ela variavam muito. Iam de puxar um enorme caminhão de queijos (essa prova foi feita em conjunto) por um circuito, até desviar de spirits com um queijo que mais parecia um pedaço de tijolo nas costas. Eles iam dormir exaustos, mas felizes com o progresso. O Comandante dizia que estavam melhorando demais. Segundo ele, estariam prontos para o treinamento de elite em um ano. Naquele dia, estavam treinando o olfato dos ratos. Scoutt dizia que tinham que desenvolver todos os sentidos. Sirius estava preso em uma cadeira, com os olhos vendados. Leon trouxe queijos para ele farejar.
- Cheddar.
- Certo.
- Mussarela?
- Certo.
- Hummm… Camembert?
- Parabéns!
- Gruyère
- Olha, esse tava difícil. Pode sair agora.
-Ok. Minha vez.
Sirius ia pegando um quejo parmesão quando ouviu um som alto e desesperado. O som o assustou. Ele rapidamente libertou Leon e ambos correram. Eles sabiam o que o terrível som representava. Era o alarme de emergência.

O primeiro amor
Os dois ratos rapidamente foram para o pátio central da base. Esperando encontrar inimigos, um incêndio ou até mesmo humanos, se espantaram quando viram o Comandante Scoutt gritando com uma rata. Eles nunca o haviam visto tão bravo. A rata não parecia muito interessada, mascando chiclete.
- Você só causa problemas desde seu primeiro dia, garota! -gritava o Comandante.
- Ah, qual é, véi, só tô me divertindo.
- AGORA JÁ CHEGAA! Você vai ter uma detenção de três dias, descascando batatas na cozinha.
- Tô nem aí. Pode me mandar.
- Ótimo. E não quero mais ter problemas com vc, mocinha. Que isso sirva de lição! -Disse Scoutt, encarando cada um presente. Leon olhou para Sirius. Ele parecia estar muito imóvel, com as orelhas coladas no crânio e voltadas para trás. Seus olhos estavam fora de foco. Com um sobressalto, Leon percebeu que ele estava apaixonado.
- Sirius?
- Aaah…
Leon resolveu deixar o amigo brisar. Encarou a rata. Sim, ela era linda. Seus pêlos eram caramelo. As orelhas e o focinho eram proporcionais e se ajustavam ao rosto rebelde. Ela usava uma camiseta da banda Paramore sobre um casaco cáqui. Seu nome estava bordado do casaco. Débora… Era um nome legal, pensou Leon, olhando para o amigo. Mas eram tão diferentes! Sirius, dedicado ao extremo, sonhando em ser lembrado por gerações, e Débora, uma rebelde, que recebera uma detenção de três dias. “É, quem sabe?” Pensou o ratinho, enquanto levava o amigo desnorteado para o quarto.

Débora e Amanda
Leon acordou, à noite, para beber água. Era um velho hábito do jovem rato. Enchendo um copo, viu que Sirius não estava na cama. Localizou o amigo deitado na grama perto da cabana.
- Sirius? Você está bem?
- Ah, cara. -respondeu ele, suspirando- Ela não é linda?
- A rata, Débora?
- Sim… Débora… É um lindo nome. -disse Sirius, suspirando, de novo.
- É, acho que sim. Escuta, você precisa ir se deitar, acordaremos muito cedo amanhã.
Os dois ratos foram para as suas camas se preparar para o dia seguinte.
Enquanto isso, na outra cabana, duas ratas conversavam.
- Débora, vc tem certeza que ele estava apaixonado mesmo?
- Claro, Amanda. Vc deveria ter visto a expressão do tal do rato.
- Me conta! Como ele era?
- Ah, ele era marrom, bem escuro. As orelhas, patas e focinho eram mais claros. Ele estava com uma camiseta do 30 Seconds to Mars. E uma jaqueta de couro.
- E vc achou ele bonito?
- Sim, eu achei…-Disse Débora, com uma risada. -Mas não estou interessada.
- Coitado… Mas de qualquer maneira o Comandante iria matar vcs se namorassem…
- Sabe, eu nem ligo mais pro que o velho chato diz.
E as duas ratas riram, à luz da lua.

Flores
Sirius acordou decidido, naquela manhã. Antes de acordar Leon, ele foi ao bosque perto dos campos de treinamento e colheu algumas flores. Ficou muito tempo tentando pensar em alguma coisa para falar para Débora. Treinou, com o reflexo no lago. Mas ainda estava nervoso demais quando foi se encontrar com Leon no refeitório para o café da manhã, o buquê de flores escondido na jaqueta preta meio surrada. O amigo achou estranho sua demora.
- Cara, onde você foi? Você não tava na toca hoje de manhã, fiquei preocupado…
- Fica de boa, olha, fui pegar umas flores para a Débora. - Respondeu ele.
- Ah…
Sirius, muito nervoso, foi à mesa das garotas. Ao se aproximar, Amanda o olhou sugestivamente e disse alguma coisa para Débora, que assentiu e depois riu. Ela se virou para ele.
- Fala, ratolo. O que exatamente vc veio fazer aqui, meu filho?
- Ahn, é que… Eu, hum… -Sirius olhou para Leon, pedindo ajuda. O rato o encarou, incentivando-o.
- Você ouviu o que eu perguntei? O que exatamente vc veio fazer aqui? - Disse Débora, com uma expressão irritada.
- Eu… -Sirius engoliu em seco. - Ah, eu vim te entregar, ahn, vim entregar essas flores… E, ah… Dizer que você é muito bonita… - O jovem rato parou, feliz por ter dito o que queria.
A expressão de Débora se iluminou.
- Ah, obrigada! Eu, ahn… - Amanda a olhou, com uma expressão irritada… - Depois a gente se fala, ok? -Disse ela, olhando sugestivamente para Amanda.
- A gente se vê…
O jovem rato voltou, feliz, para sua mesa, onde foi recebido alegremente por Leon. Débora ficou em silêncio. Ela havia visto algo, no fundo dos olhos daquele jovem. Sim… Ela também estava apaixonada.
Os dois jovens pombinhos (Ou seriam morcegos? -q) deixaram a mesa e foram em direção aos campos de treinamento com os melhores amigos, um pensando no outro.

Amigos e inimigos

No campo de treinamento, o Comandante Scoutt disse que hoje treinariam o transporte de queijos de novo, coisa básica. Cada um dos ratos recebeu um queijo cheddar, razoavelmente leve, para começar. Deveriam ficar em duplas e carregá-los por um pequeno bootcamp. O Comandante sempre os colocava em duplas. Ele dizia que isso reforçava o espírito de equipe e a amizade entre companheiros. Mas, desta vez, ao invés de deixá-los escolher, resolveu fazer diferente. Sorteariam os parceiros. Sirius e Leon se encararam, tensos. Nunca haviam feito nenhum exercício separados. O Comandante frequentemente os chamava de Dupla Dinâmica ou Inseparáveis. Mas não havia tempo para divagações, como dizia Scoutt. Os nomes já estavam sendo sorteados.
- Finsantos e Mateus.
- Tainara e Lukas.
- Quiquicp e Leon.
- Sirius e Cheese.
Tendo dividido todos as duplas, os parceiros pegaram os queijos e foram para linha de largada. Sirius encarou o seu parceiro. Ele era um rato alto e claro. Tinha orelhas e focinho que pareciam ser grandes demais para o rosto e os pequenos olhos escuros e penetrantes. Ele não parecia estar feliz de estar ali. Pensando bem, Sirius nunca o havia visto com amigos, sempre sozinho, com cara de poucos amigos. Uma vez, andando pelos campos de treinamento, o vira batendo num pequeno rato. Talvez ele fosse o valentão da turma ou algo assim. Sirius não gostava de ficar preso a esse tipo de rato com correntes cor-de-rosa. E, de repente, o apito do Comandante cortou esses pensamentos.

Desaparecidos
Correr é a essência de um rato. Quando eles correm, ficam graciosos de repente. As orelhas se colam ao crânio e o focinho aponta para frente, dando uma forma aerodinâmica ao rosto, fazendo-o cortar o ar antes do ratpassar como um relâmpago. As patas, antes desajeitadas, se tornam rápidas e potentes, quase não tocando o chão quando eles voam pelos mais diferentes maps. Era desse modo que os ratos se sentiam quando corriam, até mesmo aqueles que eram chamados de noobs. Esse era o fato que levava todos a continuar tentando sempre. E, quando Sirius corria, preso ao grande rato de nome Cheese, percebeu o quanto ele corria mal. Ele realmente não parecia gostar daquilo. Sirius nunca havia visto um rato que não gostava de correr. Mas Cheese parecia ser exatamente assim. Seus passos eram desajeitados e preguiçosos. As orelhas iam abertas, diminuindo a velocidade. O jovem rato se sentiu como se tivesse um peso morto preso a ele por aquela corrente rosa. O trajeto não era muito longo, mas Sirius já estava se sentindo cansado. Ele nunca tivera um bom Wj, e os três wjs no piso trampolim que haviam feito o deixaram esgotado. Porém, o seu parceiro não parecia nada mau. Ele continuava a toda, mesmo com seus passos desajeitados e lentos. Com um sobressalto, Sirius viu que ele não tinha nem mesmo uma gota do suor. O queijo não era pesado para aquele rato. Sim, ele era mesmo muito forte. E tinha um ótimo wj. É, ele poderia não correr tão bem, mas certamente compensava isso. De repente, a linha de chegada apareceu na frente dos dois ratos. Eles estavam na frente de todos os outros. Atrás deles, Quiquicp e Leon disputavam com Tainarak e Lukas.
- Temos que acelerar e depois mudar a posição de cauda. Se formos diretamente para a direita, vamos derrapar ali e perder a posição para a Tainarak e o Lukasdoido. Rápido!- Disse Sirius.
Cheeseblazed assentiu. Ele torceu a cauda, fazendo o vento que os impulsionava perder a força, antes dele os jogar de encontro à curva na direita.
- Boa, garoto. Nós vamos ganhar!
Acelerando, os dois parceiros ultrapassaram a linha de chegada. As correntes de tom rosado se partiram imediatamente, se desintegrando antes de chegar ao chão. O Comandante os parabenizou e ambos se cumprimentaram. Tainarak e Lukas chegaram logo em seguida, acompanhados por Leon e Quiquicp. Não havia sinal de Finsantos e Pmateus. Após duas horas de espera angustiada, Scoutt mandou equipes de busca atrás dos dois. Os outros foram dispensados. Sirius e Leon jantaram juntos e conversaram sobre o dia agitado. Ambos haviam se divertido no treinamento, mas a atmosfera de preocupação ainda enchia o ar parado do refeitório. Afinal, o que havia acontecido com Finsantos e Pmateus?

Conversas no bosque congelado
Depois de jantarem, Leon foi à biblioteca da Vila e Sirius resolveu passar algum tempo com Débora. Ele deixou um bilhete escrito na sua caligrafia rabiscada na porta da cabana da duas garotas e foi para o local combinado, o bosque agora envolto em neve. Quando chegou lá, Débora já o esperava. Ambos riram.
- Você é muito rápida. -Disse ele.
- Eu me supero, de vez em quando. -Respondeu Débora, a voz ainda risonha.
- Bom saber. -Respondeu o jovem rato. Era muito fácil conversar com ela.
Ambos riram de novo. Eles trocaram algumas palavras meio tímidas e se sentaram na fina camada de neve sobre o chão.
- Sabe, eu queria saber de uma coisa que me deixou curioso desde o primeiro momento. - Disse Sirius, num tom mais suave.
- O quê, exatamente?
- Porquê vc me aceitou tão rápido? Eu achei que não gostasse de ninguém daqui. ‘Todos são uns certinhos idiotas’ -Respondeu Sirius, imitando a voz de Débora.
- Na verdade, eu gostei de você no momento que te vi. Lembra, quando o Comandante estava me dando aquela detenção.
- Eu também -Disse ele, lembrando-se.
- Na verdade, eu acho que você foi a única coisa boa que me aconteceu aqui neste lugar. E a Amanda. Claro.
- Você não queria estar aqui, não é mesmo?
- Na verdade, não. Eu vou te contar a minha história.
“Eu nasci num bando enorme de ratos. Eu não lembro bem o nome do grupo, mas o intuito principal era não sermos percebidos por ninguém. Andávamos sempre disfarçados ou camuflados e roubávamos se queríamos comer. Não era uma vida fácil nem mesmo boa, mas era o suficiente. Todos tinham suas funções no grupo, sabe, e as ratas eram consideradas fracas e inúteis. Eu queria provar o contrário. Aparei meu pêlo e minhas unhas para ficar parecida com um macho. Não sei se eu estava convincente, mas de qualquer modo me deixaram alistar no exército. Nós entramos em guerra contra outro clã que vivia escondido como o nosso e havia adentrado nosso território. Eu matei três ratos e feri outros três. Virei uma lenda entre meus companheiros do exército, que agora já sabiam que eu era fêmea. Voltamos vitoriosos para o nosso bando. Mas eu fui repreendida pelo Shaman e exilada, por enganá-lo. -Ela fez uma pausa- Mas depois disso as fêmeas ficaram estimuladas a agir também. Hoje o meu antigo clã é feliz. Os ratos vivem com igualdade. Mas eu não poderia voltar nem se quisesse. A decisão do Shaman é irrevogável. Eu os espionei por muito tempo para saber o que houve após minha saída. Mas tinha que saber o que fazer com a minha vida. Resolvi treinar técnicas de luta e auto defesa, escalar paredes íngremes e correr mais rápido. O Comandante acabou me descobrindo. Ele me chamou para cá, e eu não quis vir. O Shaman conversou comigo longamente. Foi assim que eu me decidi, embora não quisesse realmente vir para cá. Acho que aquele cara consegue controlar a mente dos outros” -Disse ela, rindo.
- Então foi assim que você veio parar aqui?
- É. -Débora fez uma careta.
- O que foi?
- Não devia ter contado tanto para você. Sabe, vc é muito bonitinho e tudo, mas eu não sei se confio em você. Acabamos de nos conhecer.
- Digamos que foi uma amor à primeira vista.
- Deixe de ser idiota.
- Esqueça. Por quê não confia em mim?
- Eu fui criada para não confiar em ninguém.
- Ah… Sabe, é melhor a gente voltar para os nossos quartos. O Comandante vai nos matar.
- Eu estou começando a achar que você é mais um daqueles ratinhos certinhos e nojentos.
- E eu estou começando a achar que você é uma rebelde metida a besta.
- Cale a boca.
- Vamos logo para casa - Respondeu Sirius, afinal, rindo, assim como Débora.
E eles voltaram juntos para as cabanas cobertas de neve.

Traição?
Débora se despediu de Sirius no meio do caminho para a cabana, onde os caminhos dos dois se dividiam. Ela foi para a cabana pensando nele. Ele parecia realmente apaixonado, mas será que valia a pena fingir com aquele rato? Sim, ela tinha que tentar. O que diria seu mestre? Se aproxime de todos os ratos que puder, dissera ele. Consiga informações sobre o inimigo. Mas dessa vez era diferente. Ela sentia alguma coisa por ele. Quem sabe algum amor?
- Não! -Pensou Débora consigo mesma. -Eu não posso ser fraca! Meu coração deve ser uma pedra, como o mestre nos ensinou.
Mas pensamentos não paravam de invadir sua mente. E Amanda? Ela certamente era sua amiga. Não podia traí-la. Não. Ia traí-la, sim, como mandava o mestre.
E, com esses pensamentos, continuou a estrada longa e sinuosa até sua cabana.
O dia seguinte amanheceu claro e sem nuvens. Os ratos saíram felizes das cabanas para o café da manhã. Naquele dia, Quiquicp e Cheeseblazed estavam sentados à mesa de Sirius e Leon também. Assim como Amanda e Débora. Quiquicp era o artista do pequeno grupo de amigos. Adorava música clássica e escrevia Haicais no seu tempo livre. Ele tinha naturalidade italiana e não falava português fluentemente, às vezes soltando uma ou duas palavras em sua língua natal. Quando se sentaram à mesa, todos já haviam chegado, e os cumprimentaram.
- Buon Giorno! Disse Quiquicp, fazendo sinal para se sentarem.
- Hello! Disseram Débora e Amanda, em uníssono. Cheeseblazed permaneceu calado. Ele não estava aacostumado a viver em grupo.
- Falaew, todo mundo na nossa mesa hoje? Perguntou Sirius.
- Podscrer, resolvemos unir a galera. Disse Amanda. Ela parecia não parar de olhar para Cheeseblazed, que retribuía o olhar. Leon parecia ficar nervoso perto dela.
- Cosí, o que temos para comer hoje? Perguntou Quiquicp.
- Vamos ver… Disse Sirius. O grupo foi até o lugar onde as refeições eram distribuídas. Débora ficou na mesa, alegando não estar com fome. Amanda se demorou um pouco amarrando os sapatos e percebeu que a amiga estava falando com alguém por algum tipo de comunicador invisível ou pequeno demais.
- Mestre, eu já tenho informações sobre quase todos. Reuní os que faltam. Será fácil a partir de agora.
Amanda aguçou a audição. Por alguma razão, queria saber o que a amiga estava dizendo. Parecia muito importante.
- Sim, eu tenho certeza de que é ele. O filho dos dois Indomáveis será precioso em nossa coleção, mestre. Obrigada, mestre.
Nesse momento, o grupo voltou, rindo e conversando. Apenas Cheeseblazed notou que Amanda pareceu pálida durante toda a refeição. Ele a seguiu até a cabana dela e perguntou o que havia acontecido. Amanda contou tudo a ele
- Mas eu não posso contar ao Comandante, Cheese, ela é minha melhor amiga!
- Não importa, isso pode ser realmente importante.
- Eu não posso decepcioná-la assim.
O casal continuou a discussão acalorada, sem perceber que Débora ouvia tudo, escondida atrás da cabana. A sombra de Débora deslizou para dentro e o som da porta batendo se espalhou pela noite.

O que há com Amanda?
Amanda ficou realmente mal nos dias que se seguiram. Ela começou a deixá-los preocupados quando parou de ir aos treinos (deixando o Comandante furioso) e se recusava a sair com Cheese. Certo dia, quando ela não apareceu para o café da manhã e Débora foi ver o que havia acontecido, Cheeseblazed resolveu contar ao grupo o que realmente havia acontecido com ela. As reações foram as mais diversas.
- Dio mio! -Disse Quiquicp, os olhos negros arregalados de choque.
- Wow. -Disseram Sirius e Leon em uníssono.
- Eu sei. -Respondeu Cheese, consternado. -O que a gente faz?
- Isso nos deixa numa situação difícil. - Disse Sirius, o estrategista da equipe. - Não podemos entregá-la, afinal ela é nossa amiga, faz parte do grupo.
- E sua namorada. -Riu Leon.
- É, mas não faz diferença -Respondeu Sirius, corando.
- Escutem, tanto faz, o que importa é que ela pode estar participando de algo maior. Algo que vise acabar com os Cavaleiros do Queijo. Ela pode ser de uma facção inimiga, como aquelas que o Comandante nos contou. -Disse Cheeseblazed, rompendo o silêncio tenso.
- Ascoltate! - Falou Quiquicp, de repente. -Eu sei o que faremos em seguida, Sì? Abbiamo devemos aprender mais sobre esse mestre de que o Cheese falou, grazie? Assim poderemos vencê-lo.
- É uma ótima idéia. -Disse Leon- Nós temos que tentar ao máximo escutar o que ela diz.
Plano feito, os amigos se separaram para ir aos respectivos campos de treinamento. Hoje teriam aulas separadas. Quiquicp e Cheese ficaram em um campo e Sirius e Leon, no outro. Amanda e Débora estavam programadas para ficar no terceiro campo, se conseguissem chegar. Com alívio, Sirius as viu ao longe.
Hoje, cada grupo de treinamento teria um líder diferente. A líder de Sirius e Leon era uma velha rata chamado Cambridge. Ela tinha o pêlo quase branco, mas um branco meio amarelado. Suas orelhas pendiam, imóveis, ao lado do corpo. Ela tinha várias cicatrizes que se destacavam no pêlo esbranquiçado. Com certeza era uma Cavaleira do Queijo muito experiente. Pediu para que todos pegassem um queijo pesadíssimo e corressem com ele por alguns quilômetros até a toca ao soar o seu apito. Desta vez, era cada um por si.
PRRRRRRRRR! O apito cortou o silêncio tenso do ratos, que correram como se sua vida dependesse disso. Sirius estava emparelhado com outro rato, de nome Flash. É, o nome combinava, já que era um rato bem rápido. Sirius estava quase o ultrapassando agora. Os dois estavam emparelhados quando, de repente, um grito os assustou, fazendo-os parar. Sirius e Leon se encararam. O grito era de Débora. Sirius correu para o terceiro campo de treinamento, ignorando a voz arrastada de Cambridge o chamando de volta. Chegando ao campo, ele viu todos agrupados em volta de Débora. Ela estava presa com uma corrente rosa a um rato que Sirius lembrou vagamente se chamar Twinsanity. Esse rato estava com uma expressão assassina, os olhos vermelhos, segurando uma velha faca e usando a corrente para enforcá-la. Todos os olhavam, exasperados. Sirius sentiu um ódio jamais visto antes tomar conta dele. Ele não disse nada, apenas pulou e atacou. A corrente rosa de dissolveu e o mundo de repente virou uma confusão de pêlos e sangue. Sirius sentiu vários cortes. Ele chutou Twin no focinho e lhe deu uma chave de braço. O outro rato, armado com a espada, lhe cortou no braço e no pescoço, mas o ódio de Sirius era extremo. Ele começou a se sentir diferente. Um fogo branco começou a rodeá-lo e um cannon enorme saiu do nada, atingindo o outro rato e o jogando
longe. Quando percebeu o que estava fazendo, Sirius parou, no chão, no centro de um círculo de grama morta. Twinsanity se levantou, de repente, mas não parecia estar sendo movido por uma energia própria. Ele se ergueu até ficar fora do chão e uma voz grossa e estranha começou a sair de sua boca. Mas aquela não era a voz dele.
- AAAARGH!!! VOCÊ ME PAGARÁ, FILHO DOS INDOMÁVEIS! O SANGUE DE SEUS PAIS QUE CORRE EM SUAS VEIAS SERÁ MEU! E EU TEREI O MUNDO DOS RATOS NAS MÃOS. PREPAREM-SE INFIÉÉÉIS!
Em seguida, os olhos do rato se fecharam e ele caiu, inerte, no chão, e tudo silenciou. O Líder desse grupo, um rato quase negro chamado Jack, o levou rapidamente para a enfermaria. O Comandante Scoutt observava tudo de longe. Ele veio, pôs uma mão no ombro de Sirius, que estava parado ali, tremendo enquando percebia o que havia feito, e o levou. Uma certeza tomava conta de todos. Eles não estavam mais seguros.

Uma velha lenda
O Comandante levou Sirius para a sua sala. O rato nunca havia estado ali. Era um grande gabinete com poltronas de couro negro e estantes de madeira escura com livros sobre lutas e invocações de shaman. As grandes janelas que davam para os campos de treinamento deixavam tudo iluminado e alegre. Os dois se sentaram nas poltronas, Sirius ainda tremendo de leve. O Comandante, como sempre, foi o primeiro a falar.
- Então você conserva o poder dos Indomáveis, não é mesmo?
Sirius permaneceu calado. Ele não tinha certeza do que era isso, mas a vida dura nas ruas o ensinara a não fazer muitas perguntas, mesmo quando, como agora, elas pareciam lutar para sair.
- Imagino que você não saiba o que é isso - Tornou o Comandante, percebendo a confusão do jovem. - Na verdade, é uma lenda muito, mas muito antiga.
”Há muitos e muitos anos, diz a lenda que haviam apenas duas facções rivais de ratos. Elas se chamavam Ying e Yang, e viviam numa guerra constante e interminável. As duas facções sempre estavam em busca de novos métodos para aniquilar umas às outras. Primeiro, vieram os arcos e flechas, cada vez mais aguçados e certeiros. Depois, as armas de fogo, cada vez mais potentes. Com a primeira arma atômica, as tribos perceberam tudo o que haviam feito de errado. Os números de mortos nas duas facções superava os mil, então eles fizeram as pazes por um longo tempo. Um tempo muito feliz. Mas isso não durou. Um dia, a guerra recomeçou, por causa de pequenas discussões que vinham se acumulando a muito tempo. As duas tribos tinham armas poderosíssimas nas mãos. Mas isso não era o suficiente. A tribo Ying encontrou um baú muito antigo, provavelmente de origem maia ou asteca, mas isso não importa. Eles abriram a arca e de lá saíram dois espíritos. Ninguém nunca soube explicar exatamente como eram, mas segundo escrituras e pinturas, eles eram azuis e pareciam pequenas bolas de luz. As duas tribos tentaram usá-los nas guerras, mas eles não pareciam encontrar o seu lugar ali, naquele mundo. As pequenas bolas luminosas ficaram rondando as duas vilas. Elas consertavam os estragos nas guerras: Curavam os feridos, reconstruíam as construções destruídas, tornavam os soldados fores novamente. Mas elas não pareciam satisfeitas, procurando, interminavelmente, por algo. Porém, aqueles espíritos, sem perceberem, acabaram dando início a um protesto entre os ratos das duas facções, para acabar com a guerra. Os ratos que haviam perdido casas, parentes e amigos, resolveram sair às ruas para um protesto público. Isso não agradou nada os governantes de ambas as facções, que se reuniram para um congresso em trégua. Uma única coisa estava em acordo: Eles deveriam acabar com aquilo, fosse matando o povo ou não. Os soldados saíram as ruas para espantar os protestantes, sem resultado. Os dois governantes das tribos se entreolharam: Deveriam acabar com aquilo imediatamente. Eles encararam os soldados e fizeram o gesto com o polegar para baixo. Os soldados começaram a matar todos os que protestavam. As duas luzes estavam passando por ali naquele minuto e isso as irritou profundamente. Elas invocaram cannons e anvil-gods absolutamente gigantescos para interromper aquela batalha injusta. E tudo cessou. Mas os dois governantes tinham agora uma única idéia na cabeça: Domar as duas pequenas bolas de energia, as esferas de luz. Fazê-las trabalhar para eles.
Por muito tempo eles tentaram. Mandaram os melhores soldados, as melhores armas, mas nada adiantou. As esferas eram indomáveis. E foi assim que ficaram conhecidas: Os Espíritos indomáveis. Muitos anos se passaram. Os dois espíritos de luz sempre continuaram com o nosso povo. Sirius, nós descendemos dos Yings. Ninguém sabe o que houve com os Yangs, mas isso não é importante. O que importa, é que os Espíritos permaneceram conosco por toda a nossa história. Mas houve um tempo em que eles começaram a ficar agitados. Voavam por todos os lados, causando pequenos furacões e fazendo vulcões entrarem em erupção de um dia para o outro. Era a época do nascimento dos seus pais. Na primavera, sua mãe nasceu, filha de uma família pobre da Vila. Depois, no Inverno, seu pai nasceu. Os dois eram muito quietos e não pareciam reagir a nenhum tipo de coisa. Era como se não tivessem alma. Então, numa noite, os Espíritos entraram dentro deles. Sirius, eles foram os ratos mais poderosos de todo o mundo. E então você nasceu. Você, filho, tem o poder dos Espíritos Indomáveis. Poderá ser o rato mais poderoso do mundo.”
Sirius estava absolutamente sem fala. Olhou para as próprias mãos, queimadas pelo poder que lançara. Ele de repente percebeu que era mais poderoso do que sempre pensara que fora, e um fogo pareceu rugir em seus ouvidos. O Comandante o olhou com admiração. Ele estava ótimo.

Alta
Os dias que se seguiram foram tensos. Sirius, Leon, Quiquicp, Amanda e Cheese visitavam Débora e Twin na enfermaria diariamente. O rato, que descobriram ter sido possuído por um espírito maligno, era na verdade muito otimista e extremamente cortês. Os amigos haviam confessado saber de tudo o que estava havendo com Débora para Amanda, portanto ela estava bem melhor. Mas a situação de Débora não era nada boa. Os danos eram maiores do que pareceram na hora, mas os médicos eram otimistas. Ela provavelmente receberia alta em alguns dias. Seus danos incluíam um corte profundo na pata e uma torção leve do pescoço. Ela estava usando vários curativos e um protetor de pescoço. Sirius costumava ir até a enfermaria fora do horário de aulas para vê-la. Eles conversavam longamente, mas o assunto nunca nem chegava perto do tão misterioso “mestre”. Ele se perguntava se Débora realmente trairia-os. A rata, na verdade, estava escondendo um conflito interior intenso. Quando não havia ninguém por perto, ela pensava se aquilo realmente valia a pena. Ela poderia trair os amigos, que estavam tão unidos agora, e se mostraram tão preocupados com ela? Trair Sirius, que parecia realmente amá-la, embora ela não sentisse exatamente o mesmo por ele? E o poder que ele demonstrara ao salvá-la? Era incrível! Quem sabe não precisasse traí-[I]los[/I]. Quem sabe pudesse trazê-los para o lado do mestre? De qualquer modo, a ideia não lhe agradava. E a rata permanecia imersa nos próprios pensamentos.
Quando deram alta a Débora, já haviam se passado 8 dias. Twin havia sido liberado 48 horas antes. Ela fez uma surpresa aos amigos aparecendo no jantar. Agora Twinsanity também estava comendo com eles.
- Aaah, então a Débora voltou! -Disse Leon, saudando-a.
- Seja bem vinda, senhora. -Saudou-a Twinsanity, sempre cortês.
- Buon giorno, princepessa. -Falou Quiquicp, no seu sotaque italiano de sempre.
- Olá. - Disse Cheese, reservado.
Sirius não disse nada, apenas levantou e fez um gesto para que Débora o seguisse. Os seus olhos já informavam tudo o que a rata precisava saber. De repente, uma certeza a tomou. Eles sabiam.

A Missão
Os amigos ficaram sentados, à mesa do refeitório, num silêncio tenso. Quando Sirius e Débora chegaram, os olhos de Sirius diziam que ele não estava a fim de conversar. Débora parecia ter chorado. Todos estavam curiosos, mas a expressão dos amigos era tão triste que ninguém fez perguntas. Lentamente, sem se olhar, todos foram para as suas cabanas. Na manhã seguinte, todos os futuros Cavaleiros do Queijo da mesma equipe de treinamento dos amigos foram acordados bem cedo pela corneta, mais cedo do que a maioria dos dias. Eles foram agrupados no centro do pátio principal. O grupo rapidamente se encontrou. O Comandante Scoutt parecia querer dizer algo importante. Ele ligou o microfone, fazendo um barulho que machucou as orelhas sensíveis dos ratos. Após alguns ajustes, o Comandante falou para todos os presentes.
- Olá, ratos. Fico feliz em ver que não relutaram em acordar às 4 horas da manhã para me ouvir falar. -Ouviram-se risadas entre os ratos presentes- Pois bem. Eu os trouxe aqui para dizer, com orgulho, que vocês participarão da sua primeira missão! - Os ratos do grupo vibraram- Essa missão é simples. Vocês terão que espionar duas famílias humana que mora não muito longe da Vila. Queremos saber se eles são perigosos e, se sim, queremos saber se estão com algum rato em seu poder. Se fazem experiências. Ou se mantêm uma máquina mortífera que costumamos chamar de Gato. Ajam com discrição e não serão percebidos. Separaremos vocês em dois grupos, Alpha e Beta. O grupo Alpha contêm os seguintes ratos:
-Sirius
-Leon
-Quiquicp
-Débora
-Amanda
-Twinsanity
-Cheeseblazed.
-Vocês têm 24 horas para arrumar as malas e se preparar psicologicamente. Boa sorte.
Disse o Comandante, acenando para eles com a mão cheia de cicatrizes.
Depois, ele começou a ditar os nomes do grupo Beta, mas os amigos nem se importaram, tamanha era a sua felicidade por finalmente estarem prontos para uma missão, mesmo que ela fosse, segundo o comandante, de nível baixo e muito simples. Depois, eles foram para as suas cabanas arrumar sua bagagem. Sirius nunca tivera muita coisa, então pôs na mala surrada apenas sua velha adaga e umas roupas. Levou também seu cantil de água. Leon levava apenas sua pequena espada e algumas roupas. Os ratos estavam felizes, esperando o dia seguinte, quando poderiam ir rumo aos humanos. Sirius adormeceu pensando nas tais criaturas estranhas e, ao mesmo tempo, fascinantes, os humanos.

Capturado
Os ratos viajaram por dois longos dias. Na primeira noite, dormiram embaixo das raízes de uma grande árvore. No dia seguinte, Leon acordou com um enorme barulho em cima de alguns galhos. Ele olhou para cima e o que viu foi aterrador. Era um enorme pássaro negro. Um corvo, com um bico pontudo e olhos brilhantes e astuciosos. Ele o encarou atentamente. Leon raciocinou rápido. Se gritasse, provavelmente atrairia mais ainda a atenção do pássaro. Se corresse para o esconderijo, o animal iria atrás dele e encontraria seus amigos. Então, num movimento rápido, desenhou, com a cauda, um pequeno pássaro no chão. Os amigos saberiam o que acontecera. Mas a missão era mais importante do que se salvar, então Leon foi levado pelo monstro.
Voar pelas garras do terrível pássaro não era tão ruim. Uma estranha sensação de liberdade se espalhava pelo corpo do pequeno rato. Eles avançavam velozmente. Finalmente, chegaram a uma grande árvore cujos galhos estavam repletos de folhas verdes e saudáveis. Em meio a essas folhas, estava um enorme ninho feito com palhas, folhas, e diferentes tipos de gravetos. Dentro do ninho… Bem, acho que podemos dizer que Leon nunca vira nada tão feio na vida. Eram dois pequenos animais rosados e quase pelados. Sua pele só era revestida por uma fina camada de penugem negra, como a da mãe, que carregava Leon naquele mesmo instante. Os bicos cor de rosa e afiados gritavam por comida. Seus olhos estavam obscurecidos por uma capa cor-de-pele. Mesmo assim, pareciam encarar Leon com um brilho faminto. Ele sentiu o medo tomar conta dele. Talvez aquela fosse a sua última visão. Leon pensou na sua vida curta, e nos seus amigos, que provavelmente já haviam notado a sua falta. “E assim fechamos o ciclo” Pensou ele, enquanto sentia a mãe corvo soltá-lo e caía em direção aos bicos famintos da morte.
No esconderijo, Twinsanity acordou antes dos outros. Ele estava habituado a acordar cedo. O jovem rato foi até a entrada do lugar suavemente, para não acordar os outros, e registrou que não havia nenhum perigo. Ele inspirou. Nada que os ameaçasse. Seu focinho bem-treinado rapidamente registrou os cheiros de Sirius, Débora, Amanda, Cheeseblazed e Quiquicp. Espera. Só isso? Ele inspirou de novo, com força. Sirius, Débora, Amanda, Cheeseblazed e Quiquicp. Ele inspirou mais uma vez e espirrou. Onde estava Leon? Rapidamente Twin acordou todos os outros. Sirius ficou em choque. Ele farejou o ar da mesma forma que Twinsanity, procurando o melhor amigo. Finalmente, achou uma suave trilha de cheiro que levava a um pequeno desenho no chão.
Era um minúsculo corvo.
O jovem rato ficou desesperado. Ele chamou os outros e todos analisaram o desenho. Era um sinal claro de captura por pássaro. Eles haviam estudado isso na Academia. Para os Cavaleiros do Queijo, haviam diversos símbolos: Um lobo, para o caso de captura por animais selvagens, um corvo, para a captura por pássaros, e um boneco palito, para a captura por pessoas. Se morriam, desenhavam uma pequena cruz. O intuito desses símbolos era outros ratos saberem o que acontecera ao desenhista e poderem ajudar. Mas o Grupo ficou vidrado no desenho do corvo, porque no peito do animal havia uma minúscula cruz. Leon se fora.

O Choque
Sirius congelou. Ele não conseguia se forçar a pensar no inevitável. Soluços abriram caminho por seu peito. Ele finalmente compreendera, e a verdade caía sobre ele furiosamente. Débora se sentou ao seu lado e, cautelosamente, pôs uma pata em seu ombro.
- Sirius, calma. Não é sua culpa. Poderia acontecer com qualquer um de nós.
Sirius começou a tremer violentamente, e quando falou, sua voz saiu como um grito de raiva.
- NÃO! VOCÊS NÃO ENTENDEM, NÃO É MESMO?
Débora se afastou dele como se houvesse levado um choque. Nenhum dos parceiros nunca o havia visto explodir. Sirius os olhou, e seu olhar era feroz como o de um animal selvagem.
- Não se lembram da profecia? -Disse ele, com a voz fria e distante. - Perderá um amigo na reta final.- Então, a sua voz ficou sombria, cheia de pesar e fúria. - Ele já sabia que ia morrer! Ele sabia! Foi o primeiro a saber da profecia, e sabia que seria ele! Mas ele veio! Sabendo do que aconteceria. Eu já deveria saber! A culpa é minha! - As palavras saíram num rosnado de fúria- E eu vou achá-lo, ou o que sobrou dele- Sirius tremeu- nem que seja a última coisa que eu faça!
E o jovem rato se embrenhou na floresta obscura, com o focinho para cima. Os últimos resquícios do valente e digno rato chamado Leon desapareciam no ar, mas Sirius não podia desistir. O ódio que crescia dentro dele o impelia para frente, farejando o ar. Ele sentia o odor do amigo misturado com um terrível cheiro de corvo. Ele corria sem pensar. Sabia que, se pensasse, o luto o invadiria novamente e o peso da culpa o derrubaria. Ele tinha que continuar correndo. As árvores formavam uma parede escura dos dois lados, enquanto o rato passava com um relâmpago pela mata obscura. Ele podia ouvir os amigos correndo atrás dele. Irritado, correu mais rápido, desviando das árvores no caminho. De repente, tudo ficou claro e as árvores foram deixadas para trás. Sirius sentiu o cheiro do amigo ficar mais forte em cima de uma árvore. Ele não ousou se aproximar. Em cima dessa árvore, havia um enorme ninho de corvos. Os outros ratos finalmente o alcançaram.
Quiquicp não parecia estar prestando atenção em Sirius. Ele encarava alguma coisa à direita de onde estavam.
- Dio mio.- Disse ele, em voz baixa.
Os outros ratos olharam para a mesma direção que ele. Uma enorme casa humana se erguia, no horizonte.

O Bilhete
- Nós chegamos. -Disse Cheeseblazed.
Sirius o encarou. Ele não conseguia pôr o que sentia em palavras, então se afastou. Seu olhar já dizia tudo aos outros ratos. Ele chegou perto de uma árvore e se sentou. Perguntas sem respostas enchiam sua mente. Leon havia recebido a Profecia antes de todos. Segundo ele, os seus pais haviam aparecido para lhe falarem. Sirius se lembrou da tristeza do amigo ao citar a profecia, no hospital. “Ele já sabia” Pensou o rato. Leon sabia da sua morte desde o início. O rato destemido fora para a missão sabendo do que aconteceria com ele. Sirius se lembrou das palavras do amigo.
“Sabe, cara, no hospital eu te disse que havia visto os meus pais. Mas eu os vi num lugar terrível. Eles pareciam estar presos por correntes invisíveis. E eles me acusaram de ser o culpado de tudo. Eles disseram que eu deveria achar uma forma de reverter o que eu havia feito. E, em seguida, disseram uma profecia. Sirius, eu nunca vou me esquecer disso. Foi horrível.” Ele fizera o que deveria ter feito. Recompensara os pais e revertera o que, de alguma forma, era sua culpa. Leon se conformara. Finalmente libertara os pais, dando sua vida pela vida deles. O seu propósito fora cumprido. Sirius sentiu um calafrio ao se lembrar da voz do amigo. De repente, o corvo pousou perto do jovem rato. Sirius se retesou, pronto para atacar, mas a ave apenas deixou cair um bilhete próximo ao rato. Ela o olhou, com pena, e saiu, voando. O rato rapidamente pegou o bilhete que caíra aos seus pés. Ele reconheceria esse cheiro em qualquer lugar. Era o cheiro do amigo.
O bilhete era de Leon.

O Herói
Sirius cautelosamente abriu o papel meio amassado. Ele leu atentamente.
“Caro Sirius;
Sei que há muito estarei morto quando ler isso, mas quero que saiba que a culpa sobre minha morte é total e completamente minha.
Eu lhe disse, no hospital, que havia visto meus pais, gritando por socorro. Eles me imploraram que os salvasse.
Bem, por muito tempo meditei sobre isso. Eles diziam: Uma alma por uma alma. E foi o que eu fiz. Por muito tempo temi minha própria morte. A morte é sempre um mistério, como a noite. No entanto, o amor que eu nutria pelos meus pais era maior do que meu medo, então resolvi que morrer por uma causa nobre era a melhor forma de partir. A sensação dos braços da minha mãe em volta de mim voltou à minha mente e eu senti uma grande tristeza me envolver ao pensar em nunca mais vê-la. Decidi o meu futuro. Eu sabia que morreria na nossa primeira missão. Você já deve ter entendido tudo. Sempre admirei sua capacidade de raciocínio. Mas vc, Sirius, não entenderia minhas escolhas. Sofreria com elas. Eu senti um aperto no coração em pensar em todos lamentando a minha morte. Ela não é triste. A morte é nada mais do que um recomeço, para mim. Mas isso não é tudo que eu tenho a dizer, resumir, em poucas palavras, nessa minha última carta, que os meus pais me garantiram ser entregue de alguma forma. Podemos chamar de últimas palavras as que eu direi agora, mas é apenas o que posso dizer. Não me permitem falar muito mais, mas isso é importante.
Sirius, você não é o herói.”
E, com esse dito misterioso, a carta acabava. Sirius se sentiu muito melhor de repente, e percebeu que na verdade era isso que o amigo queria. Mas o final misterioso do bilhete o intrigava. Ele não era o herói.
Leon seria o herói? Ou algum dos seus amigos? As perguntas sem respostas novamente enchiam sua mente.
O jovem rato sabia que, se ficasse pensativo por muito tempo, aquela mesma dor lancinante voltaria e o pesar ameaçaria esmagá-lo. Carrancudo, se obrigou a se levantar e voltar para onde estavam os amigos. Mas o mesmo pensamento ainda estava em sua mente.
Afinal, se não era ele o herói, quem seria?

Sirius está de volta
Sirius seguiu, a meio passo, para a clareira onde se encontravam os amigos. Débora falava no comunicador com o Comandante. Estava no viva-voz e todos ouviam também.
- O Sirius está bem? -Perguntou Scoutt.
- Na verdade, eu não tenho certeza. Estamos preocupados. Ele foi atrás do… corpo. -Débora estremeceu.- Mas provavelmente Leon foi… Ele foi devorado inteiro. -Nesse ponto, todos os amigos sentiram um calafrio descer pela espinha.- Mas o Sirius está muito triste, certamente. Parece realmente mal.
- É realmente uma pena. Leon era um rato muito bom e um Calaveiro muito promissor. Mas não podemos vencer as profecias. Apenas temos que aceitar nosso destino e seguí-las. Foi o que Leon fez.
Sirius neste momento chegou na clareira. Débora fez um gesto para ele se aproximar e passou o comunicador para o rato.
- Sirius?-Perguntou a voz rouca do Comandante Scoutt, do outro lado.
- Sim. -Disse o rato, com uma voz mortiça.
- Rapaz. Tenha calma. As profecias são derradeiras. Apenas aceite o que aconteceu.
- Hum. -Respondeu o rato, desejando ter forças para responder algo mais interessante.
- Escute. Eu vou mandar o grupo Beta para aí. Eles vão servir de reforço para a equipe. Parece que as nossas informações estavam erradas. Não há mais nenhuma casa no perímetro. Eles chegarão em dois dias.
- Sim, senhor. -Disse Sirius com voz grave. - Ficaremos honrados de recebê-los.
- Ah, e Sirius -Respondeu o Comandante - Concentre-se na missão. Leon sabia o que estava fazendo, ok? Câmbio, desligo.
Sirius passou o comunicador a Débora, desanimado. “Okay.” Pensou ele. “Então é assim que vai ser.”
- A Equipe Beta estará aqui em dois dias. E nós estaremos prontos, ok? -Disse ele, olhando para cada um dos amigos com ferocidade. -Nós vamos honrar o Leon. Ele vai se orgulhar!- Rosnou o rato. -Quem está comigo?
O grupo se entreolhou e aplaudiu, com alegria. Sirius estava de volta.

O Plano
Os dois longos dias de espera se arrastaram, mas passaram. Finalmente, no terceiro dia o grupo Beta chegou. Vovohnaia, Louizx, Tainarak, Lukasdoido, Nedlemouse e Thefernand surgiram no horizonte pela manhã.
Os dois grupos se cumprimentaram alegremente, com abraços e apertos de mão. Mas era chegada a hora de fazer um plano de invasão. Deveriam entrar na casa humana sem serem percebidos pelos moradores. Além disso fora avistado um terrível animal peludo, com orelhas pontudas e bigodes. Era o tão temido gato. Deveriam arrumar uma maneira de evitá-lo. Os humanos que ali viviam eram principalmente adultos, mas havia duas crianças. Uma fêmea e um macho da espécie, que costumavam brincar no quintal com o tal gato. Os adultos raramente saíam, mas, quando foram vistos, ao longo dos vários dias de acampamento do grupo Alpha, pareciam ser os deploráveis cientistas. O seu cheiro fedia a substâncias químicas e a outros ratos. O cheiro dos ratos lembrava alguma coisa ao grupo, mas nenhum dos ratos conseguia identificá-lo. Havia dois homens e uma mulher. Essa parecia ser mais inteligente que os outros, mas suas roupas cheiravam ao gato e às crianças. Ela estava em constante discussão com os outros. Todos esses fatores deveriam ser levados em conta pelos Cavaleiros ao entrarem na casa. Os grupos de ratos deliberaram longamente. Tainarak era a favor de entrarem pela chaminé da casa. Lukas e Thefernand a apoiavam, mas isso poderia comprometer os ratos, afinal uma fumaça saía constantemente sali, indicando fogo. Amanda, Nedlemouse e Louizx supunham que todos deveriam escalar o lado da casa e entrar por uma das janelas. Os outros achavam que deveriam entrar pelos fundos.
Enfim o plano de invasão foi terminado. Os comunicadores foram distribuídos a todos:
Tainarak, Amanda e Twin entrariam por uma das janelas. Eles eram os menores do grupo. Assim, poderiam se infiltrar e abrir a porta do fundo para os outros. Um grupo composto dos ratos mais ágeis seguraria o gato longe da casa enquanto isso. Sirius, Nedlemouse e Louizx se encarregariam disso. Assim que estivessem com ele numa distância segura, se comunicariam com o terceiro grupo: Lukas, Thefernand e Cheese, os mais fortes, que já estariam posicionados estrategicamente perto da suposta “prisão” dos ratos. Eles levariam os feridos e os desmaiados. Talvez também os mortos, se existissem. Eles sairiam pelo mesmo local pelo qual tinham entrado. O último grupo, Débora, Vovohnaia e Quiquicp, roubariam amostras de experimentos e coisas assim, além de atuar como médicos na possível batalha. Se houvesse luta, Sirius, Nedle e Louizx também participariam. O plano supostamente era a prova de falhas. Mas isso não deixava os ratos menos tensos. O que aconteceria no dia seguinte? Morte e glória povoavam suas mentes.

A Invasão
O Plano foi executado fielmente naquela noite. Twin, Amanda e Tainarak rapidamente se infiltraram na casa e abriram a porta, trancada por dentro. Débora, Vovohnaia, Quiquicp, Lukas, Thefernand e Cheese assumiram suas posições, prontos para entrar assim que recebessem o sinal. E então o grupo cuja missão talvez fosse a mais arriscada se preparou para agir. Sirius fez sinal para Nedle e Louizx virem atrás dele. Se escondendo nas sombras da casa escura, eles seguiram o cheiro do animal, um terrível cheiro de atum e de sangue. O gato ressonava numa confortável cesta, na sala. A visão era aterradora. A boca, entreaberta, possibilitava aos amigos verem gigantescos dentes brancos e pontiagudos. Os ratos sentiram um calafrio. Sirius olhou para todos como se disesse boa-sorte. Eles sabiam o que tinham de fazer. Ned se aproximou do gato e puxou seus bigodes. Os olhos verdes quase fosforecentes do animal se abriram num átimo. Ele deu um silvo de raiva que fez os pêlos dos ratos se levantarem. De um salto, o bichano se levantou e suas enormes patas com garras afiadas como facas de cobre começaram a perseguir os amigos. O propósito deles estava cumprido. Saíram correndo a toda a velocidade e logo estavam do lado de fora, com o felino nos seus calcanhares. Rapidamente, Louizx fez uma curva para a direita e Sirius para a esquerda, confundindo o bicho. Então foi a vez de Nedlemouse se esconder atrás de uma árvore antes que o animal pudesse se recompôr. Conforme combinado, Sirius e Louizx esperaram o sinal de Nedle para pular das árvores de onde estavam diretamente para o lombo do felino. Eles o amarraram com cordas enquanto ele esperneava, e finalmente conseguiram prendê-lo. Os três olharam para a terrível fera, agora domada, que silvava, raivoso, sob as cordas. Sirius pôs uma pata no seu focinho.
- Você desiste? -Perguntou ele, calmamente, para a terrível criatura.
O animal piscou. De repente, seus olhos ficaram dóceis. A fera desapareceu. Agora ele era apenas um bicho de estimação. Eles tinham alcançado o seu objetivo. Louizx ligou o rádio e eles deram o sinal. Era chegada a hora da esquadrilha de busca e resgate fazer o seu trabalho.
Lukas, Thefernand e Cheese rapidamente se infiltraram. Pelo cheiro, Lukas identificou os ratos prisioneiros na parte oeste do casarão. Todos foram rapidamente para lá, se escondendo nas sombras e fazendo wj nas paredes quando a passagem se tornava impossível pelo chão. Inúmeras vezes o cheiro humano estava terrivelmente perto, e eles achavam outra rota. Então, ao empurrar uma porta, eles viram algo assustador.
“Vocês…Vocês não vão acreditar…” Foi a última mensagem de Thefernand passada pelo rádio. Todos, em suas posições, esperaram por outras instruções.
Silêncio.

A sala
Os amigos passaram longos 10 minutos tentando restabelecer comunicação com o grupo de Thefernand, em vão. Finalmente, quando a tensão os venceu, Sirius tomou a palavra e disse o que todos já esperavam.
- Nós temos que prosseguir. Eu, Nedle e Louizx vamos assumir as posições. Não podemos parar com a missão. Não agora.
- Mas… E o Lukas? O Cheese? O Thefernand? Não podemos abandoná-los. -Disse Tainarak, quase em pânico.
- Não podemos abandonar a missão. Ela é mais importante. -Sirius respondeu, no mesmo tom frio que assumira a pouco tempo, tão conhecido pelo grupo Alpha.- Nós temos que acabar a missão, salvar o máximo de ratos possível e dar o fora daqui antes que os humanos nos peguem, ok?
- Nós temos que salvá-los! -Sussurrou Vovohnaia. -A missão não interessa.
- Não interessa? -Rosnou Sirius- Não interessa?- CLARO QUE INTERESSA!- A voz raivosa do rato estourou nos comunicadores dos outros.- Então o que nós passamos até agora não interessa? Leon morreu.- A voz tremulou- E nós vamos continuar essa missão, nem que seja a última coisa que façamos. Vocês entenderam bem? Estamos indo para nossas posições. -A voz do rato assumia o mesmo tom frio e determinado. -Câmbio desligo.
Minutos mais tarde, a missão recomeçava. Segundo Sirius, dois grupos deveriam assumir posição em frente à enigmática porta. Débora, Vovohnaia e Quiquicp se posicionaram ali. O intuito era que um grupo entrasse e o outro desse o alerta aos outros, caso houvesse alguma complicação. Twin, Amanda e Tainarak esperavam para afastar algum possível risco.
Louizx parou em frente à porta. Ele encarou os companheiros. Talvez nunca mais os visse. Talvez morressem naquela noite. Não importava naquele momento. Num único gesto, abriu-a.
Os amigos poderiam descrever a seguinte cena de várias maneiras. Mais tarde, Nedle chegou mesmo a dizer que foi terrivelmente perturbador. Sirius comparou-a à visão do rosto do Monstro do Lago. Louizx nunca mais quis falar sobre o assunto.
Em frente aos amigos, uma sala muito escura. Em tubos posicionados lado a lado, ratos boiavam, em estado vegetativo, num líquido verde-fosforecente e brilhante. Mas Sirius, Louizx e Nedlemouse não repararam nisso, pois o que viam era horrível. Cada rato parecia ter uma anomalia maior que a do próximo. Alguns tinham três ou mais olhos. Alguns tinham vários braços. Um dos ratos chegava mesmo a ter duas cabeças. No meio do ambiente insalubre, uma mesa clara de alumínio se destacava, nas sombras. Debruçado sobre ela, estava um Homem adulto, de avental branco, com manchas vermelhas, que lembravam aos ratos manchas de sangue. Na mesa, dois ratos se debatiam, aparentando uma dor terrível. Eles estavam molhados com o líquido verde.
Uma lembrança ancestral despertou no cérebro dos amigos. Eram Pmateus e Finsantos. Os ratos que tinham desaparecido da Academia, há tanto tempo atrás.

Alguém conhecido
O primeiro impulso foi se esconder.
Eles rapidamente entraram atrás de um dos tubos. Esperaram calmamente o cientista sair da sala. Então, montaram a formação mais simples de resgate: Alpha-4. Sirius e Louizx correram para a mesa e escalaram-na. Enquanto isso Nedle prestava atenção a uma possível movimentação que representasse a chegada do Homem.
Sirius sentiu um espasmo de tristeza percorrê-lo. Aquela geralmente era a função de Leon, os melhores ouvidos do grupo.
A operação foi bem-sucedida e muito rápida, como pretendido. Os dois ratos em cima da mesa estavam desmaiados, tornando sua movimentação mais simples. Sirius e Nedlemouse carregaram o mais pesado, Pmateus, enquanto Louizx carregava Finsantos. Os dois foram entregados aos outros na porta. Quiquicp tinha algum conhecimento médico, então ele e Vovohnaia começaram a tratar as vítimas enquanto Débora assistia a tudo, fascinada.
Dentro da sala, o grupo agora estava num impasse. Deveriam salvar os ratos mutados? Talvez fossem perigosos, talvez fossem apenas vítimas. Louizx resolveu a questão. Salvariam os ratos que ainda pareciam ter alguma consciência. Alguns estavam imóveis: Pareciam estar mortos. Tentando não pensar nisso, ele e Sirius rapidamente subiram no alto dos tubos e puxaram para cima o rato com três olhos, um que parecia ter duas caudas e outro, que parecia estar completamente normal, sem encostar no líquido. Os outros três estavam completamente imóveis. A um exame mais atento, não pareciam ter batimentos cardíacos. As mutações deles eram muito piores. Não ouso descrevê-las aqui. Com os mutantes nos ombros os Cavaleiros correram para a porta. “Falta pouco para sairmos daqui” Pensava Sirius com alegria. Pensar em sair daquela sala terrível era mesmo reconfortante. “Vamos voltar para casa”.
De repente, um grito de Nedle cortou o silêncio.
- Alerta! Corram!
Os três amigos aceleraram em direção à porta. Sirius a fechou em tempo de ver o cientista olhando para a sua direção.
Ele os vira. O Plano tão caprichosamente elaborado fora por água abaixo.
- CORRAAAM! -Gritou ele, passando como um raio por Débora, Vovohnaia, Quiquicp e os ratos desmaiados.
O momento de atordoamento dos amigos foi quebrado pela horrível imagem do cientista de avental branco abrindo a porta atrás deles. O instinto de sobrevivência despertou em seus cérebros um medo ancestral e eles correram como nunca haviam corrido antes, nem mesmo sob as ameaças do Comandante de comer apenas moluscos por semanas. O aviso foi dado pelos comunicadores e, num átimo, todos os ratos estavam juntos, correndo para se salvarem.
Atrás, podiam ouvir as passadas enormes do Homem. Virando os corredores em alta velocidade, não perceberam o que estavam fazendo até ficarem encurralados num hall escuro e sem saída.
- Ha, ha, ha. -Riu o cientista, debochadamente.- Perderam, seres inferiores. Agora vocês servirão de cobaias para a minha mais nova experiência! Ha, ha, ha, ha, ha! -Ele soltou uma
risada maligna e cruel. Quiquicp começou a rezar. Tainarak estava quase desmaiando, sucumbindo sob o pânico. O próprio Sirius não podia mais aguentar tanta pressão. Todos pensavam que estariam perdidos.
Mas Anvil God certamente teve pena deles naquele momento.
Com um relâmpago branco, marrom e preto, uma enorme criatura parou na frente deles, silvando para o cientista.
Sirius não acreditava no que via. Era o gato. “Abençoado seja” pensou ele. O bichano o olhou carinhosamente, e então pulou em cima do Homem, visando seu rosto, miando e unhando. Todos aproveitaram o momento para dar o fora dali.
Menos uma.
Amanda parou, olhando fixamente para o gato. Ela encarou Sirius e balbuciou alguma coisa. Parecia pasma demais até mesmo para falar.
Um rosto muito conhecido a encarou, de cima do animal.
- Vão, vão, vão! -Gritou o cavaleiro do gato.
Neste momento todos pararam de correr e olharam para trás também.
Aquela voz… Eles a conheciam.
O cavaleiro do gato era Leon.

Reencontro
Sirius ficou absolutamente paralisado. Muitas emoções o tomavam. Choque, felicidade, medo, elas o perpassavam como pequenas flechas. O mundo parecia ter congelado à sua volta.
Então Débora o pegou pelo braço e o jovem rato voltou à realidade.
Correndo, ouvia os passos quase silenciosos do gato atrás deles, o que significava que Leon estava os acompanhando. Mas ,atrás do animal, percebia as passadas terrivelmente pesadas do cientista. Eles não estavam em segurança.
Finalmente, viram a porta da frente da casa, que estava entreaberta. Os amigos correram como loucos para lá.
O ar frio da noite os engolfou. Sabiam, pela audição, que o cientista já não os perseguia. Pararam, por fim, junto a um aglomerado de árvores onde tinham acampado na noite passada. Arfando, Sirius contou os amigos. Todos pareciam estar ali. Menos três. Ele sentiu um espasmo de ódio o percorrer. Mas isso não era importante no momento, e então o rato se virou para a direção do som dos passos do gato. O cavaleiro estava descendo. Ele fez carinho no animal e então seu olhar encontrou o de Sirius.
- Olá, cara. -Disse ele, sorrindo.
Foi um reencontro feliz.
Sirius não evitou as lágrimas. Ele abraçou o amigo, há tanto tempo perdido, soluçando. Então os dois se entreolharam e riram, riram como não faziam há muitos dias. Desde [I]aquele[/I] dia. E então Leon se virou para cumprimentar os outros ratos.
Todos colaboraram para montar uma fogueira. Então se sentaram em galhos grandes para conversar. A tensão havia quase abandonado o grupo. Ah! Faltava tão pouco para aquele ser um momento perfeito!
Sirius, Leon, Twinsanity, Débora, Amanda e Quiquicp se sentaram lado a lado, como costumavam fazer nos velhos tempos. Eles riram e conversaram noite adentro. Tomavam cuidado para evitar o assunto aterrador que sabiam que uma hora teria que ser discutido e conversado. Tomavam cuidado para não tocar naquele assunto que certamente só traria tristeza e lágrimas. Mas Leon foi o primeiro a tocar no assunto.
- Suponho que vcs queiram saber como eu sobrevivi, não é mesmo?
Todos o olharam com expressões espantadas. Eles não imaginavam que ele quisesse tocar no assunto.
Leon riu.
- Ah, não se preocupem comigo. Bem, foi algo realmente estranho, okay?
“Eu fui levado por aquele corvo. Na verdade, uma ‘corva’, já que era fêmea. Ela queria alimentar seus filhotes comigo. Claro, eu sabia que aconteceria, mas não estava pronto para isso ainda. Lembrei-me do bilhete que escrevera meses antes, no primeiro dia na Academia. Pensei em Sirius, em Débora, em Amanda. Quem sabe o que eles sofreriam? Bem, chegada era a hora de completar meu ciclo, enfrentar meu real destino. Quando chegamos ao ninho, simplesmente me deixei levar pela força da gravidade e caí. Mas, de repente, tudo congelou. Os pássaros famintos abaixo de mim não produziam mais nenhum som. A mãe parecia parada.’ Que estranho’, pensei. Rompendo o silêncio, uma figura se projetou diante de mim. Minha mãe! Eu a encarei maravilhado, mas seu rosto era triste. O que ela disse foi surpreendente:
- Meu filho, não é chegada a sua hora e seu destino o aguarda. Para que parta deste mundo, primeiro deverá seguir a profecia. Ouça a voz de um sábio nas montanhas, pois o que vocês conhecem não está completo.
Fique em paz.
‘Fique em paz’. Foram as últimas palavras de que me lembro. Em seguida me vi deitado na nossa velha árvore, aquela em que acampamos antes. Nada parecia ter mudado, mas vocês não estavam ali. Fiquei desesperado. Tive certeza de que tinham achado que eu morrera. Procurei meu maldito desenho. Ele ainda estava lá, mas pontuado por lágrimas. Quis me matar quando vi as lágrimas! Eu era mesmo muito idiota. E, ao lado do desenho, um bilhete. Ele estava bem dobrado e escrito com uma tinta dourada e uma caligrafia singular. As palavras eram poucas.
Sua mensagem será entregue.
E, em seguida, encontrei o gato. Ele não parecia feroz, e fiquei impressionado de ver que em seu pêlo estava o cheiro de Sirius. Facilmente treinei o bicho para que pudesse montar nele. E então Charlie me trouxe até a casa.”
- Espera. Charlie? -Perguntou Sirius, absorto na história do amigo.
- É o nome dele! -Leon respondeu, alisando o pêlo do bicho.
A roda de amigos riu. Leon realmente voltara.

A coisa
Todos perceberam uma nova felicidade em Sirius desde a volta de Leon. Ele estava otimista e aquela velha frieza e insensibilidade haviam sumido completamente. Leon e o amigo agora estavam inseparáveis. Charlie, o gato filhote que havia sido capturado, agora virara uma espécie de mascote do grupo, inclusive levando-os em seu lombo peludo. Mas nem tudo eram rosas na equipe. Amanda estava especialmente triste pela falta de Cheese. Débora estava sempre ao seu lado, consolando-a, mas nada parecia alegrá-la. Sirius, Leon e Quiquicp tentaram o mesmo, sem sucesso. Ela chorava todo o tempo e estava muito sensível. Ninguém se atrevia a falar sobre Cheese e os outros. E havia mais alguém que não parecia feliz: Twinsanity. Desde a volta de Leon ele estava carrancudo e nervoso. Pensando bem, Sirius já havia percebido que ele e o seu melhor amigo não se davam tão bem. Talvez fossem rivais ou coisa parecida. Ele não sabia. Anotou mentalmente isso para perguntar a Leon.
A oportunidade veio bem antes do que ele esperava.
À noite, enquanto procuravam alguma coisa para dar de comer a Charlie, como alguma carcaça de animal ou coisa parecida, Leon e Sirius conversavam animadamente. Eles estavam ansiosos para o dia seguinte. O Comandante dissera que mandaria uma equipe de busca e resgate de elite especializada em casos como o deles para resgatar a equipe presa na casa. Os jovens mal conseguiam imaginar como eles seriam. Esses seriam os primeiros ratos da elite que veriam em ação.
- Seria como nos ver no futuro! -Disse Sirius, animado.
Leon ficou muito quieto. Sirius então percebeu a idiotice que tinha feito. Leon talvez não tivesse futuro.
“Droga” Pensou ele.
Resolveu não falar mais no assunto.
Os amigos ficaram em silêncio por vários minutos. Sirius procurava desesperadamente algo para quebrar a tensão. Finalmente se lembrou de Twin.
- Leon? -Perguntou ele, hesitante.
- O que foi? -Respondeu o amigo, pensativo.
- Por que o Twin fica tão tenso quando você aparece?
Leon riu. Sua risada era leve e estimulante. Sirius lembrou de quanto sentira a falta dela nos últimos dias. As coisas estavam quase voltando ao normal.
- Na verdade é uma coisa bem antiga.
- O que é? -Perguntou Sirius, curioso.
- Oh, bem, espero que goste de histórias longas e estranhas. -Disse Leon.- Mas na verdade é mais estranha do que longa.
“Eu conheci o Twin antes de conhecer você. Nós nos odiamos desde que nos vimos pela primeira vez, na rua. Eu estava procurando um lugar para passar a noite. Finalmente, achei um pequeno buraco perto de uma árvore, que deveria ter sido uma toca de coelhos ou coisa assim há tempos atrás. Quando fui entrar, percebi que não estava sozinho. Twinsanity estava correndo para lá como eu.
- Essa toca é minha! Eu a vi primeiro. -Ele disse.
- Deixe de ser idiota. -Respondi. Eu já estava quase dentro dela quando você chegou.
- Idiota é a mãe. Eu vou é e dar uma bela de uma surra pra você ver o que é bom.
Nós lutamos por algum tempo e ele me venceu. De qualquer modo, saí dali rapidamente.
Em outra ocasião, nós nos reencontramos na rua. Eu havia conseguido um pedaço de queijo e estava feliz até que fui roubado. Corri atrás do ladrão e o reconheci.
- Nos encontramos de novo. -Ele disse, com uma risada idiota.
Eu já estava de saco cheio. Fui para cima daquele cara e quase o matei.
Acho que é isso.”
- Ah. -Disse Sirius, pensativo.
- Eu pessoalmente nunca gostei muito dele. Só sei que era um cara muito rude quando andava nas ruas. Não sei como ele mudou.
- E vocês brigaram mais alguma vez?
- Claro. Na Academia. Ele ganhou de mim todas as vezes. -Disse ele, amargamente. E então ele riu.- Espero que ainda consiga dar o troco. Olha ali. É uma carcaça de porco-do-mato, acho. O Charlie vai gostar dela.
Sirius riu, se aproximando da coisa enorme e nojenta iluminada pela Lua.
Mas Charlie ficaria com fome naquela noite.
Aquilo não era uma carcaça de porco-do-mato.
Os amigos não imaginavam o que estava por vir.

O Mestre
Leon chamou Charlie e se aproximou primeiro. Sirius foi atrás dele.
A coisa que estava no chão logo se revelou muito mais do que uma carcaça. Ela parecia ser de metal e brilhava fortemente à luz da lua. Charlie se apressou a farejá-la.
Sirius se aproximou cautelosamente. O objeto parecia uma sonda, uma máquina muito avançada. Leon o encarou e ele fez que sim com a cabeça.
Ao menor toque, eles deixaram de sentir o chão abaixo deles. Tudo pareceu rodar e os amigos passaram a sentir uma sensação especialmente estranha. Os ratos estavam sendo puxados por todos os lados. Sentiam que ainda estavam na floresta, porém será que estavam mesmo?
Repentinamente, a sensação parou e eles se viram em uma sala escura.
- Cara? Leon? Leon? -Perguntou Sirius, assustado.
- Estou aqui. Onde está o Charlie? -Perguntou Leon.
- Meow -Disse o filhote de gato.
- Onde estamos? -Perguntou Sirius.
- Boa pergunta.
Leon ouviu um rato se aproximar. Um rato BEM maior do que eles. As luzes se acenderam, cegando-os.
- Ora, ora, ora. -Disse o rato misterioso. -Vejam só quem está aqui! Bom trabalho, Débora.
- Débora? -Perguntou Sirius, atordoado.
Quando tudo voltou ao foco, ele pôde ver a rata na sua frente. Não havia como ler sua expressão. Ela estava impassível. E os amigos estavam amarrados. Não havia nenhum sinal de Charlie.
- Onde está Charlie? -Perguntou Leon, novamente.
O outro rato riu. Uma risada longa e maligna que os fez imaginar estar perdidos.
- Seu amiguinho foi dar uma voltinha no [I]canil[/I].
- Não -Sirius ouviu Leon dizer, baixinho. Ele realmente gostava daquele gato idiota.
- Deixe o Charlie em paz. -Rosnou Sirius.
- Talvez. Se vocês me derem o que eu preciso. - Respondeu o inimigo com uma voz terrivelmente fria.
Sirius de repente sentiu-o muito próximo. De repente, pôde vê-lo claramente. Era um rato de cor escura e com olhos muito vermelhos. Três cicatrizes antigas atravessavam seu rosto dilacerado, repuxando a borda do olho esquerdo para baixo. Suas palavras foram baixas.
- Você é o filho dos Indomáveis.
- Talvez. -Respondeu Sirius, nervoso e raivoso ao mesmo tempo.
- Sim, você é. Vejo bem os Espíritos dentro de você. Sua força é incrível.
- A minha força não te interessa. -Respondeu o rato. Sua raiva estava subindo rapidamente.
- Você não está em posição de me desafiar, verme. Você irá me servir.
Sirius rosnou. A conhecida sensação de uma raiva maior do que ele novamente se apossou do jovem rato. Listras azuis correram por seu corpo. Os seus olhos ficaram amarelos e suas pupilas diminuíram consideravelmente. De repente, ele destruiu as correntes que os prendiam e avançou para cima do inimigo.
O grito de Débora rasgou a noite.
- Mestre! NÃO!
Sirius de repente acordou, suando frio, no pequeno buraco abaixo da árvore em que estavam dormindo. Ele olhou em volta, desorientado. Não podia acreditar que aquilo fora apenas um sonho. Fora muito real. Real demais. Ele piscou. Leon estava deitado ao seu lado, dormindo a sono solto e roncando levemente, como de costume. Débora estava dormindo também, na outra extremidade do ambiente, juntamente com Amanda e Tainarak. Charlie estava deitado junto a Leon. Quando percebeu que ele estava acordado, veio direto para ele e cheirou seu rosto suado. Mas Sirius não lhe deu muita atenção. Afagando seu focinho distraidamente, encarou Débora. Ele a conhecia muito bem para saber que não estava dormindo. Sua respiração estava entrecortada, como a dele. Ela também suava frio.
De repente uma certeza o atingiu: Ela tivera o mesmo sonho que ele.
Olhando no fundo dos olhos verdes penetrantes de Charlie, percebeu que ele também não estava tranquilo. O gato estava com os pêlos eriçados e os olhos arregalados. As orelhas se colavam ao tronco em uma posição defensiva. O bichano estava assustado com alguma coisa.
- O que foi, hein, garoto? -Perguntou Sirius, coçando atrás das orelhas do animal.
Charlie correu para a abertura da toca, e depois olhou para Sirius, como se quisesse que ele o seguisse.
Com um suspiro, o rato levantou da sua cama quentinha, feita com folhas e palha, e o seguiu. Do lado de fora, uma coisa muito estranha se encontrava: A carcaça. A máquina.
Sirius começou a tremer. Tinha certeza de que era a mesma de seu sonho. Ele correu para dentro da toca novamente. Leon acordou com o barulho dos passos do amigo.
- Sirius? -Perguntou ele, sonolento. - Aconteceu alguma coisa?
Sirius descreveu o sonho para ele, detalhadamente. Leon arregalou os olhos.
- Eu tive o mesmo sonho há algumas noites atrás. Mas não era apenas isso.
- Como assim?
- No meu sonho, bem, no meu sonho você matava a Débora, cara.
Sirius encarou o amigo. De repente a sensação aterradora do sonho o apossou e ele desabou.
Não voltou à superfície.

Indecisão
Sirius ficou muito pensativo pelos dois dias seguintes. Ele se retirava e ficava sozinho por longos períodos de tempo. De vez em quando levava Charlie ou Leon com ele. Mas mesmo Leon não conseguia entender o que se passava na cabeça do amigo. Um dia, enquanto Sirius estava numa pequena clareira em estado meditativo, Leon e Débora saíram para dar uma volta. Eles caminharam um ao lado do outro em silêncio por vários minutos, circundando a região onde estavam. Enfim, Leon quebrou o silêncio tenso com uma pergunta.

- Débora, será que eu poderia te fazer uma pergunta? Uma pergunta delicada?

- Bem, você já me fez duas perguntas, mas pode me fazer outra pergunta. -Respondeu a rata, risonha.

- Ah… É que… Eu não sei se essa é uma pergunta muito… Ahn… -Gaguejou o rato, nervoso.

- Fala logo, Leon. Deixa de ser retardado.

Respirando fundo, Leon a encarou e perguntou:

- O que há entre você e o Sirius?

Débora o encarou longamente, parecendo avaliá-lo. Em seguida respondeu, com uma voz pausada:

- Nós somos… Apenas amigos. - Ela pareceu hesitar. - Não sei se eu deveria contar tudo pra você, Leon. Sei que é o melhor amigo do Sirius e ele confia em você mais do que em qualquer outro rato. Mas não estou segura quanto a isso, você me entende?

- Eu… Eu só queria saber o que houve naquele dia. O Sirius pareceu realmente abalado depois que eu contei meu sonho para ele. Você sabe qual.

- Sim. Mas isso não importa. Eu não posso… Não posso fazer nada, Leon.

- Débora, talvez você não saiba disso, talvez não se importe… Mas o Sirius realmente gosta de você.

Débora corou de repente. Ela encerrou a conversa quando se afastou, pensativa. Leon conseguia fazer qualquer um refletir. “Maldito pensador”, pensou a rata, enquanto ia para sua pequena cabana. Sirius ainda não voltara. Ele iria perder a chegada dos ratos da elite se não se apressasse. Preocupada com o amigo, e imaginando o que poderia usar na frente de visitantes tão nobres, se assustou quando viu Twin encolhido num canto, próximo a uma árvore. Ele tremia e parecia falar com alguém invisível. Débora se escondeu atrás de um arbusto, com os rápidos movimentos que aprendera na Academia. Observando o amigo, percebeu que ele não estava normal. Gritando para algo que não podia ser visto e tremendo assustadoramente, parecia querer se defender de algo ou alguma coisa.

- PARE! PAAREEE! SAIA DA MINHA MENTE!- Berrava o pobre rato, assustado, os olhos vidrados encarando o nada. - EU NÃO QUERO MAIS SER SEU SERVO! QUERO A MINHA LIBERDADE DE VOLTA! - Nesse momento Twin parecia estar recuperando um pouco da sua sanidade. Então o rato explodiu num grito terrível de agonia que reverberou pelos campos. Débora se encolheu. - AAAAAAAAAAAAARRRGH! PAAARE!!! JÁ CHEGAAAAAAA! NÃÃO! ME SOLTE! EU NÃO QUERO! PAREEE!

De repente, todos os outros ratos, que estavam pescando ou colhendo gravetos para preparar o jantar, vieram correndo num átimo. Enquanto corria, Amanda pensava, com desespero, o que era aquilo? A voz claramente era de Twin. Como um rato antes tão calmo e solícito poderia de repente entrar em tal estado de desespero?

Esse pensamento povoava a cabeça de todos.

Enfim chegaram à clareira. Twin gritava, segurando a cabeça com as patas e tremendo incontrolavelmente. Ninguém sabia o que pensar. Ninguém sabia o que fazer.

Até que Sirius apareceu entre as árvores.

Twin virou-se para ele num estado de fúria nunca visto antes. Os olhos do rato, antes castanhos, estavam brancos como a Lua, que iluminava tudo e dava às coisas um brilho sinistro. Seus pêlos estavam eriçados como os de Charlie, que acompanhava Sirius. Twinsanity jogou a cabeça para trás e gritou a plenos pulmões. Débora pôde perceber a sombra de seu mestre no rosto dilacerado pelo ódio, e isso apenas a deixou mais temerosa. Porém, sabia que, naquela situação, não era bom estimular o medo. Então apenas observou enquanto o rato se aproximava, passo após passo, para seu amigo Sirius, que observava a tudo, atônito, e paralisado.

- O ÚLTIMO! A ÚLTIMA PEÇA DA COLEÇÃO ESTÁ EM MINHAS MÃOS! EU O MATAREI COMO FIZ COM OS SEUS PAIS, JOVEM INDOMÁVEL! SUA ALMA SERÁ MINHA E O SEU CORPO PERECERÁ SOBRE AS RUÍNAS DOS SEUS AMIGOS! - Berrou Twin, com uma voz que não era dele.

E então ouviram uma voz grave dizer, ao fundo.

- O que está havendo aqui?

Sorentytok e Koburo haviam finalmente chegado. Os membros do esquadrão de elite estavam ali, observando, assustados, tudo o que estava havendo.

E Sirius se via diante de uma escolha terrível: O que faria? Matar o amigo ou deixa-lo ter sua alma?

O jovem indomável uivou de fúria e indecisão, na escuridão daquela noite sombria.

O fim
Sirius encarou o amigo, que ia em sua direção encarando-o com os olhos brancos cheios de ódio. O que tinha de ser feito, tinha de ser feito, pensou ele, com fúria. A passos largos se aproximou do monstro que vinha para cima dele furiosamente, e as conhecidas listras azuis percorreram seu corpo. Seus olhos ficaram azulados e brilhantes, como suas garras. Sem pensar, avançou. Ele ia matar o velho amigo. Num grito de fúria, invocou dez cannons ao mesmo tempo, lançando-os um a um. Twinsanity desviou de todos, pulando, e esquivando-se em sequência. Sirius correu na direção dele, e em sua velocidade tudo parecia ser uma grande parede verde e marrom. Naquela noite sombria, nada parecia correto. Com um arranhão, derrubou o adversário no chão, mas este pulou segundos antes de cair, pegando impulso em uma árvore e se jogando contra Sirius, que o chutou, lançando mais um cannon. Porém, Twinsanity desviou o cannon com as próprias patas e o jogou contra o outro. A batalha parecia não ter fim. De repente, uma luz cortou a noite. Era Sirius que parecia estar invocando uma coisa muito maior do que jamais poderiam ter imaginado: Um anvil god, do tamanho de uma pequena árvore. Twin uivou de fúria, se desviando dos braços da coisa, que parecia mesmo ter vida própria. Escalando-a muito rapidamente com as patas, ele cortou o prego principal, fazendo tudo desabar. Sirius pulou em cima dele, cortando-o com as garras, mas Twin tinha uma arma secreta. Imobilizando o adversário no chão, ele soprou um pequeno apito, que fez um som terrível como o de dez corvos grasnando de uma só vez. Do nada, centenas de pequenas fumaças negras surgiram em volta dos amigos, cercando-os. De dentro dessas fumaças, saíam ratos negros com os olhos vermelhos. Sirius sabia que aqueles eram os comparsas do inimigo. A batalha pareceu se tornar mais perigosa. Todos agora lutavam contra alguém. Mas aquela não seria a única surpresa da noite obscura. Amanda lutava habilmente contra um rato, que lhe parecia levemente familiar. E então ela percebeu. Todo o seu corpo pareceu congelar, pois aquele era Cheeseblazed. - CHEESE!- Gritou ela, desesperada. - Cheese, me escuta, por favor! Sou eu, a Amanda. Por favor, Cheese! Apesar do desespero da jovem, o rato parecia inflexivel, atacando-a e atacando-a novamente. Com um estalo, ela percebeu que Cheese não era o único conhecido. Todos os ratos perdidos na invasão estavam ali, lutando! O que era aquilo? Imersa em seus pensamentos, viu Tainarak gritar e apontar para a casa. - VEJAM! A morada humana pegava fogo, iluminando tudo em volta. O que havia acontecido? Aquela noite terrível só se tornava mais misteriosa. E, enquanto isso, a batalha de titãs entre Sirius e Twinsanity continuava. Nesse ponto, não era possível vê-los. Apenas uma bola de energia azul e negra podia se distinguir na escuridão, com raios e faíscas voando para todos os lados. Lá dentro, o que realmente acontecia era uma batalha entre o mestre de Débora e os espíritos Indomáveis. Enquanto lutavam, as bolinhas de energia, tão avançadas e evoluídas para a época em que estavam, sabiam que estavam fazendo o correto. O que estava dentro de Twin era na realidade o verdadeiro mal. E, com um lapso de fúria, fizeram seu último ataque. Eu poderia narrar aqui que foi uma coisa muito bonita e emocionante quando a batalha foi ganha. Mas não. O que foi visto foi uma gigantesca explosão azul. Sirius e Twin apareceram, quase mortos, no chão gramado. Mas a expressão em seus rostos era serena. Todos os presentes entenderam o que havia acontecido. Cada um levava as marcas da guerra em si. Machucados, hematomas e cortes pontuavam os corpos dos heróis que haviam lutado ali. E, congelados, esperaram o que aconteceria. Sirius se levantou, atordoado. Ele olhou para Twin, acordado também, e lhe estendeu a pata, o ajudando a se levantar. Os dois se encararam. O mal havia sido erradicado. E, enquanto olhavam para cada um dos ratos que lutara junto com eles na guerra terrível, percebiam que cada um deles era um herói. A emoção finalmente os envolveu. Cheeseblazed abraçou Amanda. Lukas e Thefernand cumprimentaram a todos, emocionados. Estava acabado. Sirius olhou para o horizonte, onde nascer do sol aparecia, glorioso, iluminando a cena. Ele sabia o que tinham de fazer. - Sirius? -Perguntou Débora, hesitante.- O que você pretende fazer agora? Sirius a encarou, feliz, antes de responder. - Nós vamos para casa. Todo o grupo se levantou e caminharam, juntos, rumo ao nascer do sol.

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